CABAÇA SEM SEMENTES

(Nós todos temos sangue de índio)


-ARNALDO DOMINGUÉZ DE OLIVEIRA-


Missionários no Alto do Rio Negro - 1914

Índio temia invasão de sua terra. Os invasores vinham armados e dispostos ao pior para concretizar a usurpação, chamada "gozo". Gozar sempre é esbanjar na desproporcional perda do objeto. Índio tinha razão de temer pois a igreja dos invasores não o considerava sujeito. Pelo contrário, quanto mais, o colocava na "roda dos expostos".


Terra de índio tampouco possui valor, segundo os critérios do outro sistema, enquanto - do índio - for. "A demarcação - afirma o atual cacique dos brancos - significa que aquele pedaço de terra será 'como se fosse' do índio". Cachoeiras, mata, rios, cultura, serão, façamos de conta, deles!


Mas índio não teve temor do pastor cuja única arma parecia ser aquele livro preto e suado, carregado no sovaco.


Não sacou que este também era um garimpeiro e veio decidido a peneirar as almas da aldeia.


Então índio foi virando evangelizado, só para ter alma reconhecida. Digamos que, para tê-la, a vendeu. Assim funciona o esquema na terra do branco.


Agora o senhor é o pastor do índio e prometeu que nada lhe faltará.


Portanto, aqueles poucos índios e suas duzentas línguas que escaparam do holocausto, finalmente, abriram mão de nada. Demos graças a deus!


Itaquaciara, 17/08/19.

Arnaldo Domínguez de Oliveira é Psicanalista, fundador do "PROJETO ETCÉTERA E TAL... Psicanálise e Sociedade" e conselheiro da Biblioteca Popular de Itaquaciara, D. Nélida, Itapecerica da Serra.


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