O ESPANTO DO JOVEM JUVENAL

-PAULO BORGES-


Dentre os mais cruéis meios de se propagar uma doença psíquica, um se destaca de maneira peculiar: trata-se do “surto induzido por irradiação neuro-psicótica”. De que se trata? Contemos a história do jovem Juvenal e garanto que você, caro leitor, será elucidado de maneira não menos peculiar.


Juvenal nasceu em 27/4/1958, às 10h22min, domingo, em São Paulo. Pesava 3,6 quilos. Mamou até os dois anos de idade. Fez xixi na cama até os oito. Filho caçula de um casal classe média, contava com três irmãos: Arabella, Birapira e Astaroth. Em seu primeiro dia de aula, ficou preso no banheiro da escola, fato que desenvolveu um irresistível desejo de matar. Começou a fazê-lo aos nove anos, quando destruiu um gato a pauladas em plena luz do dia. Aos quatorze, agrediu um colega de sala com um extintor de incêndio. Aos 22 anos já contava dois homicídios em sua ficha policial. Graças a um habeas corpus, foi posto em liberdade e seus pais acharam por bem interná-lo em uma instituição psiquiátrica. Foi lá que tudo começou.

Foi atendido pelo Dr. Ishpcrrrfhtofen, com larga experiência em psicopatias. Devidamente medicado, no início aparentava relativa calma, como um buda. Interagia bem com os demais internos, especialmente com Paulo, um alcoólico de 54 anos que lá chegara semanas antes, tão intoxicado por Baco que sequer reunia condições de andar sozinho. Numa tarde de julho, conversaram assim:

- Há uma coisa da qual nem mesmo Deus é capaz: fazer com que as coisas do passado nunca tenham acontecido, disse Paulo.

Juvenal pareceu não prestar atenção. Continuou a olhar para a grama e um louva-a-deus, que pairava, imóvel, sobre um pequeno galho d’ua arvrinha.

- Tudo bem - continuou Paulo -, o passado é fato, mas, se for para revisitá-lo, melhor que o seja para reconstruir o presente a partir dele.

Palavras vazias para Juvenal. Mesmo assim, ficou com pena do velhinho e disse:

- O passado não existe.

Paulo acendeu um cigarro e respondeu:

- Na verdade, o tempo, em si, é um mistério, pois o passado só existe em nossas mentes, jornais, livros, etc; o futuro nada mais é que uma promessa. E do presente, então, nem se pode falar, já que nunca existe, é fugaz como uma zebra em disparada. Por isso que não entendo a expressão “viver no presente”. “Viver o presente” seria gramaticalmente mais adequado, porém, na prática o passar dos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, tornam o presente uma impossibilidade irrefutável.

Juvenal quase se levantou. A aproximação de um louva-a-deus o manteve sentado. Paulo continuou:

- Por que você está aqui, mesmo, Juvenal?


- Dizem que sou psicopata.

Silêncio. O louva-a-deus poderia estar “escutando” a conversa?! Os demais internos estavam na área de lazer, era domingo, sol. O dia do sol.

- Como assim, psicopata?


- Sou violento e acham que algo não vai bem em meu cérebro. Na verdade, gosto da violência, de praticá-la, evidentemente, e não acham uma explicação para isso.


- O que disse o dr. Ishpcrrrfhtofen?


- Que está investigando.

“Investigando”. Parece desculpa de aleijado. Clara a incompetência do dr. Ishpcrrrfhtofen, pois o garoto nada mais é que um psicopata e, nesse caso, como em outros, não há tratamento, não se tira de dentro da pessoa a besta que nasceu junto com ela - pensou Paulo.

- E o senhor? Por que está internado?, indagou Juvenal.

Paulo não respondeu de imediato. Preferiu coçar a nuca por alguns instantes. Nesse momento, o louva-a-deus escalava o braço de Juvenal.

- Sou um alcoólatra - um bêbado, se preferir. Não posso ver uma garrafa de vodka que acabo com ela. Falo sozinho, durmo, tropeço, caio, deixo de tomar banho, vomito. Sou um traste.


- É verdade, declarou Juvenal. O senhor é um traste.

Por essa Paulo não esperava. Juvenal foi muito sincero e direto. Como alcoólatra, era dissimulado e mentiroso, só costumava “dizer as verdades” quando bêbado. Podemos dizer que se sentiu desconfortável.

- Já pensei em me matar, perdi a vontade de viver, embora Schopenhauer tenha dito que ¨o suicídio não é a consequência lógica da perda da vontade de viver, visto que o suicídio é um ato de vontade e não sua ausência¨, atestou Paulo.

Juvenal estava morrendo de tédio. Aquele velho decrépito não parava de dizer asneiras, e ele estava interessado mesmo era no louva-a-deus, que agora ruminava u’a folha.

- Apesar de que, para a grande maioria das pessoas, o suicídio é um ato covarde, desesperado, sendo que, para alguns, como os espíritas, por exemplo, aos suicidas é reservado um vale de sofrimento post mortem. Rêrêrêrê… também, o que esperar de gente que diz que ‘conversa’ com os mortos?, disse Paulo, e ficou a rir sozinho.

Juvenal esboçou risada amarela, mas estava prestes a apanhar o inseto cristão quando foi interrompido por uma paciente recente que ela desconhecia, que lhe pediu para acender o cigarro; quase todos fumavam naquele lugar, e não seria por conta disto que algum psiquiatra da clínica fosse fumante; maconha lá era proibida; sexo também (certo casal foi expulso pela prática sexual entre cobertores, pouco antes da internação de Juvenal); o terapeuta, Santiago, era rígido com as regras, e ele mesmo era um adicto em crack e bebida, com alguns anos de abstinência; era pessoa carismática, e compensava sua baixa estatura com desenvoltura verbal. Juvenal lhe perguntou se ele sentia vontade de se drogar e de beber.

- Claro que sinto!, respondeu Santiago, tanto que todos os dias mentalizo que devo evitar a primeira tragada ou o primeiro trago. Só não tenho tido sucesso com o cigarro, continuou, mostrando uma maço de Marlboro Box.

Juvenal gostou da sinceridade do terapeuta, e disse-lhe:

- Pois eu sinto vontade de curar minha tendência à violência, mas não consigo deixar de delirar com cenas de violência. Você acha que eu tenho cura?

Santiago, sabedor que estava diante de pergunta delicada, respondeu, pelas tabelas:

- É o mesmo que me perguntar se câncer tem cura. Não sei te dizer, mas o que importa é tua real vontade de mudar.

Juvenal ficou a pensar nessa questão e percebeu que o louva-a-deus tinha ido dar uma volta. Foi então que a ideia mesma de uma Natureza cruel, em que quem desse o primeiro golpe sempre sobrevivia, lhe veio à mente; pensou que, apesar de suas tendências nada nobres, muitas coisas boas tinha dentro de si, a ponto de poupar a vida de tanta gente que já teve vontade de matar e oportunidade para isto.

Permaneceu em tratamento por alguns meses, até que, certa tarde pegajosa de um domingo qualquer, escalou a torre da caixa d’água da clínica psiquiátrica e, de lá, se lançou para a morte, sem saber qual seria seu destino - se viveria em um vale amaldiçoado por algum deus de cuja existência duvidava ou se simplesmente encontraria a interminável noite da solidão eterna.

Paulo de Campos Borges é escritor.



37 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo