PRÉ-HISTÓRIA

-ARNALDO DOMÍNGUEZ DE OLIVEIRA-


Deitada na eterna cadeira,

A língua,

Repousa do lado de fora,

Na esquina, do lado da vida,

namora.

No canto de dentro do gasto retrato,

Ovalado,

O dialeto finado,

Levanta da funda poltrona,

Curvado, achacado,

E aspira à sua vida na quina,

Do quadro.

Tombado.

Figuras de estilo penhoram cadeiras

Da enferma senhora,

E ignoram os lados de dentro e de fora.

Sentadas na vaga lembrança,

Suas almas, penadas,

Aquelas isentas da ação da palavra,

Se inclinam, se beijam, balançam, alcançam,

Sentido que diga algo novo da vida,

Perdida,

Depois desse dia em que juntos partiram.

(1988/2020)


Recuperei esta poesia de uma velha agenda e trabalhei encima dela na atualidade, considerando que corresponde ao período da desterritorialização linguística que atravessei no tempo (longo) da minha migração.


Decepcionado pela (des)humanidade dos habitantes da terra natal (não todos, óbvio), na década de 1970, paulatinamente, soltei as rédeas do potro vigoroso da emigração. Anelava por encontrar um mundo melhor, mas – infelizmente – ele só existe internamente.

Na Argentina enfrentávamos horrores totalitários e genocidas que agiam em discursos “bipolares” entre os extremos da direita e da esquerda. Circunstância em que a possibilidade democrática perde a perspectiva dialética e alcança, pelo fracasso da metáfora paterna, o real da violência, que não responde à dialetização. A este impasse se associa o gozo dos perversos que, instrumentalizados ao reconhecimento do “Führer” de plantão, debocham de maneira vulgar e institucional das fragilidades remanescentes. E aqueles foram particularmente hostis à nossa juventude interiorana, pois eu era apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes influentes. Não que outros povos fossem melhores do que aquele. Constatação tardia!


A população, como é de hábito, responde denegando com descrédito – “algo devem ter feito”, “não é para tanto!”, “são subversivos!” – ao processo que culmina, repetitivamente, no holocausto onde se paga com a vida de tantos/as que, por fim, desaparecem.


Nestas épocas que se repetem em elipse pelos ciclos da história recrudesce, protecionista, o discurso do nacionalismo moral do qual, os menos avisados, são sempre, concomitantemente, as vítimas e os promotores. Eu próprio, antes do ingresso à Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Córdoba, colei um adesivo no vidro dianteiro do carro familiar. Estava escrito: “Yo quiero a la Argentina, y Ud.?”. Hoje sei que era um equivalente do “Ame-o ou deixe-o!” do tempo do AI5 brasileiro.


Freudianamente podemos afirmar que o cliché nacionalista, o amor a pátria, o amor ao pai tirano, a devoção e cuidados para com a mãe abusadora, etc., são fruto de uma reação superegoica instaurada precocemente, em razão dos desejos parri ou matricidas da infância. O sentimento de culpa que acompanha o recalcamento da representação insuportável (o afeto se reprime e a representação se recalca, sendo dois procedimentos diferentes, pré-consciente e inconsciente, respectivamente) se manifesta pela via contrária de sua fonte original. Podemos aprofundar esta conceitualização posteriormente, por ora, apenas, para ilustrar, relatarei uma observação que situo na pré-história imediata do meu percurso psicanalítico.


Em 1988/89 fiz um curso de extensão em “Gerontologia Social” no Instituto Sedes Sapientiae. Lá conheci minha querida amiga psicanalista e “amazona”, Silvia Wolf, alemã que retornou a seu país tempos depois, mas continuamos em contato e afeição. Afinal, foi ela quem me apresentou à obra de S. Freud, que carregava, misturada às selas de montar, no porta-malas de sua enorme viatura, uma Caravan da Chevrolet.

Durante algum período daquela ocasião, enquanto teorizávamos sobre a “Relação médico-paciente idoso” e sonhávamos com um “Hospital de dia”, compartilhamos uma casa na Rua Dronsfield, no bairro da Lapa, na cidade de São Paulo, rua onde ainda continuo, semelhante ao Real.

Certa vez eu fui até a sala de recepção para saber se havia chegado meu paciente e só encontrei uma jovem mulher sentada na poltrona, lendo o jornal. Não podia ser minha próxima paciente, já que eu era Geriatra. Fiz algum suave barulho para chamar sua atenção, mas ela estava absorta na leitura. Havia uma peste assustadora se espalhando pelo mundo. Alguns ficavam mais sossegados frente a isto, porque acreditavam estar fora dos “grupos de risco”. Ledo engano!


De repente, abriu-se a porta do consultório da analista e lá se assomou uma garotinha, loirinha e com Maria Chiquinha, tipo baixinha da Xuxa, e fez um gesto, que parecia de alívio, enquanto sorria encabulada olhando para a leitora que, agora sim, interrompera sua concentração. Depois disso, a pequena retornou à sua sessão de análise. Então a moça, finalmente me olhou e disse, com evidente satisfação:


- É minha filha!

- Que linda! – respondi.

- Ela não fica muito tempo longe de mim!

- Nota-se!


Ambos sorrimos. Foi um momento feliz.


Mas quando foram embora, atiçado pela curiosidade, fui ter com a minha amiga germânica. Contei-lhe a cena externa e ela, então, minha parceira de inquietações clínicas, me relatou a ocorrida no interior de sua sala.


A menininha montara a família com os bonecos da ludo-terapia. Descrevera cada um, pacientemente:


- Este é o papai, que trabalha e volta muito cansado para casa. – Acomodou o papai numa poltrona.

- Este é o meu irmãozinho que fica o tempo todo no colo da mamãe e que agora está com a Vovó. Colocou ambos num canto mais distante.

- Esta sou eu! Que não quero ir pra escola! – Se posicionou no centro da cena.

- E esta é a mamãe! – E, ao dizer isso, num impulso, puxou com força, segurando com ambas as mãos, o boneco representativo da progenitora e.... arrancou-lhe a cabeça!


A seguir, tomada por uma expressão acabrunhada, se dirigiu até a porta, através da qual saiu e representou a vivência da cena que eu pude presenciar. Quando retornou à sessão:


- Que aconteceu? – interrogou a analista.


- Não aconteceu nada! - Respondeu a criança, de quase cinco anos de idade, franzindo o cenho, e depois permaneceu em silêncio indicando o término daquele encontro. Havia se instaurado a eficácia de uma instância estruturante na sua subjetividade. E uma reação contra-fóbica, como descreve Freud. Um dos destinos da pulsão.


Minha entrada ao universo da Psicanálise aconteceu, certamente, através desta porta que, intermitente, continua a abrir e fechar: isso pulsa. Digamos, eu entrei pela porta dos fundos, que, nesta disciplina, é, também, a porta principal. Lugar de controle do amor e da agressividade.


Assuntos tão contemporâneos.



ARNALDO DOMÍNGUEZ DE OLIVEIRA é Psicanalista, fundador do "PROJETO ETCÉTERA E TAL... Psicanálise e Sociedade" e conselheiro da Biblioteca Popular de Itaquaciara, D. Nélida, Itapecerica da Serra.


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