Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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PESADELO DE UMA NOITE DE INVERNO ou SHAKESPEARE CHOROU

- Sebastião Vilela Staut Junior -

Só mais uma noite de inverno quente, tempo seco, muito tráfego antes de chegar em casa para o merecido descanso.

Quase que automaticamente, ligo a tv e sintonizo no jornal da emissora aberta, daqueles que a gente assiste sem muita atenção, como cumprindo um ritual antes de subir e tirar o paletó. Foi impossível, no entanto, não escutar que o governo, mais uma vez, encetava medida autointitulada liberalizante visando “destravar” a economia. Mais do mesmo, uma preguiça só...

Mas eis que, desta feita, se superaram. A medida pretendia, em sentido prático, virtualmente extinguir, ou esvaziar por completo, os conselhos profissionais, dentre eles, sem maior cerimônia, nada menos que a Ordem dos Advogados do Brasil.

Tomado pelo cansaço, pelo desânimo provocado pelas notícias, foi impossível conter o sono. Ele veio pesado, intranquilo, propício ao pesadelo. E assim foi:

Embalado nas brumas da sonolência, encontrei-me súbito no reino da Brazolândia, em época indefinida, sinais trocados, reminiscências ora de situações vividas, ora do que li, por vezes o puro nonsense que permeia os sonhos dos repousos intranquilos.

Era um mundo em que estavam extintos os conselhos profissionais. Era o domínio dos rábulas, ignorantes ou mesmo analfabetos, desfilando pressurosos com suas pastas de documentos, muitas vezes para defender em juízo os dentistas práticos, uma vez que estes amiúde inutilizavam as bocas desavisadas e quase desdentadas dos pobres que deles se socorriam.

A medicina, sobretudo as cirurgias, era praticada pelos barbeiros. Juro ter visto Manuel Antonio de Almeida e seu Leonardo à procura de um facultativo, num quadro macabro onde um hipster tomando cerveja e sentado numa Harley Davidson incumbia-se de ser o chefe de todo o espectro cirúrgico, cuja entrada era indicada pelo onipresente pirulito giratório de faixas vermelhas ascendentes. Num exemplo de eficiência mercadológica, estava ao alcance de todos ter o apêndice extirpado e ainda por cima sair com um penteado “à la mode”.

Nesse admirável mundo novo (acho que alguém já disse isso antes de mim), já sem as amarras do politicamente correto, estava ao dispor de qualquer cidadão de bem extravasar seus demônios, pelo hábito, então muito em voga, de xingar e diminuir diferentes de toda ordem, fossem homossexuais, mulheres, negros, mulatos, índios ou qualquer um que se afastasse do padrão estabelecido. Caçoar de gordos e pernetas era o máximo, e as gargalhadas altas davam o tom de alegria dessa sociedade nova, sem os freios construídos pelos progressistas e que tanto entristeceram o mundo.

Nas praças, as crianças se divertiam alegremente com suas carabinas e escopetas, disputando com entusiasmo os últimos exemplares de pássaros lebres ou pacas ainda existentes. Enquanto isso, os papais orgulhosos aceleravam suas motosserras, confeccionando artísticos banquinhos para a família ou acumulando lenha para o tradicional churrasco de hambúrguer. Os mais radicais preferiam fritá-los, habilidade culinária que poderia render altos postos na administração e portanto muito valorizada.

Não havia velhos nos parques (os poucos que restaram). Estavam todos trabalhando, ao menos os que ainda conseguiam, ou então mendigando pelas ruas. Um efeito lamentável, mas sobretudo indispensável, para que fossem atingidos os enormes benefícios propiciados pela extinção do regime previdenciário outrora vigente. Aquela velharia, aquele atraso, aquele anacronismo antimercado do tempo do Getúlio.

O que vale, afinal, são os jovens. E aí, enquanto os mais ousados deixavam trilhas de fumaça em suas Vemaguetes e motos 2 tempos, desfrutando do prazer de dirigir, sem os riscos de multas, câmeras e pontos em carteira, a turba aplaudia empolgada os rachas incríveis e postava os vídeos nas redes sociais. A lamentar um ou outro acidente, uma ou outra criança ferida ou extinta mas, fazer o que. Vamos combinar que aquela cadeirinha é mesmo um estorvo e, ainda por cima, deixa o carro feio.

Na feira, podia-se encontrar todo o tipo de produto, pois vigilância não mais havia, Apenas recomendava-se lavar bem tudo o que fosse comprado, para não ficar de boca azul, vermelha, verde ou roxa com os novos conservantes e agrotóxicos que, afinal, permitiam toda aquela fartura e desenvolvimento. O destaque em todas as feiras era a soja, que substituíra as inúteis florestas cheias de mosquitos, e as laranjas. Sim, as laranjas, muitas, belíssimas, de todos os tipos e formatos.

Interessante dizer que, na barraca do peixe, não se faziam mais embrulhos com jornal. A propósito, este fora extinto e proibido em todas as suas formas, sendo que a mera posse de um exemplar, ainda que antigo, poderia levar o portador à prisão, mediante o processo rápido que lá em Brazolândia se instalara.

Sim, havia um novo processo, rápido, eficiente, onde tudo se fazia de uma só vez: o acusador era também o juiz que era também o tribunal e tudo se resolvia ali, sem firulas. Era tudo muito liberalizante, muito mercado, muito, muito ...

Aff ! Acordei, suado, tremendo, com sede.

Foi só um pesadelo, ainda bem... vida que segue!

SEBASTIÃO VILELA STAUT JUNIOR é Procurador do Estado de São Paulo e membro do IBAP. Esta crônica foi redigida especialmente para a Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares.



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