conta bancária celestial (heavenly bank account)

Atualizado: 5 de Ago de 2019

-RUI VIANNA-


(c) B. Petry

A canção Heavenly Bank Account, escrita por Frank Zappa em 1981, (que pode ser ouvido neste link) foi inspirada no pastor evangélico norte americano Jimmy Swagart, entre outros, um dos primeiros a se utilizarem da televisão para expandir seu “rebanho”. A utilização aqui do termo “rebanho” não poderia ser mais apropriada, e talvez nem seja irônico.


Em vários trechos da letra (que pode ser vista neste link, com tradução) fica clara a intenção do autor em desmascarar o comportamento nada religioso (e sim mercantilista) daquele que tem “Vinte milhões de dólares em sua conta bancária celestial, tudo tirado daqueles idiotas renascidos”, além de “sete limusines e um avião particular”. Notam alguma semelhança com, por exemplo, Edir Macedo?


Pois é, não se trata de mera coincidência. A canção foi composta (ou apareceu em público pela primeira vez) em 1981, e o pastor já era um super astro milionário. Paralelo a isso, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), foi fundada pelos bispos Edir Macedo e Romildo Ribeiro Soares em 1977. Em uma pesquisa rápida sobre as origens da IURD, vê-se que Macedo era seguidor de uma seita pentecostal canadense chamada Nova Vida, que marcou presença no Brasil em 1960.


Alguns anos depois, Edir Macedo e R.R. Soares fundaram o que chamaram de Cruzada Pelo Caminho Eterno. De lá para cá... bem, lembram da música? Pois é.


A influência religiosa na vida política é uma realidade em vários lugares do mundo. Econômica também. À custa da exploração da fé alheia, vários bispos e pastores neopentecostais não só enriqueceram como ascenderam na política, diretamente apoiados pela comunidade, como a realidade que vivemos há alguns anos no Brasil, com crescimento progressivo da bancada evangélica tanto na Câmara Federal como no Senado.


Essa escalada de poder, cada vez mais acentuada, nos trouxe um pacote de intolerância, retrocesso, fundamentalismo e moralismo, que resultou no caldo de cultura onde estão sendo cultivados o ódio, o desrespeito à diversidade e ao diferente, sem contar a estética pavorosa e a deslavada hipocrisia de pastores que pregam uma coisa e fazem outra, diametralmente oposta. Basta ver a quantidade de denúncias existentes, no campo sexual e de costumes, assim como de estelionato puro e simples. Mergulhamos num caldeirão infernal, onde ardem todos, os que creem e os céticos, dado o caos social daí resultante.


A sede de poder e riqueza dos neopentecostais contraria tudo aquilo que qualquer religião prega, aproveitando-se do fanatismo do seu “rebanho” de forma abjeta e inescrupulosa, tirando de seus fiéis aquilo que eles não têm.


Se aqui me referi à IURD, só o fiz por tratar-se da mais famosa e bem sucedida das organizações aqui estabelecidas, mas totalmente consciente de que a concorrência é feroz e gera, não raro, brigas e escândalos de grandes proporções, entre o que poderíamos chamar de “facções” desse ramo religioso.


Em recente fala daquele que ocupa hoje a presidência, foi questionado textualmente se “Não seria a hora de termos um Ministro evangélico no Supremo?”. O que poderia ser mais afrontoso ao princípio do Estado Laico, da não interferência religiosa na administração da Justiça?


Nessa altura, devemos nos questionar: Quem ainda acredita na existência de um Estado de Direito, ou na aplicação e vigência da Constituição Federal?

Quando um governador evangélico afirma que mandaria um míssil e “acabaria com aquilo de uma vez”, o que podemos concluir?

Em uma das versões da citada canção, ao vivo, Zappa, que faz a voz principal, interrompe a música e brada, bem próximo ao microfone: Tax the Churches! (Taxem as igrejas!). Eu complementaria: Religião, só nas igrejas!, ou ainda: Igreja sem partido!


Há ainda uma outra canção do mesmo Frank Zappa, chamada Dumb All Over, que trata de forma extremamente ácida sobre o tema, discorrendo sobre as distorções e a cegueira causados pelo fanatismo religioso, que podemos ver na breve estrofe:


The Good Book says:

"It's gotta be that way!"

But their book says:

"REVENGE THE CRUSADES...

With whips 'n chains

'N hand grenades..."


Que, em tradução bem livre, seria:


O Bom Livro diz:

“Será dessa forma!”

Mas o livro deles diz:

“VINGUEM AS CRUZADAS...

Com chicotes e correntes

E granadas de mão...”


A alusão é clara quanto à contraposição dos textos legais à bíblia, e reafirma que, na visão religiosa, não se deve aplicar a lei, e sim o texto sagrado e destruir os infiéis. Bacana, não é?


Será que nossa conturbada realidade se encaminha para tão trágico desfecho? Ou será que já chegamos lá faz tempo? Quando um governador de estado, evangélico de nome atravessado afirma que, por ele, mandaria um míssil e “acabaria com aquilo de uma vez”, o que podemos concluir?

Rui Vianna é colunista da Revista PUB, onde escreve todos os dias 11 e 29 de cada mês, também é torcedor do Santos FC e aposentado.


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