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A NOSTALGIA NÃO É MAIS O QUE ERA

Atualizado: 5 de dez. de 2023

-SANDRA CUREAU-


Tomo emprestado o título do livro de Simone Signoret, a grande atriz francesa casada com Yves Montand. Para quem não sabe, Simone foi a primeira francesa a receber um Oscar de Melhor Atriz, por sua atuação em Room at the Top (1959) e, embora não fosse escritora, publicou livros autobiográficos.

Há algumas semanas, descobri no YouTube as gravações dos Festivais da Canção, realizados pela TV Record na década de 1960. Um parêntese: a antiga TV Record, fundada por Paulo Machado de Carvalho, em São Paulo, em 1953, em nada se assemelha à atual TV Record. Esta observação é absolutamente necessária.

Tendo iniciado sua atuação com transmissões esportivas, passou a abrigar, em seus “anos de ouro” - década de 1960 -, programas de auditório de grande sucesso, como “O Fino da Bossa”, apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, e “Jovem Guarda”, tendo à frente Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.

Também na década de 1960, embalada pelo êxito dos festivais de música popular brasileira, transmitidos pela TV Excelsior em 1965 e 1966, a TV Record teve a ideia de implementar Festivais da Canção.

Assim, no mesmo ano de 1966, nos meses de setembro e outubro, realizou seu primeiro Festival da Música Popular Brasileira, no Teatro Record Consolação em São Paulo. Os jurados escutaram todas as 2.635 canções inscritas.


Após as diversas fases eliminatórias, o júri escolheu “A Banda”, de Chico Buarque, interpretada por Nara Leão, como vencedora. Entretanto, devido à enorme consagração pelo público presente da música “Disparada”, de Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues, e também ao fato de Chico Buarque ter declarado que não receberia o prêmio sozinho, a solução encontrada foi anunciar o empate das duas músicas em primeiro lugar.

Outros festivais ocorreram até 1969 e conta-se, mesmo, que o primeiro festival da Record foi realizado em 1965, mas teve pouca repercussão. De qualquer modo, o declínio e o fim dos festivais foram fortemente influenciados pelo regime militar vigente e pela ação, cada vez mais forte, da censura política.


Houve, à época, outros tantos, pois, além da TV Excelsior e da TV Record, também a TV Globo ingressou no circuito, com os Festivais Internacionais da Canção. Quanto a estes, é de se ressaltar o III FIC (1968), no qual Geraldo Vandré obteve o segundo lugar com a música “Pra não dizer que não falei de flores”, que claramente criticava o regime militar. Tendo sido a canção que mais impacto causou na plateia, o compositor teve que pedir ao público, sob fortes vaias, que respeitasse Tom Jobim e Chico Buarque, como grandes compositores que eram, e a excelência de “Sabiá”, a vencedora. Geraldo Vandré foi o grande vencedor “moral” do III FIC, cuja música, sem ter vencido, tornou-se um hino contra a censura e a ditadura, então vigentes.




A par de haver distinções muito precisas entre os gêneros musicais politicamente engajados – caso da Música Popular Brasileira – e dos “alienados” – caso da Jovem Guarda- , havia um posicionamento preciso da juventude a este respeito, que se refletia no público que comparecia aos festivais. A Jovem Guarda era um subproduto do rock americano, totalmente apolítico, muitas vezes interpretando meras versões de músicas estrangeiras.


Quando os festivais ruíram sob a ditadura militar, muitos jovens compositores surgiram, ao lado daqueles que já vinham se opondo ao regime. A Música Popular Brasileira teve o seu período mais fértil a partir de então.


Ao constatar a quase absoluta indiferença da juventude de hoje pelos destinos do nosso país, não posso deixar de compará-la à daqueles tempos. Se a música era engajada politicamente, também o eram os jovens que a aplaudiam. Idealistas, inocentes, talvez. Muitos pagaram caro por isso. Mas, sem dúvida, vendo-os manifestar-se, com tanto entusiasmo, pelo que, para eles, representava a liberdade de criticar e de escolher o seu próprio destino, sinto saudade daqueles tempos.

 

Sandra Cureau é Subprocuradora-Geral da República, faz parte da diretoria da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil – APRODAB, fez vários cursos de especialização em direito ambiental na França, na Espanha e em Portugal e foi Vice-Procuradora-Geral Eleitoral (2009/2013)




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3 Comments


Ricardo Antonio Camargo
Ricardo Antonio Camargo
Nov 01, 2021

O texto me lembrou um filme de Claude Lelouch, do início dos anos 80, "Retratos da vida", no qual se comparavam as gerações que tinham vivido os horrores da II Guerra, em que não eram raras as demonstrações de solidariedade e companheirismo, ainda que sem um heroísmo grandiloquente, e os descendentes delas, mais preocupados com o respectivo conforto, e que no início da década 60 haviam praticado as atrocidades que marcaram o exército francês na Guerra da Argélia (no filme, referida apenas em um relance). O diretor Lelouch não tinha saudades dos horrores do III Reich na França ocupada, mas tinha saudades dos que tiveram desprendimento para saberem o quão execrável era colaborar com os conquistadores, ainda que pela mera…

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marceu-joelle
Nov 01, 2021

Salve Sandra: Bons tempos aqueles em que boa parte dos jovens tinham uma consciencia diferente. Esta realidade tambem eu constato aqui na Suiça. Felizmente, nosso filho Yves, agora com 20 anos, nao faz parte deste grupo. Um grande abraço e felicidades.

Marceu Queiroz Trois

Avenue de la Fusion, 42

1920 - Suiça.

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Madeleine Hutyra
Madeleine Hutyra
Oct 30, 2021

Ótima a comparação entre estes dois tempos, tão diferentes na criação musical e também no engajamento político dos jovens. Parabéns, professora Sandra Cureau!

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