Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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O PARA-RAIO, O SENSO COMUM E AS POLÍTICAS PÚBLICAS

- Celso Augusto Coccaro Filho -


A materialização de personagens históricas é um passatempo divertido.


Leia tudo que puder sobre o personagem que lhe interessa.


Detenha a atenção nos seus retratos.


Em geral um difere muito do outro, mas sempre há pontos comuns: o bigode, a cor dos olhos, o desenho da testa.


Contemple o quadro que lhe pareça real: olhe para ele de perto, muito perto, como se o estivesse beijando; coloque-o longe, mais ou menos três metros, e circule ao seu redor. Aproxime-o de novo, gire como se tivesse três dimensões. Imagine a saliência do nariz, os pelos sobressaltados das sobrancelhas.


Tente ouvir a respiração, sentir o odor, divague sobre o timbre e o ritmo da voz.


Com este método evoquei Robespierre, o curioso Maximilien Robespierre, o “ser felino” do Terror.


É um personagem difícil e fugidio.


Recentemente divulgou-se o que seria o seu rosto, por meio de reconstituição realizada sobre o decalque da máscara mortuária.


O que seu viu não foi nada satisfatório: uma face marcada pela varíola, com pequenos olhos verde-pálidos, estrábicos e rasgados pelo cérceo nariz pontudo, todo este conjunto encimado pela peruca empoada.


A esquerda francesa esperneou, com indubitável razão estética.


E a idade? O famoso revolucionário morreu aos 36 anos! Sua vida política foi construída na menoridade, tanto sob o limite constitucional brasileiro para a ocupação do cargo de Presidente (não é idade mental, decerto, o que teria excluído diversos candidatos eleitos) quanto pelo critério romano do pater família.


Numa das etapas da ressuscitação, descobri um fato curioso sobre o personagem, no início de sua vida.


Já formado em Direito, exercia a advocacia na província de Arras, quando foi convocado por um amigo e incentivador – um tal Monsieur Buissart, também advogado – para intervir num processo peculiar.


Tive contato com esta informação no livro de Ruth Scurr, “Pureza Fatal – Robespierre e a Revolução”, que dedica, porém, apenas duas páginas ao fato.


Vasculhei bibliotecas, físicas e virtuais, na busca de detalhes deste processo, e com enorme satisfação, quando já dava tudo por perdido, encontrei na biblioteca digital da Universidade de Stanford o artigo “The Lawyer and the Lightning Rod”, de Jessica Riskin, que se debruçou sobre o processo, item por item.


O que ocorreu?

Um certo M. de Vissery, residente na comunidade de Saint Omer, atento à modernidade de sua época, resolveu instalar um para-raios na sua residência.


O aparato, que era grandioso, aborreceu os vizinhos, que recorreram à comuna local e conseguiram embargá-lo.


O conflito era insuperável: Vissery afirmava que o para-raios traria segurança à comunidade, porque impediria que um relâmpago desavisado caísse sobre a sua casa, a incendiasse e propagasse o fogo para as demais.


O receio dos vizinhos era oposto: o monstruoso aparelho atrairia os raios para a comunidade, atiçando os céus, o que aumentaria as possibilidades de uma catástrofe.

Vissery recorreu do embargo e pediu o auxílio de Buissart.


Tencionavam ambos realizar uma espécie de perícia, ou prova científica de que o aparelho estava adequadamente instalado e de que o receio dos moradores era infundado.


Buissart chamou Robespierre para auxiliá-lo a convencer a Corte de Arras da natureza inofensiva do aparato.


O jovem Maximilien pensava de maneira diferente.


Os para-raios já haviam sido suficientemente testados; já se sabia como funcionavam; em Paris havia vários; Benjamin Franklin, exemplo de liberdade e republicanismo, já o consagrara.


Logo, os para-raios integravam o “senso-comum” e a realidade natural, que não poderia ser contrastada pela crendice de aldeões e dispensaria prova técnica redundante.


Embora a perícia provavelmente se mostrasse favorável, o jovem advogado insistiu: a questão está no senso comum, saiu do domínio técnico.


A causa foi vencida, Vissery manteve o para-raios, Buissart editou um artigo sobre o sucesso (com a ajuda do famoso Condorcet) e Robespierre convenceu a todos que a sua defesa teria que ser publicada.


Isto foi feito, e o advogado de Arras a enviou, orgulhosamente, a Benjamin Franklin.


Este fato ajudou a destacar Robespierre e a impulsionar a sua carreira política, tendo sido eleito representante do Terceiro Estado pela Província de Artois.


A tese guiou a sua posição na Constituintee na Convenção Nacional, até o amargo fim: o senso-comum republicano deve se sobrepor ao artificialismo forçado da representação monárquica.


Não se esqueça que Robespierre era discípulo de Rousseau, que defendera, no “Discurso sobre as Ciências e as Artes”, que o homem abdicara de sua pureza de sua força, honradez e probidade – e de sua inteligência – ao se subjugar ao cientificismo raso.


O transporte deste enfoque para o atual momento de poucas luzes causará dificuldades.


Não nos preocupemos com o terraplanismo, tema reservado a lunáticos.


Assunto de terráqueos são as políticas púbicas das mais diversas.


Não é preciso se socorrer de um perito, para constatar que espalhar aleatoriamente ciclovias em aclives acentuados seria um fracasso.


Ou para identificar qual é a velocidade razoável para garantir a segurança nas estradas; que as pessoas precisam aprender a conduzir seus veículos, antes de se lançar pelas vias públicas; que voos noturnos e sem limitações para Fernando de Noronha causarão danos ambientais irreversíveis; que agrotóxicos são perigosos; que armas de fogo são ainda mais perigosas e que não são bens comuns abertos consumo; que 42 graus centígrados em Paris indica uma tendência climática bastante aquecida.


Perdeu-se em algum canto o senso comum, ou, como alertava Rousseau, as pessoas estão menos inteligentes, mais débeis, menos probas...

Celso Augusto Coccaro Filho escreve todo dia 30 de cada mês na Revista Pub - Diálogos Interdisciplinares. É escritos e procurador do município de São Paulo, além de sócio fundador do IBAP.


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