O Silêncio dos Bugios

Atualizado: 14 de Jan de 2019

- Adriana Abelhão -


Os bugios eram ótimos vizinhos. Camuflados, sempre na contraluz, tínhamos que apurar o olhar para vê-los sempre nas copas das árvores mais altas. Com o tempo nos acostumamos a pressenti-los pelo farfalhar nas árvores. Esse encontro sempre trazia-me uma felicidade imensa. Estar ao lado de um animal silvestre, em bando de sete, até oito indivíduos, um dos maiores macacos das Américas, alimentando-se das folhas das árvores da Mata Atlântica que tanto preservamos. Eu gostava de ver quando puxavam uma folhinha ... e a levavam à boca. Os mais novos olhavam com curiosidade e medo para nós. Ficavam de ponta cabeça por pura graça. Eu tinha o coração na mão por um milésimo de segundo, quando um deles pulava de um galho para outro, naquele voo pequeno e acertado, e descia com o galho que flexionava. Ele sabia que não cairia, mas eu vivia essa aflição neste segundo de vida que nos era permitido viver. E eu que já sabia desde pequena que não somos donos das árvores, como não podemos possuir as montanhas, os rios e o mar, mais do que nunca tinha a certeza de que as árvores de nossos quintais não são nossas, são da terra, da água, do ar e dos bugios. Com o tempo fomos ficando íntimos. Durante nosso trabalho de "contação" de histórias para as crianças, lá no jardim da Biblioteca Dona Nélida, nosso espaço encantado, parávamos tudo para ver os bugios passarem. Muitos contam que os bugios jogam cocô nos humanos, mas em nós não, nunca, nunquinha mesmo, em nove anos de atividade de nossa biblioteca. A princípio dissemos às crianças que não gritassem, nem gesticulassem muito, para não espantá-los e com o tempo as crianças mais velhas ensinaram as mais novas e assim aprendemos também com elas. A cada visita os bugios chegavam mais perto. Olhavam curiosos, apuravam o olhar, viravam suas cabecinhas. E dessa aproximação pudemos conhecer quais as folhas e frutos de que mais gostavam e o pé de Jurubeba era o local de nosso ponto de encontro. Muitos sabem que os bugios tem um ronco poderoso, que sai de uma caixa ressonante debaixo do queixo. O povo diz que roncam para avisar que vai ter chuva e quase sempre é verdade. Na liberdade desses seres da Mata Atlântica que ainda resiste, ouvíamos o ronco deles de longe, de perto, de não sei de onde e eu cá comigo pensava: roncam sim para chamar a chuva, mas também para dizerem “somos livres e estamos em nossa casa”. E os roncos não eram iguais. Tinha também o ronco do amor. Descobrimos o ventre dilatado das fêmeas e em pouco tempo o filhote pequeno e assustado, agarradinho na barriga da mãe. À tardinha, de quando em quando, éramos agraciados com o pernoite do bando. Eles gostavam dos galhos fortes de uma Araucária muito alta, talvez a mais velha, dada ao abraço e ao aconchego. Se fosse um final de tarde quente, ficavam lá mesmo, tomando sol de um jeito que nem sei explicar. Pois era assim. O sol fazendo o pelo deles brilhar, o pelo vermelho, o pelo do Guariba. Guariba que em tupi guarani é pintado ... vermelho, como o Lobo Guará, o Guará do pantanal. Todos vermelhos. Esperavam pela noite e iam se juntando, juntando, os pequenos no meio, os maiores rodeando, o mais forte ao final. E era um bolo de bugio, como se fosse um só, um grande bugio que era o corpo de todos. O Guariba. E eu, que aprendi a amar esses vizinhos, me perguntava se eram fortes o suficiente para viverem sempre e em paz se estivessem ali suas árvores, se estivesse ali o Ribeirão Itaquaciara. Não pediam muito, não é? E nós passamos a ser defensores aguerridos das árvores e da água.

Entre o Natal e o Ano novo do ano de 2017 foi a última vez que vi os bugios. Eles estavam em sua Araucária, juntos, recolhidos para a noite que se aproximava. Estávamos em pleno surto da Febre Amarela. Além dos bugios eu amo também os sapos, tão frágeis quanto alguém pode acha-los feios. Os sapos são muito dependentes de água limpa. Como respiram pela pele de todo o corpo, se a água estiver contaminada, ele adoece e morre. E foi isso que aconteceu com os sapos e rãs do Rio Doce, gigantesco, todo tomado por lama contaminada.

O crime ambiental de Mariana, a devastação horrenda ocasionada pela ganância da atividade mineradora da Samarco, foi engendrada por homens e mulheres, reunidos em volta de uma mesa lustrosa, com janelas de vidro e ar condicionado, que de lá só analisaram gráficos e números e de forma irresponsável espalharam a morte até o mar e até nossos bugios, tão longe, lá em Itaquaciara. Soubemos pelo pescador que pode ouvir o silencio dos sapos que não sobreviveram, assim como os peixes. O coração do pescador gelou de medo, porque ele sabe que os sapos se alimentam dos mosquitos e os peixes das larvas, as doenças viriam. Uma relação tão delicada entre anfíbios e insetos, entre peixes e larvas, da água com a vida, não estava nos gráficos das salas envidraçadas, estavam o lucro do ano, o valor das ações da empresa na bolsa, as vantagens competitivas, o valor das commodities, os dividendos que seriam distribuídos aos acionistas. Mas o pescador com suas sandálias e sua roupa rota à beira do Rio Doce sabia que sem sapos e peixes haveria mais mosquitos, que viriam as doenças. E veio a Febre Amarela, implacável com os macacos e com os humanos, estes mais protegidos, os bugios sem quase chance alguma. O pescador ficou sem peixe, homens e mulheres perderam suas vidas, suas casas e nós perdemos também nossos amigos Guaribas. A tragédia de Mariana chegou até nós e trouxe a morte aos bugios, mas não só ela. Muitos foram cruelmente assassinados. Eu mesma tive que retirar um bugio sem vida do Ribeirão Itaquaciara. O homem do bairro que prestava serviço em minha casa recusou-se a sequer chegar perto do Guariba, com medo de “pegar a doença”, o que sabemos e repetimos milhões de vezes ser totalmente impossível.

Mas porque tanto ódio aos bugios?

Ao meu amigo Edson de Oliveira Dominguez peço licença para dar aqui sua resposta: porque os bugios ocupam um lugar simbólico do negro em nossa sociedade.

Não bastasse a Samarco, neste mesmo período de Natal fomos tomados por outro pesadelo da mineração. Soubemos que a empresa Votorantim Cimentos S.A. estava a passos largos com seu plano de ampliar sua atividade mineradora em Itaquaciara, há 5 km de nossa Biblioteca. Trata-se de uma pedreira que explora granito desde a década de 50 e a empresa pretende desmatar e destruir uma área de 20 hectares preservada de Mata Atlântica, com pelo menos 35 nascentes, coalhada de cursos d’agua. O próprio relatório de impacto ambiental encomendado pela empresa diz com todas as letras que o local tem Mata Atlântica tão preservada, mas tão preservada que dá sustento e abriga os animais que listo a seguir: onça parda, jaguatirica, macaco prego, bicho preguiça, veado mateiro, cachorro do mato, gato do mato pequeno, sagui da serra escuro, paca, caititu, tatu, quati, serelepe, gambá-de-orelha-pelada, cuíca marrom e furão pequeno, todos mamíferos. Têm répteis e anfíbios também e aves raras, como o Urutau e a Araponga. Os bugios também estavam lá. A Votorantim quer retirar o granito que está abaixo desta mata, ao custo de toda essa vida, ao custo da destruição desta mata que é fábrica das águas para todos que moram na RMSP.

Nós dissemos não a esse modelo de desenvolvimento, afinal, tantos campos há em nosso Estado, tantos e tantos devastados pela agricultura e pecuária intensiva, tomada por centenas de cupinzeiros e abaixo deles, com certeza, existe granito, ah como existe. Dentro das leis, nestes locais devastados é que faria sentido uma compensação ambiental. Qual seria a compensação possível por destruir uma mata tão preciosa, que sustenta tanta vida? Por que a Votorantim insiste em devastar a Mata Atlântica que ainda resta com seus animais e toda essa água, por quê?

A resposta é um conceito: VANTAGEM COMPETITIVA. A empresa quer as vias de distribuição próximas do mercado consumidor. A enorme pedra de granito de Itaquaciara está em meio a importantes estradas que barateiam o transporte da mercadoria, como a Rodovia Regis Bittencourt, o Rodoanel Mário Covas, a Rodovia Raposo Tavares e claro, perto do mercado consumidor que é a Região Metropolitana de São Paulo. Vantagem competitiva para quem? O lucro ao máximo do máximo. Um excelente negócio para a empresa e seus acionistas que visam à destruição da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, fábrica das águas com seus animais fauna e flora. Se a expansão for à frente, faltará água e novas doenças virão. E se prestarem atenção na quantidade de palavras dos povos originários que foram ditas desde o início deste relato, verão que todo esse desprezo não é só pela fauna e flora, pela terra e pela água, mas também pela memória dos homens e mulheres que nomearam toda essa natureza exuberante e foram massacrados.

O silêncio dos bugios é para nós pesado, doído, saudoso. Eu não tive a sorte, mas alguns já ouviram seus roncos no entorno da pedreira. Enquanto escrevo, ouço o silêncio ruidoso da mata e espero por seus sinais.

Muito obrigada

(c) Adriana Abelhão Participação Preservar Itapecerica da Serra na 9ª Jornada Internacional de Psicanálise 10-Nov-2018

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