Esta Derrota Histórica não comove um eleitorado traído
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-Guilherme José Purvin de Figueiredo-
Na quarta-feira (29/04), o Senado Federal rejeitou, por 42 votos a 34, a indicação de Jorge Rodrigo Araújo Messias ao Supremo Tribunal Federal — a primeira rejeição de uma indicação presidencial ao STF em 132 anos de história da Corte, criada em 1890.
A derrota expõe uma sequência de erros estratégicos do governo. Embora o nome de Messias tenha sido anunciado em novembro de 2025, a mensagem oficial ao Senado só foi encaminhada em abril de 2026 — quatro meses de paralisia que deterioraram as condições políticas para a aprovação. Nesse intervalo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que preferira o nome do senador Rodrigo Pacheco, promoveu represálias, incluindo a pauta de projetos inconvenientes ao governo. A articulação do Planalto demonstrou-se incapaz de garantir uma maioria em um Congresso que ocupa todos os cargos ministeriais disponíveis na administração federal.
A escolha do nome já carregava, desde o início, uma contradição insolúvel. Há dez anos, Jorge Messias tornou-se conhecido como "Bessias" ao ser mencionado em conversa interceptada ilegalmente pela Operação Lava Jato, na qual orientava a então presidente Dilma Rousseff sobre uma possível nomeação de Lula para seu governo. Qualquer que fosse sua posição ideológica, o episódio o marcava de modo indelével como figura ligada ao momento mais vulnerável da trajetória petista.
Para contornar essa fragilidade, Lula apostou em um candidato supostamente palatável à direita religiosa: um evangélico declarado, que usou durante a sabatina uma pulseira com a inscrição "sempre foi Deus" e que declarou ser "totalmente contra o aborto, absolutamente", defendendo que eventuais mudanças na legislação sobre o tema cabem exclusivamente ao Congresso. A aposta fracassou. A direita não ignorou o passado do candidato — e votou contra.
O cálculo também custou caro à esquerda. Ao recusar-se a indicar uma mulher, uma pessoa negra, uma indígena ou qualquer representante das minorias que formam sua base eleitoral, Lula alienou quem poderia ter defendido a indicação com convicção. O resultado foi uma derrota que não comoveu ninguém: nem a direita, que votou contra por razões óbvias, nem a esquerda, que mal encontra motivos para lamentar. O paralelo com Joe Biden é inevitável: assim como o presidente americano desperdiçou a oportunidade histórica de conter o avanço do fascismo com um governo à altura das expectativas de quem o elegeu, Lula parece repetir o mesmo erro — o de governar para o centro imaginário em vez de governar para a maioria real que o colocou no poder. Governos tíbios que sequer têm coragem de dar nome ao fascismo não o derrotam; apenas o alimentam.
Com mais da metade dos 38 ministérios distribuídos ao Centrão, contra apenas 37% reservados ao bloco de esquerda que elegeu o presidente, o governo Lula é, em sua composição, majoritariamente ocupado por forças que não compartilham o programa que o levou à vitória. Esse desequilíbrio torna ainda mais desconcertante a derrota na indicação ao STF: um presidente que entregou mais de 60% do poder ministerial ao Centrão não conseguiu extrair os ínfimos 41 votos necessários para aprovar seu candidato no Senado. A chance de uma catástrofe eleitoral em outubro cresce a olhos vistos.
Invoco aqui o artigo "Quem avisa amigo é", de Bernardo Lins, publicado nesta Revista PUB, onde apontou que Flávio Bolsonaro aparece pela primeira vez à frente de Lula num cenário de segundo turno — 42% a 40%. Mais revelador ainda é o colapso entre os jovens: os eleitores de 16 a 35 anos viraram à direita, com empate técnico no primeiro turno, enquanto a base lulista envelhece. Um governo que não forma novas gerações de convictos, que coopta em vez de inspirar, que distribui cargos em vez de construir identidade, colhe exatamente isso: a gratidão dos que já votariam de qualquer jeito e a indiferença — ou a hostilidade — de todos os demais.
A extrema direita saiu do episódio com um troféu duplo: não apenas humilhou o presidente da República, mas golpeou simbolicamente a própria Corte que tanto lhe incomoda. Num Tribunal que hoje conta com nove homens e apenas uma mulher, é difícil não lembrar da rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2023, quando Lula subiu ao poder acompanhado de uma catadora de lixo negra, do cacique Raoni, de uma criança, de um metalúrgico, de uma cozinheira, de um artesão e de Ivan Baron, portador de paralisia cerebral — a mais bela declaração de intenções que um presidente brasileiro já fez ao tomar posse. Aquela rampa dizia ao país e ao mundo quem Lula pretendia representar. A indicação de Messias disse o contrário. É improvável que a extrema direita tivesse tido essa ousadia diante de uma candidatura que honrasse o simbolismo daquele 1º de janeiro — uma mulher, uma negra, uma indígena, alguém capaz de subir aquela mesma rampa sem que parecesse uma contradição.
No fundo, o episódio Messias é apenas o sintoma mais recente de uma doença mais profunda. O eleitor que votou pelo Lula em 2022 não votou pelo Centrão, não votou pelo MDB nem pelo PSD, não votou por um governo que trata o fascismo como interlocutor legítimo e a pauta feminista como concessão arriscada. Votou pela esperança de que a esquerda, quando chega ao poder, governa como esquerda. Essa esperança, desgastada a cada ministério entregue como moeda de troca, a cada indicação calculada para agradar ao adversário, a cada recusa em nomear uma mulher, uma negra, uma indígena para a Corte mais importante do país, é o verdadeiro capital político que Lula está dilapidando.
É revelador que o mesmo Lula que capitula diante do Centrão doméstico demonstre firmeza e visão no plano internacional. Nas grandes questões geopolíticas, ele não hesita em tomar posições incômodas, enfrentar pressões e falar com a autoridade de um estadista. Mas essa coragem some quando o adversário está dentro de casa. No Brasil, Lula não lidera a esquerda — a administra, a contém, e quando necessário, a desmonta.
É nisso que reside seu talento mais perverso: a destruição sistemática de lideranças que poderiam sucedê-lo ou desafiá-lo. Flávio Dino, nome em ascensão vertiginosa, com perfil raro de gestor competente e político de esquerda consistente, foi retirado do tabuleiro ao ser nomeado para o STF — cargo honorífico que o afasta para sempre da disputa político-partidária. Guilherme Boulos, que construiu uma trajetória genuína nas lutas do MTST e do PSOL, foi absorvido pela órbita petista e transformado em auxiliar dócil, sua combatividade original dissolvida no protocolo governista. O PSOL, que poderia ser o contrapeso crítico dentro da coalizão, perdeu progressivamente sua identidade ao ser cooptado.
Lula parece acreditar que é insubstituível — e age para que essa crença se confirme. Mas a imortalidade política não se constrói neutralizando sucessores; constrói-se formando-os. Putin, com toda a sua brutalidade, ao menos tem a força para sustentar o projeto que edificou. Lula não tem essa força — e o vácuo que está criando à sua esquerda é exatamente o espaço que a direita, em outubro, tratará de ocupar.
Eleições não se vencem com a gratidão de quem já ia votar de qualquer jeito — vencem-se com a energia de quem acredita que vale a pena lutar. E essa energia, quando o governo que você elegeu não tem coragem de ser o que prometeu, simplesmente se apaga.
PS: Há uma diferença crucial, frequentemente ignorada nas análises eleitorais, entre votar em Lula e votar pelo Lula. Votar em Lula pode ser simplesmente um voto contra Bolsonaro — um voto defensivo, de contenção, que não implica nenhuma adesão programática à esquerda. Prova disso é que muitos desses eleitores votaram, no mesmo pleito, em candidatos de direita para o Senado e a Câmara. O voto em Lula, nesses casos, foi um voto contra algo, não por algo. Votar pelo Lula é outra coisa. Pressupõe o voto no presidente e, coerentemente, o voto em candidatos de esquerda para o Legislativo — deputados federais, estaduais, senadores. É um voto de convicção programática, não apenas de rejeição ao adversário. Se fizermos esse exercício — cruzar o resultado presidencial com o desempenho dos candidatos de esquerda ao Legislativo, incluindo os que não foram eleitos mas receberam votos — obteremos um dado revelador: o percentual de eleitores que votou pelo Lula, no sentido pleno da expressão, é estruturalmente menor do que o percentual que votou em Lula. A diferença entre esses dois números é exatamente a dimensão do eleitorado que Lula conquistou por default — e que, portanto, não tem nenhuma obrigação de permanecer com ele caso a direita apresente uma alternativa minimamente aceitável. É precisamente esse eleitorado que as pesquisas mostram migrando para Flávio Bolsonaro. A conclusão é de que Lula governou como se toda a sua maioria fosse uma maioria pelo Lula, quando na verdade uma parte significativa dela era apenas uma maioria contra Bolsonaro. Ao decepcionar quem votou por convicção e não fidelizar quem votou por rejeição, o governo constrói as condições perfeitas para perder em outubro. (Nota acrescida às 17h34 de 30-4-26)
Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Membro do IBAP.




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