Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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Tchutchucas e tigrões na terra do narcotráfico

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -

A Reforma Previdenciária fica em stand by. Agora o que está em julgamento é o comentário do deputado Zeca Dirceu, do PT, no sentido de que um integrante do elenco do circo de horrores agia como “tigrão” diante da faixa mais vulnerável da população e como “tchutchuca” diante dos poderosos.

O comentário acabou irritando o preposto de Bolsonaro mas, surpreendentemente, também irritou setores da oposição, que preferiam que o discurso da esquerda se orientasse pela elegância, pela técnica e pela racionalidade.


Houve até quem fizesse uma ilação totalmente inadequada, querendo dar a entender que o machismo e a misoginia estariam sendo fomentados pelo deputado ao reforçar o estereótipo da menina desprotegida e mimada. Ora, a caricatura foi simplesmente recolhida de um repertório popular – um mundo onde só existem “tchutchucas” enquanto existirem “tigrões” e vice-versa. As expressões equivalem, no caso, a “cordeirinhos e leões”, mas usar estas palavras poderia, no máximo, soar como um discurso moralista de viés religioso. O impacto na mídia seria nulo. E o que vale, hoje, é o escândalo.


Os termos remetem a um funk de quinta categoria que teria feito algum sucesso anos atrás. Lixo, sem dúvida, da pior espécie, que mereceria continuar esquecido, como tantas outras coisas que se ouvia e que se ouve nas rádios e TVs. Para setores da esquerda derrotada nas urnas, não devemos rebaixar o nosso repertório cultural: precisamos nos sustentar em dados técnicos e utilizar metáforas extraídas de um poema de Homero ou de um filme de Glauber Rocha.


Elegante, técnica e racional foi a Deputada Tábata Amaral, ao questionar o Ministro colombiano da Educação sobre a ausência completa de políticas públicas em sua pasta: “Em um trimestre, não é possível que o senhor apresente um powerpoint com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis? Isso daqui não é planejamento estratégico, isso e uma lista de desejos. Eu quero saber onde que eu encontro esses projetos? Quando cada um começa a ser implementado? Quando serão entregues? Quais são os resultados esperados? São três meses, a gente consegue fazer mais do que isso”.


Ocorre que, diante da decência, da racionalidade e da inteligência, a equipe que se instalou em Brasília nada de braçada. Tábata fez uma legião de admiradores, mas estes são os mesmos que há meio ano usavam a hashtag #EleNão – e que não conseguiram congregar um número de pessoas suficiente para fazer face ao avanço da extrema direita, corrente que conta em seus quadros com um ex-cantor de rock que justifica a tortura e morte de crianças na ditadura. E, de acordo com Paulo F. Garreta Harkot, “racionalidade, para existir, pressupõe que o outro lado também seja racional. Se um dos lados, ou interlocutores, não conta ou não a apresenta, não existe racionalidade”.

Vamos combinar: a dignidade humana morreu em 12 de junho de 2014, na abertura da Copa do Mundo, quando uma extremamente inculta, grosseira e deselegante classe média saudosa dos tempos em que podia fazer impunemente piadas misóginas, racistas e violentas sobre loiras, negros, gays, baianos e pessoas com deficiência, desembolsou R$ 7.800 na porta do estádio do Corinthians para gritar em coro palavrões contra a presidenta da república.


A dignidade humana foi assassinada naquele mesmo ano de 2014, quando Jair Bolsonaro declarou que só não estupraria a parlamentar Maria do Rosário “porque ela não merecia”.

O cadáver dessa dignidade continuou sendo puxado pelas ruas, não com tintas épicas como as da Ilíada, mas ao estilo do horrendo crime que chocou o país em fevereiro de 2007, quando uma criança de seis anos morreu ao ser arrastada num carro roubado por bandidos na zona norte do Rio de Janeiro.


O fim do estado de direito foi decretado no dia 16 de março de 2016, quando o futuro Ministro da Justiça de Bolsonaro, que na época já havia conquistado maior poder e prestígio na condição de juiz federal de primeira instância do que qualquer membro de tribunais superiores, divulgou interceptação telefônica de ligação da Presidenta da República ao ex-presidente.

Em volta das muralhas de Troia, no dia 17 de abril de 2016, o cadáver da democracia ainda era arrastado por um Aquiles das milícias, quando Bolsonaro dedicou seu voto no impeachment de Dilma Rousseff ao Coronel Ustra, o militar que a torturou.

A carcaça destroçada do decoro político já fedia a urina quando no dia 5 de março de 2019 o presidente eleito, objetivando ofuscar os atos políticos de oposição à barbárie no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, postou nas redes sociais um vídeo pornográfico.


Se não há Estado de Direito, se não há racionalidade, se não há dignidade, o que resta na luta pela preservação do pouco que nos resta? Zeca Dirceu, como afirma Paulo F. Garreta Harkot, agiu nessa linha: “Da mesma maneira que esse pessoal que prima por um tipo de racionalidade, ou irracionalidade, que nos choca e agride. Ele acertou no alvo. Desmontou e desqualificou toda essa encenação. E, de quebra, ganhou projeção nacional nessa guerra midiática”. E se, na década de 1960, Glauber Rocha podia trabalhar com a metáfora Deus / Diabo para falar de Antonio Conselheiro ou Lampião contra os senhores da seca na terra do sol, hoje, na terra do narcotráfico, as metáforas são oferecidas pelos bailes funk.

Chamar o preposto de Bolsonaro de Tigrão, cabe ressaltar, é muito pouco. Tigrão é apenas um personagem fofinho da turma do Ursinho Puff. No entanto, a julgar pela reação que teve diante de comentário tão inesperado e que poderia ter passado completamente despercebido da mídia, o que o deixou ofendido não foi o fato de ser comparado a um animal feroz ou a um amigo do ursinho. Foi ter sido desmascarada a covardia e subserviência deste governo para com quem detém a força do dinheiro e das armas de fogo.

Guilherme José Purvin de Figueiredo é bacharel em Letras (FFLCH-USP) e doutor em Direito (FD-USP).




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