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Yes, nós temos pássaros de fogo

  • há 17 horas
  • 4 min de leitura

-Guilherme José Purvin de Figueiredo-

 

Há 150 anos, subia ao palco do Christiania Theatre, em Oslo, a versão teatral de Peer Gynt, de Henrik Ibsen, com música incidental composta por Edvard Grieg. Relembrar essa data, mais do que apenas celebrar uma parceria artística feliz, é reconhecer como literatura e música captaram tensões que continuam muito presentes. A estreia em 24 de fevereiro de 1876 foi decisiva porque trouxe a música de Grieg como elemento estruturante. “Manhã” abre com luminosidade a apresentação; “A Morte de Åse” condensa luto sem sentimentalismo; “Na Caverna do Rei da Montanha” cresce em intensidade até se tornar quase ameaça física.


E aqui entra uma memória que muitos septuagenários guardam com nitidez. Em 1974, Rick Wakeman, então astro do rock progressivo e integrante do Yes, lançou Journey to the Centre of the Earth. Em meio a sintetizadores grandiosos e orquestrações exuberantes, surgia, em certo momento, uma citação inconfundível: os primeiros

compassos de “Na Caverna do Rei da Montanha”. Para quem cresceu nos anos 70, aquilo era eletrizante. O motivo de Grieg, deslocado para o universo do rock sinfônico, tornava-se espetáculo. O crescendo, originalmente ligado à cena dos trolls, ganhava nova camada de dramaticidade elétrica. Sim, perdia muito de sua função teatral original, mas ganhava potência icônica para um público leigo em música erudita. Essa apropriação não diminuiu Grieg; ao contrário, demonstrou sua força. Uma melodia do século XIX atravessando o século XX, dialogando com teclados elétricos e amplificadores. Para muitos de nós, Wakeman foi porta de entrada involuntária para Grieg.


O grupo Yes foi um dos responsáveis por me introduzir à música chamada “clássica” que, antes de minha incursão no rock progressivo, limitava-se aos LPs com as Sinfonias 1 e 6 de Beethoven e com os Estudos para Piano de Chopin. Cans and Brahms é uma faixa instrumental do álbum Fragile (1971), do Yes, arranjada e executada por Rick Wakeman. Não é composição original, mas adaptação de trechos da Sinfonia nº 4 de Johannes Brahms. Wakeman gravou praticamente sozinho, usando teclados como órgão e Mellotron para recriar as linhas orquestrais. A estrutura e os temas de Brahms permanecem reconhecíveis, mas com timbre típico dos pastiches progressivos de Wakeman. A faixa exemplifica a aproximação entre rock e repertório clássico característica do chamado rock sinfônico.


Em 1973, a abertura do álbum triplo ao vivo Yessongs era o movimento final da suíte O Pássaro de Fogo. Nele, Stravinsky trabalha com uma única melodia, apresentada e repetida várias vezes, cada vez com mais força. Essa melodia é clara, quase como uma canção popular. Ela avança principalmente por pequenos passos, sem grandes saltos, o

que facilita sua memorização. No início, é tocada de maneira contida, com poucos instrumentos e apoio harmônico discreto. Harmonicamente, a música começa estável, com acordes sustentados que dão base firme à melodia. A cada repetição, os acordes ficam mais cheios e mais afirmativos. A sensação de crescimento vem desse reforço progressivo da harmonia e do aumento do volume. O ritmo é regular e simples, com uma pulsação constante que não se complica. Não há surpresas rítmicas importantes; a força está na insistência. À medida que a melodia reaparece, mais instrumentos entram: primeiro as cordas, depois sopros, depois metais e percussão. No final, toda a orquestra toca junta, sustentando acordes amplos e claros. O efeito vem da acumulação gradual de som até um ponto de máxima intensidade.


O Finale do Pássaro de Fogo termina afirmando uma cadência clara, com acordes abertos e metais reforçando a tônica. É uma conclusão tonal estável e luminosa. Bruscamente, entra o rock Siberian Khatru, sem continuidade tonal ou rítmica. Não é preservada a tonalidade, mas mantém-se o nível de intensidade dinâmica. O acorde final de Stravinski soa como ponto máximo. Em vez de resolver e repousar, a banda entra imediatamente com outro bloco sonoro forte. A mudança tonal é brusca, mas os meus ouvidos da época a aceitavam porque o parâmetro dominante naquele momento era a energia. Hoje essa mudança já não soa para mim tão agradável.


No entanto, foi depois de ouvir a face A do LP 1 da caixa Yessongs que resolvi ir à Casa Bevilácqua, na emblemática esquina da Rua Direita com a José Bonifácio(*), e comprei o LP com a suíte de Stravinski, regida por Leopold Stokowski.


E, graças a essa aquisição, fiquei conhecendo, no lado B, Noite no Monte Calvo, de Modeste Moussorgski. O mesmo Moussorgski que também compôs Quadros de uma Exposição, cujos motivos foram transformados em rock pelo Emerson, Lake & Palmer (ELP), trio foi responsável por abrir as portas para outras obras, como Ravel e Aaron Copland.


Hoje penso que o êxtase sentido pela minha geração ao ouvir Grieg, Brahms, Stravinski, Bartók ou Mahler nasceu das portas da percepção que se abriram para nós entre 1967 e 1974.

 

(*) Nota: Essa esquina mereceria uma crônica à parte: onde hoje é a Casa de Francisca, já foi o auditório da antiga Rádio Record na década de 1940, onde se apresentavam os geniais Adoniran Barbosa (o Charutinho) e Oswaldo Moles.



Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Sócio-fundador e ex-presidente do IBAP. Escreve regularmente todo o dia 24 do mês.


 

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