Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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É coisa de comunista...

Atualizado: 14 de Jan de 2019

- Ricardo Antônio Lucas Camargo -

Um “debate” frequente, em mesas de botequim, quando o assunto é “Escola sem Partido”, costuma desenrolar-se, mais ou menos, nestes termos:

- Graças a Deus, vai acabar essa pouca-vergonha de aula de Sociologia e Filosofia no Ensino Médio! Puro marxismo cultural, que só serve para corromper a cabecinha das criancinhas e propagar comunismo.

- Diz que o cara que ensinava essa coisa deu um capítulo de um tal de Max Weber para a garotada ler, dum livro chamado “A ética protestante e o espírito do capitalismo”.

- Está vendo como só pode ser coisa de comunista?

- Sim, só comunista fala em “capitalismo”, palavra que só serve para questionar a justiça divina, que dá aos que trabalham a riqueza e aos preguiçosos a pobreza. O próprio título do livro mostra o ódio que os comunistas têm da religião. “A ética protestante”: olha só o preconceito contra a religião.

- Sabe que meu filho me disse que no texto o tal de Weber escreve como se estivesse contestando o Marx? Olha como esses comunistas são diabólicos! Fingem contestar, quando na realidade estão fazendo propaganda!

- Sim. Se não fosse propaganda comunista, não teria nem mesmo o título “capitalismo”, nem a ofensa à religião. Não seria, sequer, uma obra de Sociologia, porque essa matéria foi inventada para fazer propaganda vermelha. E quem contestar isto, ou é cúmplice dos vermelhos ou é inocente útil!

- Sim, tinha que demitir, mesmo, o cara, e mandar para a cadeia, por corromper as criancinhas.

- Como é que ele tem que ser punido? Uma ofensa destas tem de ser castigada de modo exemplar, para que não se repita. Para que saibam que propaganda de comunismo e corrupção das mentes puras de criança merece castigo. Como é que ele tem que ser punido?

- De acordo com a lei?

- Qual! “Punir de acordo com a lei” é papo de comunista. Tem que punir do jeito que satisfaça as pessoas de bem. Que morra devagar, sentindo muita dor! Porque não é a lei dos homens que foi violada, mas a lei de Deus.

- Tem razão. Nós somos bons patriotas tementes a Deus e defensores da família, não podemos seguir esse papo que só serve para nos fazer fracos. Quem não odeia os inimigo de Deus não O ama de verdade!

- Sim, Deus, Pátria, Família. Começo e fim de tudo, nada fora, nada contra, tudo por esta tríade sagrada. Vai acabar a mamata desses propagandistas vermelhos! Vamos lutar com entusiasmo para que se substitua esse lixo marxista pro aulas de religião, obrigatórias, até as Faculdades, e que sejam mandados para a fogueira todos os livros e escritos que não concordem com os livros sagrados!

O leitor já deve ter ouvido coisas deste jaez ou visto pronunciamentos similares na internet, em especial nas redes sociais. Não estou citando nomes, mas pode ter certeza o caro leitor de que este diálogo não é inventado: é a expressão de pessoas que, atualmente, consideram a própria ignorância – independentemente de ostentarem ou não diploma universitário, ou mesmo de pós-graduação - motivo de orgulho, e que ganharam não somente voz, mas verdadeiros megafones. Já vi, sim, Weber ser chamado de “comunista”, já vi dizerem que o título do livro dele era uma ofensa à religião, já vi pessoas chamarem os alunos do Ensino Médio de “criancinhas”, já vi dizerem que quem fala que Weber contestava Marx na realidade deixou-se enganar por um estratagema comunista, já vi falarem de fingir contestar para fazer propaganda daquilo que é aparentemente contestado, já vi dizerem que o uso da palavra “capitalismo” é próprio dos marxistas, já vi desqualificarem quem tenta destruir as proposições em questão como “vermelho” ou “inocente útil”, já ouvi dizer que punir de acordo com a lei é coisa de comunista...tudo isto, leitor, já vi e ouvi em momentos diferentes, de pessoas diferentes, muitas das quais eu sequer esperava que fossem capazes de dizer tudo isto e muito mais, e o diálogo que abre este texto apenas organiza, em sequência, essas maravilhosas contribuições para o novíssimo FEBEAPÁ.

E é a partir daí que se entende que, se as pessoas, hoje, não querem mais a qualificação de “fascistas”, não é porque os respectivos pressupostos sejam rejeitados, mas sim porque o rótulo remete a uma derrota na II Guerra Mundial. Todos que não aceitarem as premissas fascistas – porque o são, efetivamente, tomado em consideração o que escreveu Umberto Eco no capitulo “O fascismo eterno”, em seus “Cinco escritos morais”, mesmo que não aceitem o rótulo, já que, como dito, isto implica chama-los de “vencidos”, “fracassados” - serão rotulados de “comunistas”, mesmo que não o sejam. Parece que, num cenário destes, estamos prestes a viver três enredos de ficção científica misturados: o de “Fahrenheit 451”, o da primeira parte de “Cântico para Leibowitz” e o de “Planeta dos Macacos”.

Ricardo Antônio Lucas Camargo, Professor de Direito Econômico da UFRGS, é Procurador do Estado do Rio Grande do Sul e Coordenador Internacional do IBAP, entidade que presidiu no período de 2016-2018.





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