Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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CRÔNICA DO EXÍLIO: PARA NÃO PERDER A LIBERDADE

Atualizado: Mar 2

-CARLOS MARÉS-


Quando vejo a intimidade, desfaçatez e desenvoltura com os militares estão circulando pelo poder civil deste governo me vem a mente a Ditadura e, ao lembrar da Ditadura me lembro do exílio. Mas, com o peso de minha idade, não consigo estancar o arrepio que me sobe pela coluna ao pressentir a volta daqueles sombrios tempos. Olho para o Chile, para o Uruguai e para Dinamarca, sedes de meu exílio junto com São Tomé e Príncipe, e o arrepio aumenta mais. As portas estão fechadas.


Naquele tempo as alternativas que havia para jovens sul americanos conscientes da opressão das ditaduras e insatisfeitos com o rumo das coisas no continente eram poucas, mas havia. Alguns acabaram aceitando, a contra gosto, as coisas por aqui, principalmente os não tão jovens e os jovens demais, e aqueles que optaram por não resistir. Estes sofreram muito com a opção e, confessadamente ou não, se arrependeram tarde demais; outros resistiram, e na resistência encontraram a morte ou o exílio. A crônica das mortes são sempre contadas por outros e existem muitas, heroicas e tristes. Sempre vale a pena lê-las.



Mas há histórias de exílio contadas por quem buscava a liberdade, lutava por ela. O exílio é múltiplo, alguns saíram porque não suportaram ficar, outros, forçados pelas circunstâncias. Pessoalmente saí pressionado por duas condenações políticas na Justiça Militar, alguns saíram banidos apesar da pena de banimento estar expressamente proibida na Constituição. Mas os militares no poder não davam, e não dão, muita importância às constituições e leis. Enfim, voluntário ou não, quem saía passava a ser exilado, não tinha mais volta. Naquele tempo quem chegasse no exterior sem passagem de volta era exilado. Já não podia voltar mais impune. E se tivesse passagem de volta, que cuidassem para não serem vistos como que os que não tinham.


E o exílio acontece antes, durante e depois. Ou, para dizer de forma mais solene, do exílio fazem parte as causas e as consequências. Ninguém volta o mesmo depois de uma década de exílio, ninguém retoma a vida do ponto que parou antes de sair, é óbvio, mas também ninguém chega como se estivesse estado aqui o tempo todo. Os caminhos da vida, as encruzilhadas, as bifurcações já não se revelam como antes, as opções e escolhas ficam no passado. Por isso, o depois é quase tão exílio como o exílio mesmo. Por isso, alguns nunca conseguem voltar e alguns voltam e negam o passado, o exílio, a vida. E necessariamente se amarguram.


Exílio não é só viver longe de seu país, é viver forçado longe do país, sem poder voltar e sendo hostilizado pelos governos, pelas embaixadas, pelas polícias. Naquele tempo não era só o Brasil que hostilizava os exilados, praticamente todos os países da América do Sul o faziam. A saga dos milhares de brasileiros é parecida: saída para o Chile, que democraticamente havia eleito Salvador Allende presidente em 1970 e tentava, pela via eleitoral, o socialismo. Golpe no Chile em 11 de setembro de 1973, diáspora dos brasileiros e demais sul-americanos a se espalhar pelo mundo, especialmente Europa, México e Cuba, além dos países socialistas do Leste europeu. Embora a história geral dos exilados da América Latina seja muito parecida, as histórias contadas por cada um são muito diferentes. É claro, cada um vive uma vida e escolhe os episódios a serem contados. O conjunto é a história do exílio.


Em todo caso, a partida significava deixar casa, amigos, cães, gatos e livros. Não se tratava, então, de mudanças de endereço, era mudança de vida, era um recomeçar. Tudo em volta mudava. A língua, os amigos, os interesses e a esperança. Sempre havia uma renovação de esperança. Talvez sempre não seja a palavra exata, alguns capitulavam. E ficavam amargurados. A taxa de suicídio deste grupo era muito alta, até mesmo no momento do retorno, passada a tempestade dos militares desenvoltos nos corredores do poder, continuou havendo suicídios.


A saga dos exilados durou no mínimo dez anos. Os amigos que haviam ficado no Brasil em geral se afastaram, muitos aceitaram a opressão, outros morreram sob a violência do Estado, a família envelheceu, se dispersou, rompeu. É impossível calcular as perdas e danos! Muitos, ao voltar já não eram jovens, homens e mulheres deslocados, sem turma, amigos, sem parentes e sem livros. Em cada paradeiro se formava uma pequena biblioteca que se perdia logo em seguida pela nova mudança. Os livros que tinham ficado já não existiam mais. Naquele tempo não era prudente guardar livros. Será agora?


A readaptação foi difícil, alguns preferiram a morte, outros voltaram para o exílio e a maioria, aos trancos e barrancos, se readaptou e sobreviveu, mas a indelével marca deixada pelo exílio continuou. Mas não são somente marcas negativas, também há marcas de solidariedade, de ternura e de franca amizade. Na realidade poucos ficaram amargos, oportunistas ou vingativos, talvez os que tenham ficado já o eram, os que capitularam, talvez. O exílio é, sobretudo, solidariedade.


Mas a vida continuou e os exilados das décadas de 60/70 tiveram que refazer amigos, aprender línguas novas, as vezes somente úteis enquanto se vive no exílio, reconstruir as pequenas bibliotecas que cada um tem em sua mesa de cabeceira, alguns fizeram filhos. Acima de tudo, os que sobreviveram aprenderam que a vida é coletiva, e solidária! E por ser coletiva e solidária, a arte, a música, a festa e o riso tinham que estar presentes. Os verdugos se perguntavam: de quê ri essa gente? E os exilados riam cada vez que podiam aplacar seu pranto. E riam, riam muito, até que a notícia da companheira assassinada ou do companheiro preso turvasse a alegria de ser jovem, esperançoso e revolucionário. Mas as lágrimas derramadas, embora durem para sempre, não amargam a vida porque ao lado sempre tem um ombro amigo, uma mão companheira pronta para o afago sincero e, incrível equação do exílio, na soma das dores multiplicadas pelos afagos rebrota a esperança.


As histórias contadas do exílio são singelas como a vida, feitas para rir e para chorar, chorando quem sabe, rindo quem pode. Importante é ir contando as histórias para que todos saibam, porque os tempos dos verdugos e dos ódios ainda não acabaram e sempre há os que insistem em mantê-los como ameaça cada vez que gente de coração aberto e mente livre perdem o medo de ser feliz. E riem e fazem arte.


No exílio dos anos 60/70 estiveram milhares de pessoas que, na sua doce ingenuidade e pureza, entenderam que era possível ter um mundo melhor e resolveram arregaçar as mangas para construí-lo e que não puderam continuar no Brasil e optaram por sair ou foram expulsos.


Hoje, passados sessenta anos, o bastão e as ferramentas para construir um mundo melhor está nas mãos de outras gerações, mas o temor que floresce no meu peito é ver generais circularem tão desenvoltos no poder civil, como se nada tivesse sido aprendido nos anos 60/70/80 e olho mais atentamente o mundo e vejo que não há mais lugar para exílios, os jovens não têm mais opções, nem os adultos, nem os velhos, como eu, não há alternativa. Não há mais para onde correr. É arregaçar a manga, enfrentar, e seja o que destino quiser! Sempre haverá uma história para contar, ainda que triste, mas com muito amor.

CARLOS MARÉS, professor de Direito da PUC-PR, é escritor e diretor do IBAP.


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