AS RAZÕES PARA MATAR

-CARLOS MARÉS-


Imagem - Aloísio Van Acker

Os disparos cospem balins de fogo certeiros ou não, não importa, são tantos que as chances de abater as vítimas são quase absolutas. É uma caçada e a caça sempre tem pouca chance. Bruno e Dom tombaram no Vale do Javari. Sabe-se porquê! Os assassinos agiram como caçadores, escolheram o alvo, o momento e não hesitaram, sabiam a razão para matar. Vitor, o mais recente assassinado, tombou no Guapo’y, Mato Grosso do Sul, por razões ainda mais sabidas, foram as forças de segurança que o abateram, caçado com seu povo porque queria amanhar a terra de seus ancestrais. As manchas de sangue espalhadas pelo Brasil vão tingindo o mapa ao mesmo tempo em que se incendiam as florestas e o verde louro da flâmula vai se tornando vermelho pela ação dos atiradores e incendiários.

Dia 25 de junho o indígena Guarani Kaiowá Vitor Fernandes foi morto a tiros no Tekoha Guapo’y. Essa morte foi daquelas em que se cospe muitos balins de fogo e alguém morre e muitos ficam feridos, como no caso Antônio Tavares, em julgamento neste momento na Corte Interamericana. Não é daquelas encomendadas a um facínora como os assassinatos do Vale do Javari. No Mato Grosso do Sul as balas, as armas e os dedos que puxaram o gatilho eram pagos pelo dinheiro público orçado para prestar segurança aos cidadãos, o mesmo dinheiro público negligenciado no Javari. Era uma retomada, como chamam os povos a reocupação de terras tradicionais, e a Polícia Militar, sem ordem judicial, foi ao local com tropa de choque usando apoio de helicóptero que também disparou contra os indígenas, cumprindo o papel de juiz e algoz. Alguém morreria.

Sempre nessas mortes há uma razão e um sujeito ocultos e as vezes um autor, a mando, repreendido, como nos casos de Dorothy e Marielle. Rapidamente as autoridades disseram que a ação que matou Vitor foi praticada pensando que se tratava de um caso de tráfico de drogas e tinham que agir rápido. A mesma rapidez que está faltando no Vale do Javari desde o assassinato de Maxciel, impune, o que deve ter incentivado os assassinos de Bruno e Dom. Sempre há uma explicação absurda ou uma omissão inexplicável.

As razões das mortes, quando contadas, revelam muito sobre os sujeitos ocultos para além de mandantes. Os meninos ricos que incendiaram Galdino, o Pataxó hã-hã-hãe, em 1997, alegaram que pensaram se tratar de um mendigo, não imaginaram que fosse um índio, disseram, poupariam Galdino se soubessem que era um pataxó hã-hã-hãe e procurariam um mendigo de verdade para queimar?

Assim foi, também, com o assassinato de Durval Teófilo Filho. O assassino alegou que pensou que era um assaltante, embora não tenha se aproximado, nem exibido uma arma, nem praticado gesto suspeito, mas era negro num condomínio de brancos. Alegou que foi apenas um engano. As razões para matar são mais profundas do que a diversão de meninos ricos ou o medo de ricos adultos. Essas razões para matar mantém polícias violentas, caçadores dispostos e um sistema de impunidade bem azeitado.

Havendo mandantes com razões inconfessáveis ou não, todos esses crimes são frutos do racismo, do exacerbado medo da classe dominante de perder poder ou da ganância de conquistar mais riquezas inúteis guardadas em cofres protegidos por gente armada, fardadas ou não, que não hesitam em puxar o gatilho, atear fogo ou usar o taco de baseball para agradar seus chefes. O sistema oferece um argumento para a defesa dos matadores: a ação foi no estrito cumprimento do dever legal. O importante é que não se fale muito no assunto e não se deixe falar. Reduzir e individualizar os fatos é o método mais eficaz para esconder as razões para matar.

Em Curitiba, o vereador Renato Freitas se juntou ao grupo que protestava contra o assassinato de Durval e Moïse, o congolês assassinado a pauladas na Barra da Tijuca, e entraram na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (ver Revista PUB ). Correu a notícia que a Igreja havia sido invadida, profanado o culto, depredado os símbolos. A Igreja Católica e o pároco assustaram-se no primeiro momento, mas logo que analisaram os fatos e entenderam as razões se deram conta de que não tinha havido profanação, nem invasão, nem desrespeito à religião que, diga-se de passagem, era professada pela maior parte dos que protestavam. O protesto era legítimo. A Igreja Católica, por suas autoridades e pelo pároco retiraram todas as queixas e alguns religiosos apoiaram Renato abertamente.

A Câmara de Curitiba, porém, fechando olhos e ouvidos, resolveu vingar a Igreja Católica, ainda que contra sua vontade, e cassou o mandato do vereador Renato Freitas por violação do decoro parlamentar. Renato não foi cassado por falta de decoro, é claro, isso foi só a explicação do inexplicável. As razões ocultas são bem outras e se integram às razões para matar. Calar Renato que, por sua origem, cor de pele e rebeldia, não combina com a imagem que a oligarquia faz de Curitiba, era um imperativo. É preciso calar, rapidamente, para que as razões não apareçam.

Os mortos ditos por engano, como Durval e Galdino, explicam as mortes por plena consciência e vontade, como Marielle, Bruno, Vitor e a lista infindável de mulheres e homens que não se conformam com as razões para matar. Todos os atos criminosos funcionam como uma ameaça: não protestem, não denunciem, aceitem a injustiça da Justiça e a decisão dos algozes e nada lhes acontecerá. Será verdade? Certamente não, o existir dos indígenas é um protesto, o viver dos negros uma sublevação, o falar das mulheres, insubordinação. Os que protestam, se sublevam e se insubordinam não podem deixar de fazê-lo enquanto as razões de matar do sistema continuem matando. E continuarão, porque disso depende sua própria vida, apesar da ameaça de morte.

Indígenas do Vale do Javari continuarão denunciando e defendendo suas terras e suas vidas. Guarani-Kaiowá não renunciarão à sua cultura e os sagrados lugares onde a professam junto a seus ancestrais e encantados. Marielle dá ainda mais força e visibilidade à luta das mulheres negras. Dorothy e Bruno são exemplos a seguir de gente que poderia estar no banquete dos insensatos mas prefere dar a mão aos resistentes.

Boa saúde a Renato Freitas para que, com ou sem mandato, prossiga na luta junto aos povos e alcance um tempo mais justo. Glória os que tombaram. Longa vida aos que continuam na luta pela vida, honrando a humanidade!

 

Carlos Frederico Marés de Souza Filho é membro do IBAP, Professor de Direito Socioambiental da PUC-PR. Foi Procurador Geral do Estado do Paraná por duas vezes.



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