Relembrar Mateus, capítulo cinco, versículo três a doze.

-CARMÉLIA ARAGÃO-


A senhora está armada? Não.

Abriu a bolsa, mostrou a Bíblia e leu uma passagem,

ao dar as costas, descarregaram o revólver no corpo de Irmã Dorothy.


O bimotor pousou, provavelmente, em uma pista paralela, embora eu não conhecesse a cidade. O piloto apagou as luzes antes que descêssemos. Desde o início, sabia que estava me lançando de um trapézio, sem rede, e com os olhos vendados. Saímos às pressas de Cametá. O lugar para onde nos dirigíamos, não haveria de nos trazer bem-aventuranças. Todos sabiam. Agarrei-me à maleta de medicamentos. Saltei. Seguraram-me antes de tocar o chão. Em seguida, pegaram os remédios. Pelo vulto eram duas pessoas, uma mulher e um homem.


– Calma, somos nós, das Irmãs de Namur – identificou-se – Ah, sim, vim sozinha com o caseiro.

– Já, vocês se acostumam a andar no breu, disse o homem.


Foto - Vera Silva (Suyhê)

Embrenhamo-nos na Floresta. Há dois anos na região, nunca havia enveredado pela mata. Ali, nem a lua é suficiente aos olhos da gente. Nós, as Filhas da Caridade, ao contrário das irmãs de Namur, vestíamos hábitos mais tradicionais, passávamos a maior parte do tempo, fixas, assistindo os doentes. Chegamos a uma típica casa de madeira, com dois lampiões na entrada. Percebi que não éramos apenas quatro tripulantes, além do Procurador do Estado, o representante do INCRA, e do diácono que vivia na casa do bispo, veio Ñoty com a barriga redondíssima de seis meses. Senti arrepios. Minha amiga não precisava ter entrado naquela operação premonitoriamente fracassada. As ondas de calafrios subiram em mim, provocando espasmos. Reação igual, tive ao saber que havia perdido minha mãe. O caminhão que nos transportava capotou várias vezes numa estrada de terra. Fui a única a sobreviver.


Conheci Ñoty, por incumbência da madre superiora que me confiou um envelope para entregar na casa do bispo, logo ao lado do hospital. Aos cuidados de Ñoty. Disparei pelo jardim, corredor, salão, até encontrar uma sala menor. Para minha surpresa, não era um destinatário, mas uma destinatária, precisamente, a contadora da diocese e da província. Nesse dia, aprendi que naquele Norte mais recôndito, não adiantava empregar a lógica judaico-cristã aos que, iguais a Ñoty, pertenciam à Floresta. Seus nomes, não apresentavam flexões de masculino ou feminino, porque lhes recordavam as origens que estava redor na selva. Rindo-se, Ñoty apontou o quarto em frente onde ficava o tal rapaz, que eu julgava ser o contador. Na verdade, era o diácono, que, inclusive tinha nome de santo católico e servia de motorista.


Também com Ñoty aprendi a aceitar os sonhos, não mais como uma pausa ficcional do meu corpo, mas a continuação dos fatos do dia. Assim, passados alguns meses, contei que a vi grávida. Sua barriga tinha a textura da terra e afundava quando lhe punha as mãos. Ñoty ficou vermelha. Chorou. Carregava sim, uma criança, e já estava certa de que eu a repreenderia pela escolha de ser mãe, mesmo com o aborto de um pai. Abracei-a e pedi que não chorasse, a criança se adiantou em meu sonho me preparando para recebê-las.


Eu não fazia a menor ideia do quanto meu rancor de órfã deixava transparecer certa indiferença ou desdém à palavra “família” e seus “laços”, principalmente para Ñoty. Por isso mesmo, a Congregação alimentava minha disposição para distâncias. Do aspiranato em Fortaleza ao postulanato em Porto Alegre; do noviciado em Recife aos votos perpétuos em Cametá. Testaram minha obstinada obediência até o dia em que entrei naquele aviãozinho com destino à terra de todos dos conflitos. O Procurador levava de forma pessoal o caso do litígio do lote 57, da gleba Esperança, desde o homicídio de uma das irmãs. Um consórcio de fazendeiros havia declarado a extinção das religiosas por terem denunciado a grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e, dando início, ao fechamento das serrarias.


Não foi diferente do que poderia ocorrer. Assaltaram a casa. Meteram-nos um capuz e nos jogaram em uma carroceria de carga, fechada. Dos intensos solavancos, veio o cheiro do vômito. Os homens se comunicavam em código pelo rádio: Mateus cinquenta e três/doze, cambio! Mateus cinquenta e três/doze, confirma. Mateus cinquenta e três/ doze na área.

– Irmãs, acho que estão levando somente nós, as freiras.

– Como?

– O código quer dizer Mateus, capítulo cinco, versículo três a doze, a passagem que ela leu para os assassinos.


Imagem - Wikipédia

As fotografias do corpo caído de bruços de Irmã Dorothy, molhado pela chuva e pelo orvalho da madrugada, segurando a Bíblia, repercutiram internacionalmente. Na camiseta suja estava escrito: “a morte da floresta é o fim da nossa vida”. Não sei se senti alívio por sermos apenas nós – as freiras – e ninguém mais, nem Ñoty. Ou se pedia a Deus para que, pelo menos, com a nossa morte, cessassem mais massacres anunciados. Porém, não houve morte. A porta da carroceria abriu. Fomos retiradas ao som das bem-aventuranças e conduzidas à tortura.


Confesso que hoje, pela manhã, minha memória incógnita rodopiou várias vezes por esse passado. Sou professora. Vivo como leiga. Mas hoje, especialmente hoje, na aula sobre Direitos Humanos, um aluno veio relatar que, na infância, em sua terra natal, um fato curioso culminou na liberação do porte de arma. Seu pai havia dito que uma facção criminosa, passando-se por religiosos católicos, fizeram os camponeses invadir as terras dos fazendeiros para implantar um plano de desenvolvimento sustentável comunista. As câmeras desligadas captavam os risos dos colegas. O provocador talvez soubesse que debochavam da minha vida. Poderia ter perguntado o nome do progenitor, autor da pseudo-história. Interrompi a aula alegando enxaqueca. Agora estou aqui, observando os semáforos regendo o vazio das ruas.


Largaram-nos na Transamazônica. Foram três dias de busca. “As cinco freiras foram encontradas completamente desorientadas” publicaram no Jornal do Estado. Vieram ao hospital, o bispo, o arcebispo, uma fila de autoridades, a imprensa novamente, e a madre não saía da minha cabeceira. Dias depois de acordar, atirei o hábito nas águas do Tocantins, o véu, o crucifixo e o livro de orações. Caminhei de camisola na orla. As pessoas cochichavam sobre meu aluamento. Eu, apenas, havia me dado conta de ter sobrevivido mais uma vez.


Antes de tomar meu atual rumo, fui à sala da contabilidade, na casa do bispo. Sentado no chão, encontrei o diácono olhando o teto, as paredes vazias, a escrivaninha, os papeis. Pela primeira vez, o confrontei:


– José, você sabe que sumiram com Ñoty. Ela não volta, menos ainda, seu filho que ela carregava. Você tem certeza de que vai continuar aqui? – ele fez que sim com a cabeça e pôs as mãos no rosto, mordendo os dedos – continuei exercitando minha crueldade recém-inaugurada.


– José, não se expia covardia com autoflagelo. Dei as costas e nunca mais tive notícia dele.


Quase dezessete anos depois, atravesso meu terceiro vale de mortos, asfixiados pela des-verdade. Por mais que apontem nosso novo inimigo invisível, como fabricado em um laboratório na China, como atuante em todas as teorias conspiratórias (sobretudo, a do meu aluno). As pessoas não acreditam que reler a camisa manchada de Irmã Dorothy ou acompanhar o gesto de Ñoty, se ela, um dia, tivesse visto, nos primeiros raios da manhã, este céu cor de chumbo de São Paulo, que a Floresta aparentemente bem distante, sempre esteve conosco, ao nosso redor ou fundida em nossa carne.


Carmélia Aragão é escritora. Doutora em Letras pela PUC-RJ e Professora de Leitura (curso de Direito) e fonética (curso de Fonoaudiologia) no Centro Universitário UNINTA, em Sobral - Ceará.



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