A SOBERBA E O ÓDIO À VIDA

Atualizado: Jun 3

- Carlos Frederico Marés de Souza Filho -


Oito mil mortos durante a ditadura, por causa da ditadura. Este foi o saldo computado pela Comissão da Verdade entre os povos indígenas. Quantos quilombolas? Quantos ribeirinhos? Quantos pescadores? Quantos camponeses? A conta ainda não está para ser feita. As mortes indígenas se davam por dezenas e centenas. Quantas centenas de Panará morreram? Quantas dezenas de Nambiquara? Quantas de Waimiri-Atroari? Quantas de Cinta-Larga? Não tinham nomes nem números certos. Muitos não se sabe sequer a etnia ou a língua que falavam? Outros foram catalogados, registrados e assassinados, como os Xetá. Estava ruim pra todo mundo, estava pior para os índios.


Depois, passada a ditadura, quando tudo já estava bem, a democracia com todo seu viço, garimpeiros massacraram Yanomamis, mortos a dezenas, policiais massacraram camponeses. Corumbiara, Eldorado de Carajás, Hoximu, Uru-Eu-Wau-Wau, Parakanã, lista enorme de nomes estranhos contariam os mortos em tempo de paz.


Depois destes massacres a situação piorou. Piorou para todos, desde 2016 os governos insistem em não reconhecer os direitos de indígenas, quilombolas e demais populações tradicionais. É claro que quando a democracia não vai bem os direitos também vão mal. A ameaça à democracia é também ameaça aos povos, não só aos direitos individuais, mas principalmente aos coletivos. Não só dos povos diferentes, tradicionais, mas de toda cidadania, os direitos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e até aos direitos de consumidor. Tudo o que se aproxima de direitos de gentes, humanos como se gosta de chamar, gênero, raça, cor, sexo, pensamento, arte, filosofia, política, classe, fica ameaçado.



Os povos indígenas vêm resistindo a essas alternâncias de humor político há quinhentos anos, os quilombolas há quatrocentos e cinquenta, os ciganos ninguém sabe ao certo, mil anos, talvez, com muito sofrimento, muita perda. Muitos sucumbiram no caminho, povos inteiros se extinguiram, comunidades quilombolas foram arrasadas. Para saber de histórias dramáticas, horríveis, desumanas, cruéis, não é necessário voltar ao século XVI no Caribe e ler os clássicos cronistas e historiadores da época. É possível ler nos jornais do século XX e XXI. Mas, com tudo, os povos resistem. Quando, num ato de bravura e civilização, se inscreveu na Constituição de 1988 que as comunidades remanescentes dos quilombos tinham direito de existir, alguns incrédulos riram imaginando que cem anos fora suficiente para aniquilar a todas. Não foram. Distante apenas 250 quilômetros da principal cidade do país, São Paulo, remanescem muitas comunidades, fraternas, resistentes, irmanadas, sobretudo vivas. Nas contas otimistas três milhões de boas almas quilombolas vivem em todo o Brasil. Ameaçadas pelo simples fato de existirem.


De onde tiram força para resistir tanto e por tanto tempo? Dos sonhos, da floresta, dos meus avós, dizem Ailton, Davi, Roani, Ditão, da mãe terra, das sementes que insistem em brotar, das gerações do futuro, dizem Sonia, Joênia, Kerexu Yxapyry, Maria Rosalina. Nem precisa indicar nomes, a pergunta será respondida por qualquer indígena, quilombola, cigano, beiradeiro, mulher ou homem que amanha a terra e sabe ouvir a natureza. A todos inimigos enfrentam com altivez e sabedoria, aprendem seus pontos fracos e inventam formas de se defender, são capazes de se tornar invisíveis como as comunidades quilombolas ao lado de São Paulo por cem anos ao mesmo tempo em que se tornam tão visíveis, iluminados, admirados que são recebidos por Reis, Rainhas, Presidentes e Papas orgulhosos de estar perto dessa gente fantástica e mágica que releva toda a natureza que habita o ser humano e exala a espiritualidade dos ancestrais e dos pósteros.


Mas os tempos estão ruins e os povos têm que estar precavidos, alguns se protegerão na invisibilidade, outros usarão os holofotes do planeta. Será duro. Para piorar, um inimigo sem forma e sem rosto ameaça de morte os sobreviventes, os que aprenderam a viver na adversidade, na teimosia, na resistência. Os fortes e bravos vão sucumbindo, é a história que se repete, de vírus morreram Panarás, de vírus morreram Nambiquaras. Sobreviverão, por certo, mas a que preço?


Não é apenas o vírus invisível que ataca os povos neste momento difícil. Outra invisibilidade os ameaça, o ódio. Odeio o termo povos indígenas, odeio povos ciganos, revelou sem pejo nem culpa o Ministro da Educação. Foi sincero e, seguramente, falava em nome da maioria dos presentes naquela reunião, ninguém esboçou o menor gesto de contrariedade. É o ódio. Será que o ódio nasce do interesse nas riquezas materiais, na vontade de se apropriar das terras, de trocar a natureza por plantas e bichos que possam virar mercadorias em Bolsas? Não parece ser tão simples assim a resposta, caso contrário não seria o Ministro da Educação, mas o da Agricultura, das Finanças, dos Bancos e dos Negócios que externaria o ódio.


E por que ódio? Por que odiar essa gente tão diversa, num ódio genérico, de indígenas a ciganos, passando por todos quanto diferentes forem? Um ódio contra todos! Mulheres, homens e até bichos e plantas, um ódio contra quem vive. Contra a vida? No fundo da floresta, onde os segredos são revelados e a vida brota em silêncio, na curva do riacho onde a pedra oferece seu dorso à produção da vida e se enrosca o musgo, lá, onde os maus não chegam e caminhos e trilhas se entrelaçam a cipós para não franquear passagem a quem não saiba amar, lá onde a flor brota não para ser admirada pela beleza, mas para oferecer a doçura do fruto, lá talvez haja uma resposta. Mas pensando melhor, a resposta pode estar mais perto, num recanto puro do coração, naquele pequeno lugar escondido, despido de vaidade e rancor que mora no peito de cada mulher e homem que ama a vida. Ali se pode descobrir que não é só de ódio que se trata. É desprezo pela vida, pela vida dos outros. É soberba. E soberba é medo e ignorância.


Soberba, medo e ignorância fantasiadas de ódio, com um vírus aliado e incentivado, causarão muitos males e infringirão dores e sofrimento aos povos. Mas não só aos heroicos povos da floresta, também às gentes urbanas, camponesas, ribeirinhas e praianas. O sofrimento será de todos, mas, ainda que poucos, os que puderem ver o amanhecer ficarão extasiados com a beleza da flor e a doçura do fruto, e, como amam a vida, lembrarão dos que tombaram. E reconstruirão!

Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito da PUC-PR, é escritor e diretor do IBAP.


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