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Resiliência, aceitação e o falso fato consumado

  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

-Guilherme Purvin-




“As regras da economia global são como a lei da gravidade. Não são regras americanas” (Bill Clinton a Boris Ieltsin, 3.9.1998).


“Logo mais contaremos a história de uma viagem empreendida por um explorador e dois explorados. Vocês olhem bem para o comportamento deles: Notem que, apesar de familiar, ele é estranho, inexplicável, apesar de comum, incompreensível, embora seja a regra. Mesmo as ações mínimas, simples em aparência, observem-nas com desconfiança! Questionem a necessidade sobretudo do que é habitual! Pedimos que por favor não achem natural o que muito se repete! Pois em tempos como este, de sangrenta desorientação, de arbítrio planejado, de desordem induzida, de humanidade desumanizada, nada seja dito natural, para que nada seja dito imutável!” (Bertold Brecht, A exceção e a regra).


Nas últimas semanas, a Revista PUB transformou uma única palavra em objeto de um pequeno mutirão interdisciplinar. A palavra é "resiliência", hoje tão repetida que já quase não se ouve. Vale recuperar o percurso antes de propor uma nova frente de reflexão.


Flávia D'Urso inaugurou a série com uma leitura foucaultiana, apresentando a resiliência como imperativo moral que individualiza problemas de origem coletiva. Madeleine Hutyra tratou o conceito pelo viés científico dos sistemas socioecológicos, na trilha de Holling. Elizabeth Harkot, em crônica bem-humorada, expôs a versão higienizada da resiliência no cotidiano acadêmico. Sebastião Staut recuperou a origem eletrônica do termo e recusou sua apropriação corporativa. Ricardo Camargo mostrou seu lado sombrio: sob a ameaça do desemprego, a resiliência exigida produz burnout, depressão e resignação. Em texto seguinte, equiparou o resiliente ao servo fiel, uma virtude do conformismo que sacraliza a hierarquia e a submissão.


A esses artigos gostaria de acrescentar uma distinção que me parece necessária, a que separa a resiliência da aceitação.


A palavra vem do latim resilire, que significa saltar para trás, recuar. Ganhou sentido técnico na ciência dos materiais, onde nomeia a capacidade de um corpo retornar à forma original depois de sofrer deformação. Foi esse o sentido que Sebastião Staut recordou ao evocar seus tempos de rádio amador, e é dele que deriva a promessa implícita no uso atual, a de voltar ao estado anterior depois da pressão.


A aceitação tem um domínio próprio, que é o do irreversível. Quem sobreviveu a uma guerra, a um acidente grave ou à perda de um filho sabe que nenhuma vontade refará o passado. O fato está consumado no sentido forte da palavra, porque aconteceu e nenhuma energia futura o desfaz. Aceitar, nesse caso, não significa conformar-se, e sim elaborar o luto, reencontrar chão para seguir vivendo com aquilo que não se escolheu. Trata-se de trabalho psíquico, e não de uma virtude de mercado.


A resiliência, tal como hoje se prega, opera um deslocamento mais discreto. Ela toma a gramática do irreversível, própria do trauma e do passado morto, e a aplica ao presente, que é o território do reversível. Passa a exigir que se aceite, como se fosse fato consumado, aquilo que ainda está sendo feito e que pode ser desfeito, como a jornada exaustiva, o salário indigno, a precariedade e a desigualdade. Com isso, apresenta como maturidade e como superação o que, examinado de perto, costuma ser rendição e silêncio.


Esse deslocamento só funciona porque antes se realizou uma operação mais profunda, que Gregório Duvivier resumiu bem em vídeo recente, ao observar que o capitalismo apagou o próprio caráter ideológico e passou a apresentar-se com a naturalidade de quem já se confunde com a realidade. A ideia tem parentesco com o que afirmou Friederich Jameson: a sensação de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Quando uma ordem histórica, contingente e datada consegue fazer-se passar por realidade sem adjetivos, tudo o que dela decorre ganha ares de destino. O sofrimento deixa de ser efeito de escolhas e arranjos, que outros arranjos poderiam substituir, e passa a ser percebido como paisagem natural, como clima, como lei da física. Diante do que se toma por lei natural, ninguém delibera nem protesta, apenas se adapta. A resiliência se converte, assim, na virtude conveniente de um mundo que se convenceu de não ter alternativa.


Convém examinar um exemplo de escala íntima, que ajuda a ver o que está em jogo. Pensemos no vício em drogas. Ele pertence ao domínio do reversível, ou, mais precisamente, do que pode ser superado, e não ao do irreversível. O dependente que aposta em vencer a substância apenas na força de vontade costuma fracassar, porque subestima o adversário, e essa é a versão ingênua da resiliência. No polo oposto, quem se declara viciado para sempre, sem que haja o que fazer, pratica uma aceitação indevida, tratando como consumado aquilo que ainda pode mudar.


Há uma terceira maneira de se posicionar, e é a que me interessa. Ela consiste em reconhecer que a substância é mais poderosa do que a vontade isolada, e é justamente esse reconhecimento que abre o caminho da superação, pois leva a procurar tratamento, estrutura e rede de apoio. Reconhecer o tamanho do inimigo serve para não o enfrentar.  sozinho, e não para curvar-se diante dele. Saber distinguir o irreversível do transitório é o que aqui chamo de lucidez estratégica. O gesto de reconhecer-se impotente, tão presente nos programas de recuperação, não equivale a render-se, porque nele se aceita o diagnóstico, a correlação de forças do momento, sem que se aceite o destino.


Reconhecer a correlação de forças é um ato de conhecimento, uma constatação, e não um ato de adesão. A aceitação e a resiliência são respostas da vontade diante de um fato, ao passo que o reconhecimento é apenas o mapa que precede a decisão. Registrar que o adversário é poderoso não significa consentir com ele, do mesmo modo que o médico que nomeia a doença não se rende a ela. A aceitação se dirige ao que é irreversível e o dá por encerrado. A resiliência criticada por esta série se dirige ao reversível, porém o trata como encerrado. A lucidez estratégica se dirige ao reversível e o mantém aberto, medindo o tamanho do obstáculo para calcular como transpô-lo.


O mesmo raciocínio se aplica à cena internacional, em escala muito maior. O governo espanhol tem sido um dos poucos na Europa a resistir à escalada belicista e a condenar de forma explícita as violações do direito internacional e os genocídios em curso. No fim de julho de 2026, Ceuta viveu a maior entrada de migrantes de sua história, com cerca de 60 mil pessoas cruzando a fronteira a partir do Marrocos em poucos dias, episódio que o governo de Madri classificou como um ataque à sua soberania e à sua integridade territorial. A leitura que proponho, e que o leitor pode acompanhar ou recusar, é a de que não se trata de um acidente. A monarquia marroquina, que já usou o fluxo migratório como instrumento de pressão diplomática em 2021, no caso Ghali / Saara Ocidental, volta a fazê-lo, e há indícios de que não age por conta própria. O padrão de desestabilização de governos incômodos é conhecido de quem observou a América Latina e o Oriente Médio ao longo de décadas.


Diante de um quadro assim, as duas saídas fáceis reaparecem. A primeira é a aceitação, que toma a pressão externa como fato consumado e conclui que o mundo funciona desse modo. A segunda é a falsa resiliência, que supõe bastar aguentar e seguir adiante. Ambas pedem, no fundo, a mesma coisa, que é baixar a cabeça. A lucidez estratégica sugere outro caminho, o de reconhecer a acentuada desproporção de forças e a ausência de um mundo multipolar capaz de amparar quem resiste, e, por reconhecê-la, recusar-se a tratá-la como sentença definitiva.


Chegamos ao presente mais próximo e ao caso que mais nos toca. Em poucos meses o Brasil vai às urnas, em uma disputa que já não é apenas interna. A maior potência militar do planeta expôs sua interferência de várias formas. Concedeu green card a Eduardo Bolsonaro em julho de 2026, na modalidade reservada a pessoas de habilidade extraordinária, protegendo-o da pena que a Justiça brasileira lhe impôs e desdenhando da soberania dos nossos tribunais. Ao mesmo tempo, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo passou a reunir, em pequenos grupos, formadores de opinião da direita, com o pretexto de discutir liberdade de expressão e ambiente digital, em iniciativa que o próprio governo brasileiro interpreta como parte de uma estratégia para fortalecer a candidatura de Flávio Bolsonaro. É o roteiro que Washington aplicou por muito tempo na América Latina e no Oriente Médio, agora conduzido sem disfarce.


Também aqui a lucidez estratégica se impõe sobre as duas tentações. Aceitar a interferência como algo consumado seria abrir mão de contestá-la. Confiar apenas na resiliência, na aposta de que a vitória de Lula nas urnas garantiria por si só a estabilidade democrática, seria ignorar o que o exemplo espanhol ensina, pois resistir ao imperialismo não imuniza um país contra a desestabilização vinda de fora. O resultado das urnas será menos um ponto de chegada do que o começo de uma disputa que exigirá vigilância, articulação internacional e a serenidade de não confundir o que é poderoso com o que é irreversível. Há sabedoria em aceitar o passado, que não se refaz. Não há sabedoria alguma em estender essa mesma resignação ao presente, que continua em aberto e ainda pode ser disputado. Foi o que Brecht pediu à plateia no prólogo de A Exceção e a Regra, ao advertir que, em tempos de desordem e arbítrio, nada deve parecer natural e nada deve parecer impossível de mudar.


Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Coordenador Internacional do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública e da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil. É coordenador da Academia Latino-Americana de Direito Ambiental - ALADA. Escreve todo dia 24.



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