Deus e o diabo na MPB
Atualizado: 10 de ago.
-Guilherme Purvin-
Tem dias que a gente acorda com Rolling Stones, cantarolando Simpathy for the devil. Hoje, no entanto, acordei com Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Ou, para ser mais preciso, com Caetano Veloso: woke up this morning singing an old beatle song. Quer dizer, eu estava acordando, associei o despertar àquela frase do Caetano, e em seguida veio a outra, impactante, agressiva, em You don't know me: "eu agradeço ao povo brasileiro, norte centro sul inteiro onde reinou o baião".
As duas canções moram no mesmo disco, o Transa, o segundo que ele gravou em Londres, no exílio — de modo que, quando veio o pressentimento de que aquilo não saía do nada, que devia ser colagem, o pressentimento estava certo em dobro.
A primeira frase abre It's a Long Way, e poucos versos adiante Caetano diz o nome da tal old beatle song emendando The long and winding road, dos próprios Beatles: a citação cita a si mesma.
Caetano sempre fez colagem — em You Don't Know Me, na mesma Transa, ele empilha Carlos Lyra, Edu Lobo e uma autocitação de Saudosismo na voz da Gal —, do mesmo modo que "na glória", bordão que a Aracy de Almeida soltava para acertar a afinação, virou verso em "A Voz do Morto", aquele samba que Caetano compôs a pedido dela e os Mutantes gravaram em 68, eles querem salvar as glórias nacionais, coitados. A Aracy pediu o samba porque estava farta de ser "a voz do morto" — o morto era Noel Rosa, de quem ela foi a intérprete maior (mas Aracy e Noel merecem uma crônica exclusiv""a).
Pois bem, esse "eu agradeço ao povo brasileiro", cantado com agressividade por Caetano, é justamente um baião de despedida do Gonzaga, A Hora do Adeus, do disco Óia Eu Aqui de Novo — algo forte e ao mesmo tempo melancólico, o Rei do Baião doando a sanfona, o chapéu de couro e o gibão ao museu porque, segundo ele mesmo, já não era mais rei de nada.
Deslocada para o exílio, na boca do Caetano a frase se inverte: onde Gonzaga abdica com resignação, Caetano renasce e, sarcasticamente, agradece uma volta que ainda não havia ocorrido.
Não foi a primeira vez que Caetano se amparou no Gonzagão. Já no primeiro disco londrino, de 71, o próprio Caetano gravara uma Asa Branca desolada, de tão longe do Brasil.
Gonzagão (superlativo adotado para distingui-lo do filho, Gonzaguinha - outro grande nome da MPB) é, talvez, o que houve de mais poderoso na música brasileira; o próprio Caetano o definiu como o primeiro grande acontecimento de massa da nossa cultura. Já disseram uma vez que, com a devida vênia de Osório Duque-Estrada e de Francisco Manuel da Silva, Asa Branca — dele com Humberto Teixeira, de 1947 — é que deveria ser o nosso Hino Nacional. Ah, pois, haverá algo mais pungente do que Asa Branca?
Na hora do almoço aqui em casa, Gonzagão voltou a ser assunto. Alice havia preparado arroz, feijão, bife e jiló. Confesso que não comia jiló desde 2012, quando, sem alternativa, provei do prato num restaurante de beira de estrada lá pelos lados de Miracatu ou Registro: jiló amargo e quiabo fibroso. O jiló da Alice, porém, estava delicioso, e perguntei a ela como tinha feito o milagre. Ela respondeu: "Eu vi na internet, seu Guilherme". Então botei no Spotify a canção Amargo que nem jiló, do Gonzagão, para ela ouvir. Alice ficou pensativa e disse, com um ar nostálgico: "Eu me lembro dessa canção, seu Guilherme, meu pai gostava muito. Hoje em dia ninguém mais ouve isso, a gente na igreja evangélica só ouve as músicas da própria igreja, né". Essa declaração da Alice desceu amargo que nem jiló do restaurante do posto de gasolina na Regis Bittencourt.
Gonzagão, porém, não deixou nunca de ser rei. Seus súditos é que ficaram boçais. O mais triste é que não só minha cozinheira predileta, mas o próprio Caetano Veloso dos dias de hoje prefere dizer, com Kleber Lucas, que “Deus Cuida de Mim”. Dizem que é uma deferência à religião adotada por seus filhos. Pergunto: isso é realmente necessário? Não poderia ficar no âmbito doméstico? Olivia Byington disse um dia que um de seus filhos adora um velho hit de uma dupla sertaneja: "Liga pra mim, não não liga pra ele...". São questões que deveriam ficar no âmbito familiar. Na infância, eu adorava uma certa Canção falando de você, achava-a "complicada" porque a pessoa diz que queria fazer uma canção falando mal da outra, mas no fim acabou fazendo uma canção de amor. A música era de Moacyr Franco e Davi Nasser e eu não tinha, obviamente, a menor ideia do que era metalinguística. Mas não é por isso que eu vou mencionar essa canção em algum artigo acadêmico sobre música.
Certamente haverá quem diga que esta é uma postura intransigente, que Caetano sempre fez questão de ficar ao lado dos cantores marginalizados. Um exemplo foi a parceria com Odair José na "Phono 73", quando a dupla cantou Eu vou tirar você deste lugar. No entanto, há uma enorme diferença entre cantar um sucesso de Leandro e Leonardo, Moacyr Franco ou Odair José ou entoar uma canção ideologicamente filiada ao que há de mais retrógrado na cultura brasileira — e que leva Alice a rejeitar um passado em que Luis Gonzaga podia ser cantado com alegria e emoção, sem a intenção de conquistar os reinos do céu e sem medo de descer para as profundezas do inferno. Não tenho absolutamente nada contra gospel, gosto muito de Mahalia Jackson. Mas a igreja de Mahalia não detinha o controle político dos EUA nem se pautava pelo que há de mais retrógrado na pauta de costumes e liberal na de direitos sociais. Isso, claro, sem falar na baixíssima qualidade da canção "Deus cuida de mim", em nada parecida com o que há de melhor na música afroamericana de meados do século passado.
Em que pesem as delícias da cozinha, em matéria de MPB, eu fico mesmo é com a Panela do Diabo, de Raul Seixas, súdito de Luiz Gonzaga. Raul, excomungado pelas novas $eita$ por haver declarado que "o diabo é o pai do rock". Desconfio que o baião, que é irmão do rock, também tenha a mesma paternidade. Que o diga a canção "Baioque" do Chico Buarque, fusão dos dois ritmos elaborado por um compositor que ficou velho porque está vivo, mas não ficou bundão como seu colega dos tempos dos Festivais da Record.
(Texto revisado em 9-8-2026)

Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Coordenador Internacional do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública e da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil. É coordenador da Academia Latino-Americana de Direito Ambiental - ALADA. Escreve todo dia 24.



Caê hoje é só um fantasma de si mesmo, segurando faixa de apoio à Lavajato, tirando fotos de pijama e enveredando pelo evanlistão. Triste. Viva Gil, cada vez mais uma presença de luz!
Que os sonhos talvez tenham acabado, ok, eu já intuía, mas sobraram só pesadelos?