À Primeira Vista

Atualizado: 17 de mai.

-PATRÍCIA BIANCHI-


Ilustração - Ibraim Rocha

A Leonardo da Vinci, um polímata, aquele cujo conhecimento e invenções não se restringiram a uma só área do conhecimento, é atribuída a afirmação de que “nunca o homem inventará nada mais simples nem mais belo do que uma manifestação da natureza.” Aristóteles afirmara que “em todas as coisas da natureza existe algo de maravilhoso” (As Partes dos Animais, Livro I, 645.a16). De fato, não é difícil ver e sentir que na natureza existe algo que provoca admiração, deslumbramento, fascínio. Ela exala excelência, e se apresenta perfeita em sua dinâmica ecossistêmica.


Hoje, se questiona os limites e as formas da intervenção humana nos ecossistemas naturais, e uma das questões cruciais para o tratamento desse tema refere-se à relação produção/consumo. Essa relação envolve um importante elemento, a propaganda, que com o desenvolvimento tecnológico e a globalização teve uma expansão dos meios pelos quais ela é veiculada. Mas parece que há algo de mais sutil nesse processo que não percebemos num primeiro olhar. O que seria?


A propaganda visa à transmissão de ideias com o objetivo de influenciar comportamentos. Trata-se de uma estratégia de persuasão, com a finalidade de se induzir pessoas à aquisição de produtos ou serviços. Nela, utilizam-se recursos psicológicos para esse fim. Por isso, há questões implícitas ou subliminares, dirigidas a finalidades e públicos específicos.


A propósito, o quanto você acha que é atraído por uma imagem ou um slogan de propaganda? Vamos lá. Quem se lembra da frase “não é assim, uma Brastemp.” Esse bordão já tem mais de 30 anos e, não duvide, ainda é conhecido. Ou já ouviu falar em “1001 utilidades”, referindo-se ao Bombril. Se você é um pouco mais jovem, no final da década de 90 ouviu que “existem coisas que o dinheiro não compra”, e que para todas as outras "existe Mastercard". Ou você já pensou em “Viver sem fronteiras”? Vale lembrar que a operadora TIM já te propôs isso. Você também aprendeu que o Pão de Açúcar é “lugar de gente feliz”, e que deve usar L’Oreal, “porque você vale muito”.


E aí? Tudo isso é tão criativo, nos remetendo a um mundo tão fascinante de sonhos, e, de certa forma, vêm suprir nossas carências e anseios de conforto ou status. Sentimo-nos seguros e valorizados comprando tais produtos e serviços, ainda que não seja exatamente real. A propaganda cuida de tudo, justifica às vezes o injustificável. Mas, seria a propaganda também uma violência simbólica?


O sociólogo francês Pierre Bourdieu desenvolveu vários estudos focados na compreensão de fenômenos sociais e culturais. E seus trabalhos podem ser utilizados também para a análise de fenômenos que envolvam propaganda e consumo. No livro “A Reprodução” (1970), Bourdieu e Jean Cloude Passeron definiram violência simbólica como a violência imposta por um poder arbitrário de um arbitrário cultural. Nesse sentido, as relações de força existentes nas classes sociais constituiriam a base do poder arbitrário, e essa também poderia representar uma relação de consumo, ou seja, a imposição de um arbitrário cultural por meio de um modo arbitrário de inculcação (por meio da propaganda), onde o objetivo seria o consumo.


Nesse sentido, a propaganda produziria um efeito simbólico, atendendo aos interesses de determinados grupos ou classes. Inculca-se no inconsciente dos indivíduos uma ilusão de que “as coisas são ou serão de certa forma”, levando ao consumo destes ou aqueles produtos ou serviços, favorecendo este ou aquele grupo (ou candidato no campo político), sem que se perceba, de forma clara, as verdadeiras intenções ou a manipulação de pensamentos, ideias e desejos. E, nesse sentido, ela apresentar-se-ia, sim, como uma violência simbólica.


Nesse contexto, Bourdieu fala de um papel mediador que auxiliaria na apresentação e representação da produção cultural perante os consumidores. Esse papel seria realizado pelos chamados intermediários culturais ou taste makers. Os intermediários culturais seriam representados por uma parcela da burguesia, vista como um grupo detentor de gostos e práticas culturais invejáveis, elegantes. São grupos ligados à moda, marketing, relações públicas etc.


Em “Outline of a Theory of Practice” (1977) Bourdieu explica que o habitus faz com que as práticas dos agentes sejam sistemáticas. Seria uma espécie de um conjunto de crenças, onde o habitus é incorporado em ações, pensamentos, modos de ser e estilos de vida. Já o campo, na teoria bourdieuana, representa um espaço simbólico no qual lutas dos agentes determinam, validam e legitimam representações. Assim, em “Outline of a Theory of Practice” o autor ensina que os campos apresentam um movimento de produção e consumo dos agentes e instituições, como formas de se manter ou se ascender em posições sociais. E cada campo específico possuiria agentes de produção simbólica, que estão em constante luta por posição/poder.


Assim, os intermediários culturais utilizariam, de modo geral, marketing e propaganda para estabelecer os valores dos bens, influenciando as escolhas dos indivíduos, alterando, em última análise, a dinâmica do próprio campo. E, aqui, a importância da teoria bourdieuana está justamente na possibilidade de nos enxergarmos e nos posicionarmos diante do campo em que atuamos, e compreendermos o nosso papel. Nesse cenário, seríamos formadores de opinião ou manipulados? Esse questionamento se liga à importante tarefa de se refletir sobre questões relacionadas à ética e à sustentabilidade socioambiental, e de se criar ou desenvolver uma consciência sobre quais os limites e possibilidades do nosso poder de ação no interior desse sistema.


Essas reflexões são urgentes em razão dos dados científicos que balizam as relações produção/consumo, e suas implicações em questões ambientais e, sobretudo, climáticas. De acordo com estimativa da Global Footprint Network, organização internacional pioneira em calcular a pegada ecológica, que contabiliza o quanto de recurso natural é usado para as necessidades de um indivíduo ou população, nós estamos cada vez mais em “débito” com a natureza. Conforme àquela organização, o planeta iniciou o seu déficit de recursos naturais em 1970. Desde então, a humanidade tem consumido mais do que a Terra consegue regenerar. Os custos têm sido altíssimos: erosão dos solos, perda de biodiversidade, acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, intensificação de secas e enchentes, incêndios e furacões cada vez mais graves, etc.. .


Diante disso, costuma-se propagandear que é possível resolver o problema ecológico atual desperdiçando menos comida, e mudando os padrões de consumo em direção a produtos que usem menos energia, água e outros recursos. Contudo, talvez essa questão seja bem mais complexa do que pode parecer.


A solução normalmente propagandeada centra-se na mudança de hábitos de consumo em termos individuais. Sobre esse ponto, vale a pena mencionar parte do conteúdo do documentário “Esqueça os banhos curtos” (Forget Shorter Showers) de 2015, dirigido por Jordan Brown. Nele, afirma-se que só fazer a nossa parte não seria o suficiente para alterar o nosso déficit com a natureza e o aprofundamento da crise. Isso não resolveria o problema maior. No documentário defende-se a ideia de que mudanças pessoais não são iguais a mudanças políticas; e que parte do problema é que temos sido vítimas de uma campanha sistemática de desorientação, num contexto capitalista que nos induziu a preferir atos de consumo pessoal, em vez de ações de política organizada. Fala-se, por exemplo, em mudar hábitos de consumo, mas não em diminuir o poder das empresas, ou interromper o crescimento da economia, que está destruindo o planeta numa proporção de maior peso.


Nessa perspectiva, a famosa frase de Madre Teresa de Calcutá, “o que eu faço, é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor”, estaria aprofundando um problema pelo simples erro de alvo ou de prioridade. E, nesse ponto, em Forget Shorter Showers argumenta-se, por exemplo, que mesmo que cada pessoa nos Estados Unidos fizesse tudo que o documentário “Uma Verdade Inconveniente” sugere, as emissões de carbono nos EUA teriam uma redução de apenas 22%, e o consenso científico é que as emissões devem ser reduzidas, em todo o mundo, pelo menos em 75%.


Naquele documentário, insiste-se que a ação de se banhar quase não impactaria o problema central relacionado ao desequilíbrio ecológico. Informa-se, ainda, que mais de 90% da água usada pelos seres humanos é utilizada pela agricultura e indústria. Os restantes cerca de 10% são divididos entre os municípios e a vida dos seres humanos individuais. Além disso, lá se acresce o dado de que, nos últimos 15 anos, o consumo individual residencial, carro particular, e assim por diante, resultariam em cerca de um quarto de todo o consumo; a grande maioria resume-se ao consumo comercial, industrial, empresarial, agronegócio e governo.


No Brasil, conforme o Anuário Estatístico de Energia Elétrica de 2020, produzido pela Empresa de Pesquisa Energética – EPE, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, a classe residencial é responsável pelo consumo de apenas 29,6% da energia total consumida no país. A classe industrial sozinha consome 34,8%.


Com relação a outro recurso, a água, a Organização das Nações Unidas - ONU informou recentemente que o consumo de água doce aumentou 6 vezes no último século e continua a avançar a uma taxa de 1% ao ano. A organização atribui o aumento ao crescimento populacional, desenvolvimento econômico, e as alterações nos padrões de consumo. Mas, segundo dados recentes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura - FAO, é a atividade agropecuária a principal responsável pelo uso da água no globo, com 70% de toda a água consumida no mundo sendo utilizada na irrigação das lavouras. No caso do Brasil, 72%.


Numa outra perspectiva, questiona-se o seguinte: como falar de alteração de modos de consumo em países onde uma parcela da população praticamente não consome, como no Brasil? Como pensar essa “solução” num contexto de profunda desigualdade social? Segundo pesquisa do IBGE de 2019, a extrema pobreza (US$1,90 PPC) se manteve em 6,5% da população, em 2018 e em 2019, afetando mais da metade dos nordestinos e 39,8% das mulheres pretas ou pardas. Além disso, em 2019 o país era o nono mais desigual do mundo, de acordo com dados do Banco Mundial para o relatório World Development Indicators. Aqui, pode-se afirmar que talvez a degradação ambiental significativa em razão do consumo tenha classe e endereço certo.


Outro ponto a ser destacado é o estudo sobre Contas Econômicas Ambientais da Água: Brasil 2013-2017 (CEAA), divulgado pelo IBGE, em parceria com a Agência Nacional de Águas (ANA), que informa que os principais responsáveis pelo consumo desse recurso natural foram a Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aqüicultura (97,4%), a agricultura não irrigada; Indústria de transformação e construção (1,0%), e Água e esgoto (0,8%).


Em termos de produção/exportação, segundo estudo divulgado em 2021 pela Embrapa, o Brasil é o 4º maior produtor de grãos do mundo. O país, em 2020, alcançou o posto de segundo exportador de milho. É o 1º maior produtor e exportador de soja, com 126 milhões de toneladas produzidas e 84 milhões exportadas. O Brasil ainda foi o quarto maior produtor de algodão, e o segundo maior exportador do produto. Foi também o responsável por mais de um quarto das exportações mundiais de café, comercializando 2 milhões de toneladas. E o maior produtor mundial de açúcar, responsável por um terço da produção mundial, e maior exportador do produto com 22 milhões de toneladas.E por aí vai.


Comemoremos? Não, né? Deixemos essa parte para quem está lucrando (muito!) com isso. Temos uma história colonialista que privilegia, no máximo, uma elite nacional. Mas não conseguimos instituir e manter políticas públicas que tratem de forma séria da distribuição de renda, da tributação progressiva de renda e patrimônio, de políticas perenes e evolutivas de educação, fome e desenvolvimento humano.


Quem pode comemorar é o setor agroexportador. O lucro desse setor parece só crescer, ainda que seja o grande responsável pela utilização de nossos recursos hídricos, além de também ser responsável pelo envenenamento desses recursos naturais. Já são vários os estudos que demonstram que os produtos químicos utilizados vastamente pelos grandes agroexportadores brasileiros - venenos, ou “defensivos agrícolas”, como gostam de falar aos desavisados e incautos - chegam a nossos corpos, através de nossas torneiras.


Note-se que a elite agroexportadora, até pela mecanização do campo, pouco emprega, e que seus produtos têm como destino a exportação, ou seja, não ficam por aqui. Mas, ainda que ficassem, valeria a pena a tragédia ecológica e humana que intensificam dia após dia? Valeria a pena se investir numa agricultura mais sustentável, menos predatória? Não parece haver indícios significativos dessa disposição.


Aqui, volto à ideia de como somos levados a inclusive defender uma lógica que não nos favorece enquanto classe e indivíduos, reforçando o célebre ensinamento de Paulo Freire de que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor" ; e de Simone de Beauvoir, quando ela diz que “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.” Expressões essas incorporadas no personagem de Samuel L. Jackson no Filme “Django Livre”, de Quentin Tarantino, onde Jackson interpretou de forma impecável um escravo doméstico, algo tipo os chamados “ladinos” (negros já aculturados), uma espécie de capataz americano, que defende com unhas e dentes o seu Senhor, o fazendeiro Calvin Candie interpretado por Leonardo DiCaprio.


E é nesse contexto que a teoria bourdieuana pode contribuir para o esclarecimento dessa questão, e possibilitar nos posicionarmos diante desses fatos e contextos, ajudando a compreender o nosso papel enquanto influenciados por veículos ou grupos formadores de opinião (na defesa dos seus interesses, e não do interesse público/coletivo). Talvez aquela teoria nos ajude a refletir sobre ética ou sustentabilidade socioambiental, e sobre quais os são os fatores limitantes das nossas ações no âmbito desse sistema.


Contudo, é importante esclarecer que não se pretende dizer aqui que não tenhamos ou devamos reorientar nossa relação, mesmo em termos individuais, com o meio ambiente, num movimento que se aproxime da ideia de um consumo individual sustentável. Mas parece que não será daí, de forma isolada, que virá a solução. Viver de maneira simples, não consumir supérfluos, não usar o transporte particular, não ter filhos, ou fazer a separação do lixo, não seria um ato político poderoso ou que alterasse significativamente a atual dinâmica.


Uma guinada em termos de satisfação das (reais) necessidades é importante. Mas, mudança pessoal isolada não parece ter o mesmo efeito de uma mudança social, coletiva ou cidadã. E isso fatalmente precisa nos levar a uma reavaliação a respeito da atual economia industrial, do agronegócio, e os acertos e limites que circundam as chamadas tecnologias verdes. A civilização industrial está deteriorando rapidamente o planeta, dizem os estudiosos. O que já visivelmente vem trazendo efeitos nefastos para a população mundial, sendo comprovado em pesquisas que utilizam as melhores metodologias, estampados em gráficos, mas sobretudo pelo aprofundamento e freqüências de “tragédias naturais”. Por isso, Forget Shorter Showers defende que o desfecho da lógica por trás de uma vida simples como um ato político isolado seria uma escolha suicida. E, por isso, teríamos que nos organizar de outras formas.


Assim, a ideia central para que revertamos o agravamento contínuo desse cenário destrutivo e degradante em que vivemos, em meio a campanhas sistemáticas de desorientação, talvez seja a urgência de apurarmos as responsabilidades, e reivindicarmos coletivamente, e de forma organizada, as ações na devida proporção dos danos produzidos. Lembrando que há estudos que apontam limites de degradação, que depois de passados, não haverá retorno. Nesse caso, vale registrar a lição do escritor italiano Umberto Eco, de que “justificar tragédias como ‘vontade divina’ tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas.” Não podemos naturalizar ou banalizar a tragédia socioambiental global que está em curso. Somos todos responsáveis, mas o motor da mudança real deverá, muito provavelmente, vir de ações coletivas.


Finalmente, a responsabilidade socioambiental, sobretudo das empresas, significa um compromisso com a vida. Victor Hugo já dizia que “é triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve.” E tendo-se em vista a relação que nossa sociedade contemporânea tem com a natureza, na era atual do Antropoceno, talvez devêssemos pensar que, muitas vezes, o que não enxergamos à primeira vista seja o que realmente importa. Especialmente numa pós-modernidade com fortes traços narcisistas e egoístas como a que vivenciamos.

 

Patrícia Bianchi é Doutora pela UFSC. Pós-doutora pela USP e pesquisadora na área ambiental.


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