O menino e o papelão

-PATRÍCIA BIANCHI-


Num dos tantos dicionários de nomes próprios, Gael significa “belo e generoso”, pode também significar “o que protege” ou “o protegido”. O nome tem sua origem reputada como irlandesa, mas Gael é brasileiro. Foi um menino cuja irreverência aflorava na mesma medida de sua sensibilidade. Essa sensibilidade dizia respeito a muitas coisas, mas sobretudo referia-se ao amor que expressava pelos seus pais, e por seu único irmão, Pedro, que, a propósito, ele nomeava apenas e carinhosamente de “irmão”.

O menino não se deixava cair em clichês contemporâneos. Sempre foi organizado, mas de espírito livre; extremamente metódico, racional, para ele tudo na vida deveria ter um sentido, uma explicação. Como a maioria das crianças, não entendia algumas questões facilmente banalizadas como a pobreza, o racismo e outras misérias humanas.

Costumava ser muito determinado desde cedo, e com opiniões sobre o mundo muito peculiares, que recebiam influências mais significativas dos mais próximos, mas que, eram visivelmente processadas e absorvidas, ou não, por ele. Assim, ouvia as orientações de sua mãe sobre seus trajes, as combinações de cores. Mas as sugestões, apesar de consideradas com cordialidade, nem sempre eram acatadas. A mídia não tinha muita chance de tocá-lo, já que nunca teve muita paciência para assistir aos programas de TV, cada vez mais trocados por peladas na rua, piqueniques com os amigos, ou venda de brinquedos antigos na portaria do prédio.


Em sua infância, o menino aprendeu alguns princípios básicos da reciclagem. Entendeu que poderia transformar resíduo sólido, algo descartado como lixo, em nova matéria-prima ou produto. Descobriu que poderia criar algo importante a partir da sujeira, do entulho, do refugo. A partir daqui, todos em sua casa tiveram que separar potes de iogurtes, garrafas de água pet e, principalmente, papelão. Este se tornou matéria-prima para a maior parte de sua arte. Com ela ele construiu carros, mesas, cadeiras, robôs, etc. Pedro, seu irmão mais velho, não participava dessas criações, sua expressão artística revelava-se na música e nos desenhos, mas o que ele gostava mesmo era dos equipamentos eletrônicos, sobretudo dos videogames.



Arte - Jorjão - Aloísio Van Acker

Um dos personagens da vasta criação de Gael foi Jorjão. Jorjão era um robô feito basicamente de garrafas pet e muita caixa de papelão. Fitas crepe e adesivas transparentes serviram bem às articulações do boneco. Este foi construído com muito cuidado, de forma muito simétrica e sempre tendo em conta pelo menino suas funcionalidades. A idéia era dotá-lo de boa aparência e movimentos. Mas era importante que ele tivesse liberdade. Por isso, Jorjão resultou numa construção independente, com características que lhe conferiam autonomia. Ele recebeu um chapéu para protegê-lo do excesso de sol, o menino emprestou-lhe roupas de homem das cavernas, e uma arma feita com caixinhas de papelão de creme dental para a sua proteção.




O papelão é um tipo mais grosso e resistente de papel, normalmente usado na fabricação de caixas. Ele é produzido dos papéis compostos das fibras da celulose, que são virgens ou reciclados. Uma caixa normalmente é definida como qualquer recipiente, de madeira, papelão etc., utilizado para a guarda ou transporte de objetos, elas assumem as usuais funções de proteção e revestimento de outros produtos/materiais. Na casa do menino, as caixas de papelão ganhavam outro sentido, adquiriam características e valores humanos, cujos mais evidenciados em suas obras eram a utilidade, a autonomia e a liberdade.

Sua mãe costumava contar que já na maternidade ele afirmara sua condição de ser livre. Ela se assustara com a força dos seus gritos, enquanto ele era manuseado e limpo pelas enfermeiras imediatamente após o nascimento. Gritos que só cessaram quando ele foi colocado onde queria: ao lado do seio de sua genitora. Nesse momento, ele a encarou fixamente com um olhar firme e doce, contemplativo, reconhecendo-a como aquele que sabe onde é o seu lugar, perto de um coração onde, no ventre, ouviu e morou por alguns meses. Ali, já revelava a importância da condição de ser livre e, ao mesmo tempo, o aconchego da sensação de pertencimento, de se sentir parte de; iniciava-se na arte de amar. Ali, também, já denotava traços da sua vocação de não ser submisso, de exercitar seu livre arbítrio. De rechaçar mandamentos de um mundo determinista que embala os homens em caixas. E isso o acompanharia por toda a vida.


Num tempo em que se cerceia a liberdade e a arte como formas de expressão e desenvolvimento da cultura, Jorjão representou e representa um contraponto importante na defesa de direitos. Isso porque as democracias contemporâneas são cíclicas, ao passo que as mudanças de governos ocorrem. Dependendo da orientação e postura do governo, direitos são consagrados, apenas mantidos, ou mesmo suprimidos. Infelizmente, este último cenário é o que melhor se adéqua à atualidade, e isso em diversos setores sociais.


Feito de material simples e com muito amor e dedicação, Jorjão representa o desejo do menino de se expressar livremente, de não seguir padrões e modismos rasos. E esse perfil desde cedo se revelava por meio de seus questionamentos e ações. Sua família reconheceu e bancou suas nobres necessidades e características e, por isso, tentaram conduzi-lo da melhor maneira, impondo-lhe alguns limites, sem, contudo, tolhe-lo em seus valores e traços inatos.


Aos seis anos de idade, Gael e os alunos de sua classe receberam uma plantinha para regá-la e auxiliar o seu desenvolvimento. Era um pequeno cacto, planta de fácil cultivo, cujo crescimento foi cuidadosamente acompanhado pelo menino. Um dia, durante um almoço em família, e junto ao seu cacto, ele indagou se sua planta era um ser vivo. Tendo a resposta afirmativa, afirmou que não comeria mais nada que fosse vivo como a sua amada plantinha.

O menino começou a questionar tudo o que havia para a refeição: as saladas, o feijão e..... a carne! Animais para Gael significavam vida, e ele desenvolvera um raciocínio estranhamente empático de que se ele abrigava a vida e não queria perdê-la, não achava justo ceifá-la de qualquer outro ser vivente. Naquele momento, seu pai teve que utilizar seus melhores argumentos, afim de persuadi-lo e demonstrar-lhe a racionalidade do ato de comermos animais. Muito em razão da forte cultura de consumo de produtos de origem animal pela sua família, o pai conseguiu convencê-lo, explicando-lhe sobre cadeia alimentar e alguns outros argumentos, ainda que com fundamentos um tanto duvidosos. Mas esse assunto certamente viria à tona no futuro. Gael se importava com sua alimentação, tinha uma preocupação natural com os demais seres, com a vida e, como dito, tudo precisava fazer sentido em sua vida e no universo.


Assim, o menino seguiu sua jornada, ora se adptando, ora brigando com a realidade que ia se revelando com o tempo. Nesse cenário ele criou seu mundo, seus personagens, e não tolerava “desvios” mal explicados dessa realidade. Algumas vezes era visto como uma criança “mal educada” ou até grosseira, porque protestava contra o que reputava incorreto. Por outro lado, era uma criança feliz e grata pelo que vivenciava e pelo que acreditava. Contrariado, se insurgia, se rebelava. Crescia. Costumava repetir aos seus pais que não precisara nada mais do que já tinha para ser feliz. Defendia-se sozinho, apesar de ter vários amigos cuja convivência era, na maior parte do tempo, amorosa e cheia de energia. Energia que seus pais viam como um combustível para a manutenção da sua felicidade, e para a construção de um mundo melhor. O pai dele sempre dizia: “a vida é (e sempre será) mais simples pro Gael”.


E para a construção desse mundo o menino dispunha de curiosidade e muito papelão. Aos sete anos ele tinha a companhia de Jorjão e outros amigos. Meninos de espírito e pensamento livres, onde o engodo não tinha vez. Que não se iludiam facilmente com as mazelas disfarçadas da humanidade pós-moderna. Assim seguia o menino, encantado com o papelão, com as plantas. Que quando ganhava um brinquedo novo se encantava com a caixa, e deixava o brinquedo para um segundo momento. No seu mundo, ele era literalmente o protagonista, ele criava e realizava seus sonhos.


O menino cresceu. Tornara-se um homem nos moldes de sua liberdade. E a vida lhe acompanhou como uma gaiola ao seu passarinho. Tornou-se jornalista num grande jornal, um dos poucos que assumia um viés mais crítico que ainda restara, já que a orientação política da época fizera com que a censura fosse cogitada e mesmo executada em seu país, sob as bênçãos, inclusive, de vários outros veículos de comunicação.


Este texto de Patrícia Bianchi será publicada em duas partes consecutivas pela Revista Pub, nos dias 25 e 26 de agosto de 2022

 

Patrícia Bianchi é Doutora pela UFSC. Pós-doutora pela USP e pesquisadora na área ambiental, associada do IBAP


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