O menino e o papelão - Parte II

-PATRÍCIA BIANCHI-


Pensando em ter uma liberdade de expressão ainda maior, com suas economias fundou o seu próprio jornal, inicialmente virtual, sentindo-se ainda mais à vontade para investigar e divulgar informações que só reforçavam a sua fama de escancarar verdades inconvenientes das elites locais e mundiais.


Como sempre, para Gael, tudo precisava fazer sentido. O mundo em que o menino cresceu, cheio de amor e criatividade, lhe deu base e forças para a construção de algo genuinamente belo. Ele trabalhara durante anos revelando verdades ao grande público, com o mesmo amor que costumava dirigir aos seus, com o mesmo arbítrio e coragem que lhes tinham mantidos intactos. Em sua cabeça a injustiça não fazia sentido , no seu mundo ela precisava ser combatida. Um ato que lhe marcara já no nascimento e lhe marcaria a morte.


Enquanto isso, Pedro tornara-se um homem bem sucedido. Formado em Medicina pela norte-americana Johns Hopkins University, ainda lecionava em Stanford, e mesmo em Cambridge como professor visitante. Possuía habilidades com o mercado de ações. Essa dinâmica também lhe era familiar. Desenvolvera um senso bem apurado em termos econômicos e financeiros. Pedro participava de círculos restritos sociais e de poder. Fazer parte desse mundo parecia-lhe muito natural. O irmão de Gael desde muito cedo se mostrava apto a jogar bem as regras da sociedade, quando criança já professava que teria muito dinheiro. Sempre foi um menino extremamente educado, e transformou-se num adulto gentil e cortês. Mas o mundo era dele e para ele.


Com dinâmicas de vida diferentes, os irmãos foram se distanciando naturalmente, sem traumas nem grandes dores. Apenas não tinham muitas afinidades, suas metas e visões de viver bem eram simplesmente diferentes. Duas figuras incríveis, homens honestos e de grandes conquistas, mas Pedro não pensava necessariamente em mudar o mundo.


A mãe de Gael, apesar de ser convicta quanto aos valores e amor que lhes foram repassados e conservados, preocupava-se com seu destino, era algo que rondara seu pensamento, sua intuição. Um dia, após sair do trabalho, lhe armaram uma emboscada. Uma armadilha que o manteve preso durante algum tempo. Por ter apurado furo jornalístico que envolvia autoridades estatais e pessoas poderosas, revelando fatos delituosos, acusaram-lhe de que tais informações configuravam “receptação de produto de um crime”, situação agravada por ele ter se recusado a revelar a sua fonte. Contudo, esse episódio representou um atentado à liberdade de informação e às demais regras que regulavam a atividade da imprensa no país. Sem aprofundar os meandros técnico-jurídicos da questão, o fato é que Gael exercia verdadeiramente um jornalismo ético, não pagava nem delatava suas fontes, e divulgava as informações, sobretudo porque via justa causa nessa ação.

Não era um trabalho, mas uma vocação. Tinha convicção de que falcatruas e crimes cometidos por agentes do governo em conluio com grandes empresas e figuras de grande poder econômico, longe dos olhos da população, deveriam ser revelados. Para ele, assim como era para o menino que um dia fora, isso fazia sentido. Isso, a seu ver, daria a chance aos cidadãos de enxergarem, de forma mais clara, a situação em que viviam, numa aproximação mais real do cenário social do qual dependiam. Assim, com capital cultural e dinheiro, vindo de uma família de classe média, por falta de provas e mesmo por falta de enquadramento de sua conduta num tipo penal, logo tiveram que soltá-lo.


Seu trabalho continuou nos mesmos moldes, o menino destemido, de espírito livre ali ainda estava. Ele se tornara alguém especialmente visado por isso. Angariou muitos fãs por suas ações, consideravam-no alguém que prestava um nobre serviço ao país, à democracia; mas também atraiu importantes inimigos. Por isso, alguns meses depois, numa manhã de domingo, lhe armaram novamente. Desta vez, apesar de nunca ter sido efetivamente provado qualquer delito formal, o imbróglio jurídico-político assumiu tamanha magnitude, que Gael jamais sairia da prisão.

O menino que tinha sonhos de construir um mundo melhor com caixas de papelão tinha terminado seu destino numa caixa de concreto, o maior tempo em uma solitária, porque ousou ser genuíno, e ousou estar ao lado daqueles que ele reputava mais precisar do seu auxílio, da sua vida. Na imprensa, uma vez apenas leu-se que sua mãe, desesperada, perguntara por que o mundo se calara diante de tamanha atrocidade. Por que organizações e pessoas nada diziam ou faziam? Por que seu filho estava sozinho nessa via crucis? Sua emoção impedia-a de perceber que apesar das revoltas superficiais, a sociedade cada vez mais perdia o poder de mobilização, estava anestesiada. Governos e mídias se ocupam de ludibriar e entreter a população como um público de picadeiro. Por isso, seu sofrimento seguiria particular. A mobilização do grande público era uma utopia, e havia infinitos recursos para mantê-la.



Arte - Gael - Aloísio Van Acker

Gael morreu praticamente lobotomizado numa prisão qualquer. Enfim, calaram-lhe. Seus últimos anos foram acompanhados como um reality show por todos da grande caixa. Pedro, que vivia nos Estados Unidos, nunca concordara com a audácia e o ativismo de Gael no Brasil, mas tentou ajudá-lo sem sucesso. Seus pais fizeram tudo o que lhes foi possível, inclusive venderam a maior parte dos seus bens para o pagamento de distintos advogados. Tudo em vão. Jorjão talvez fosse o único que pudesse ir ao seu encontro e salvá-lo, já que era forte, seu herói de papelão. Mas na época ele não mais existia e, como a história do seu parceiro de anos, sua vida chegou ao fim.


Durante a sua jornada, Gael fez muitos amigos pelo caminho, e seus trabalhos atraíram milhares de admiradores. E, por isso, com sua morte, nasceram brotos e lampejos de democracia, de sede de justiça e de uma procura por sentidos. Como aquele que costumava plantar e cuidar da vida em desenvolvimento, sobretudo dos mais frágeis, ainda após o fim ele colhia e semeava suas lições, seus princípios. E esse legado jamais poderia ser aprisionado.


Os últimos relatos que se ouviu de sua história é que a partir de uma foto de infância seus pais reconstruíram o Jorjão - aquele boneco de plástico, fita crepe e papelão- que lhe acompanhou em amizade por muitos anos, e deixaram-no em seu antigo quarto que agora, em parte, estava tomado pelos livros da família.

Jorjão não era apenas um símbolo da reciclagem, da simplicidade, da criatividade e do talento, ele refletia o desejo e o sonho de Gael, era como ele enxergava o mundo. Ele era simplicidade, racionalidade e amor. Criatura que refletia o desejo e pessoalmente o seu criador. Ali, naquele gesto dos pais, naquela homenagem, o homem-menino de alguma forma estava finalmente livre e se perpetuava.

 

Patrícia Bianchi é Doutora pela UFSC. Pós-doutora pela USP e pesquisadora na área ambiental, associada do IBAP


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