RECADO DE LÉVI STRAUSS E ABDIAS DO NASCIMENTO AO SENHOR JAIR MESSIAS

-Luiz Roberto Alves-



Capa do livro O pensamento Selvagem - Editora Papirus

Melhor seria se o presidente da República se abstivesse de comentários eleitoreiros e demagógicos diante dos irmãos evangélicos da Marcha para Jesus e dissesse pelo menos uma verdade aos crentes que ainda estão ao seu lado. A verdade seria o anúncio de que pretende destroçar os quilombos (cuja gente comparou a porcos, pesados por arroba) e incinerar as culturas indígenas em troca de alguns caraminguás e pepitas de ouro. Quem sabe, a direção de cassinos no meio da floresta. Ora, o seu ídolo do norte não meteu sobreviventes das antigas nações indígenas americanas a dirigir cassinos nos desertos?


Estaria o presidente a falar a verdade e a libertar consciências cristãs para pensar. Primeiramente, a gente evangélica que tivesse alguma leitura, ou memória de suas famílias, se lembraria de que mais de 50% de todos os que marcharam no dia 20.06 eram de ancestralidade profunda e inegavelmente mestiça. Portanto, depois de alguma reflexão, pensaria que um grupo não grande, mas valoroso da população brasileira, de algum modo conterrâneo e em parte irmão de sangue construiu sua vida em outros caminhos e territórios no tempo e no espaço do Brasil continental.


Uma construção de pleno direito, que agrega à sua vida valores culturais, econômicos e sociais nada inferiores a outros direitos de cidadãs e cidadãos urbanos e rurais. De um lado, as nações indígenas que aqui estão há milhares de anos e representam com dignidade a manutenção das cores da bandeira nacional, muitas vezes a ferro e fogo.


Outro grupo de comunidades, tocado pela consciência histórica e por direitos também ameaçados, construiu quilombos e tem lutado arduamente para garantir pertinência geográfica, solidariedade cultural e desenvolvimento sustentável. As mais recentes críticas ao horror neoliberal e à expansão do ódio pelos tecidos sociais do mundo, dariam toda a razão à preservação e desenvolvimento dos quilombos e das nações indígenas. A propósito, elas também podem ser referência para a proposta recente do secretário geral da ONU, Guterres.


A partir da verdade revelada sobre o palco da Marcha, o governo Bolsonaro seria julgado pelo povo evangélico naquilo que be-emet está propondo que se faça. Este é um dado perfeitamente adequado para a exegese do capítulo 8 de João. Ou não é verdade que grandes latifundiários e exploradores de minérios vão cuidar da demarcação de terras indígenas e meter o bico no universo dos quilombos? Também não é verdade que o senhor Jair Messias não demarcará 1 metro de terra em seu governo? Os irmãos evangélicos precisam conhecer tudo isso, porque as falas denominadas como verdades por Jair Messias estão sempre associadas ao círculo conceitual da morte, o que seus eleitores ainda não entenderam. Liberdade e Verdade na boca do presidente estão sempre associadas ao verbo matar e ao substantivo morte.


Embora este colunista, depois das propostas bárbaras já feitas, não creia que este governo se converta ao Brasil profundo e real, pois definitivamente não o conhece, não se pode parar de criar reflexões e compartilhá-las, a favor do melhor conhecimento deste país de ontem e de hoje.


Por que Lévi-Strauss pode ajudar na reflexão? Porque foi um dos brilhantes cientistas do mundo e conhecedor profundo das culturas indígenas do país. Viveu no Brasil nos anos d 1930, ensinou na USP nascente e meteu-se nas florestas, estudando e aprendendo do povo brasileiro, especialmente indígena, mas também não-indígena. Por que Abdias do Nascimento? Porque esse brasileiro, ator, escritor, pensador, ativista, entendeu o significado cultural e político das formas de Negritude e demais movimentos associados, cuja divulgação estética e política buscou sensibilizar as gentes.


Lévi Strauss teve nos indígenas brasileiros a espinha dorsal de sua obra extraordinária de antropólogo e etnólogo. O que ele tem a dizer ao presidente Bolsonaro é que o pensamento do povo indígena não pode admitir suas propostas. Primeiramente, porque elas, autoritárias e atabalhoadas como sempre são, matam os laços culturais que definem o parentesco, o dia-a-dia, o trabalho, a sobrevivência e o culto daqueles considerados “diferentes”. Em segundo lugar, porque o pensamento de Bolsonaro, dos donos de terras, usurpadores de terras, de Teresa Cristina e Ricardo Salles é fragmentado, divide a vida e o humano em pedaços de dinheiro, usura, falso progresso.


Ao contrário, o pensamento “selvagem” é integral, refinado, orgânico, estrutural, como viu Lévi-Strauss. Se alguém arrebenta os laços físicos, territoriais ou culturais dessa gente, mata a cultura e o corpo. Mata a alma (ânima) que lhe garante a vida, visto que não pode se conformar, se integrar ou se adaptar ao que o presidente chama de sociedade brasileira, que se baseia em conquistas, exploração, lucro. No pós-liberalismo deveremos sinalizar exatamente o contrário. Daí o verbo incinerar usado no primeiro parágrafo deste texto. Pretende esse governo de plantão cometer tal pecado? Já não chega a ditadura cívico-militar (1964-1985) que assim fez?


Abdias foi brilhante ao mostrar que os movimentos conservadores de classe média costumam ser contrários ao racismo e à discriminação étnica

Senhor Presidente, senhor Salles, Senhora Teresa etc, os senhores e senhoras não aprenderam ainda que um dia, bem depois de sua passagem pelo poder, toda a população do Brasil irá agradecer às nações indígenas e aos quilombos sustentáveis a beleza do verde, a continuação do pulmão do mundo, o significado maior de sustentabilidade integral? Sim, somente as áreas preservadas e demarcadas farão isso. Não se enganem, a despeito de seu pensamento enviesado, endinheirado e fragmentado que hoje não vê nada disso. Que tal lerem Pensamento Selvagem, Tristes Trópicos e Saudades do Brasil, de Lévi-Strauss?


Abdias foi brilhante ao mostrar que os movimentos conservadores de classe média costumam ser contrários ao racismo e à discriminação étnica. Mas somente no discurso e mesmo nele parcialmente, porque na hora H vem a conversa de que o Brasil é um país manero e tranquilo para com as questões étnicas. Deste modo, explicitou Abdias do Nascimento, o que interessa é a mobilização político-cultural dos negros e negras na direção de políticas emancipatórias. Uma das dimensões, entre tantas, é o movimento dos Quilombos. No seu dificultoso aprendizado político, Abdias denunciou a “democracia racial” do Brasil como mito mascarador do racismo à brasileira.

Seu pensamento estimulou gestos e atitudes. Portanto, quando o mito Bolsonaro teve algum contato fortuito com algum Quilombo, juntou-se do jeito de sempre, desregrado, ao mito da democracia racial e escancarou seus preconceitos incorrigíveis diante de pessoas que devem ser medidas não por quilos ou arrobas, mas pela nova consciência adquirida nos confrontos dolorosos com os racismos brasileiros e sua volúpia em inviabilizar, ocultar, mascarar direitos e expandir violência explícita contra os negros, cujos sinais e fatos estão em todas as partes deste país. Benditos sejam os quilombos e seus esforço de criação de comunidades criadoras e criativas, cuja ação produz memória, recria culturas locais, promove visibilidade de valores e mostra que os nossos dilemas muitas vezes não são maiores do que as nossas forças. Axé, Abdias!


O senhor Jair Messias, a respeito desses dois fenômenos fundantes da História do Brasil, só tem uma atitude digna: fechar a caneta bic antes de seus surtos de destruição física e cultural que costuma empreender. Se porventura ainda lhe restasse um sentido de governo, à luz das mensagens de Lévi-Strauss e Abdias, conviria meter o seu governo a trabalhar pela manutenção da dignidade dos povos diversos e distintos desta terra. Se de todo for impossível, como dizem todos os sinais, cabe ao povo brasileiro e seus representantes no Congresso Nacional, antes que seja tarde, empreenderem a tarefa. Haveria outra verdade?

Luiz Roberto Alves escreve todo dia 06 de cada mês na Revista PUB, é Professor e Pesquisador da ECA-USP, aposentado.


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