OS NÚMEROS EM CASOS DE VIOLÊNCIA E SUA RELATIVIDADE NA PERCEPÇÃO
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-M. Madeleine Hutyra de Paula Lima -
Os números são representações gráficas de uma quantidade, que é uma “propriedade que existe em magnitude e acumulação e que designa tudo aquilo que pode ser medido ou contado, que é suscetível de aumentar ou diminuir e que possui uma substância e forma”. E também “está entre as classes básicas da classificação dos objetos, a par com a qualidade, a substância, a mudança e a relação” (Wikipedia). São importantes para a estatística, que é o campo da matemática que relaciona fatos e números em que há um conjunto de métodos que possibilita coletar dados e analisá-los, possibilitando realizar alguma interpretação deles, trabalhando com objetividade. É muito utilizada em atividades públicas e privadas, como programas de governo, políticas públicas, trabalhos científicos, pesquisas em vendas, de mercado, eleitorais e outras formas de apresentação de dados que procuram, de modo geral, demonstrar a relação entre fenômenos, facilitar sua análise e fazer compreender melhor algum problema.
No cotidiano, quando deparamos com fatos e notícias notamos que muitas vezes os dados numéricos perdem importância sendo relativizados por percepções que podem ser, ou não, resultado de ação de pessoas ou grupos formadores de opinião. Podemos associar esta observação com casos sobre violência. Qual tipo de violência chama mais a atenção? Quais seriam os motivos para que fatos violentos a envolverem algumas poucas pessoas atraiam mais interesse e causem maior comoção em comparação com fatos atingindo grande número de pessoas? Representariam perda de significado dos números de vítimas?
A resposta pode abranger algumas variáveis: condição social das vítimas, identificação com grupos sociais, país ou nação, tipo de audiência, preconceitos arraigados, entre outras. Ademais, a forma de apresentação dos fatos e de notícias pela grande mídia e pelas redes sociais pode mascarar preconceitos dos divulgadores e seus canais quanto ao conteúdo dessas informações aplicando seus valores, ou interesses de grupos que representam, ao desqualificar as vítimas de violência envolvida, conforme o pertencimento destas a grupos, como classe social, econômica, nacional, étnica ou política. O próprio público receptor da informação ou da notícia pode assimilar os dados sobre violência de formas diversas.

As formas de violência estão contempladas na ideia do triângulo da violência formulada por Johann Galtung, sociólogo, matemático e pesquisador norueguês, cujo gráfico aparece a seguir.
Galtung posicionou a violência direta no vértice superior e nos outros as formas indiretas de violência: a estrutural e a cultural. A violência direta é fato visível; violência estrutural é um processo, e a violência cultural é permanência.[i] Apresenta a violência direta abarcando também a manifestação de violências estrutural e cultural, subjacentes, não visíveis e mais latentes.
Segundo Galtung é a identificação do sujeito da violência que diferencia a violência pessoal da violência estrutural. Esta última é uma forma indireta e mais disfarçada de violência, relacionada com a injustiça social, consequência das desigualdades sociais, da exploração, da opressão, tendo raízes na distribuição desigual dos recursos nas sociedades ou entre as sociedades. A violência cultural (1990) é ainda uma forma mais profunda e indireta e tem como função legitimar as demais formas de violência, direta e estrutural, normalizando sua aceitação, por meio de linguagem, mitos, religião, patriarcado, colonialismo, preconceitos e demais expressões simbólicas da existência humana.[ii]
Aprofundando na distinção entre essas categorias de violência e respectivas abrangências, pode-se apreender melhor as possíveis causas da relativização pelo público, receptor das informações, dos números de vítimas de atos de violência diversos e a percepção desses fatos.
Tomando como exemplo a fome, ela pode ser analisada como violência estrutural por resultar de um processo de ações econômicas e políticas estruturantes da sociedade nacional e/ou global, sob uma visão micro ou macro a depender do universo do estudo a ser realizado. Também pode ser vista como violência cultural, ao consolidar e legitimar as causas para a existência da fome que decorrem da forma de colonialismo da agricultura hegemônica do agronegócio no Brasil, os mitos relacionados aos benefícios do agronegócio para o país apresentados pela grande mídia, o patriarcado dominante no modelo do agronegócio, e toda a falácia da narrativa dos defensores dessa forma de agricultura como solução para a fome e que criou e estimulou preconceitos contra outras formas de agricultura, como a familiar, entre outras, e contra os defensores da reforma agrária no Brasil, que tem caráter inclusivo da população. Desta maneira, os grandes meios de comunicação contribuíram para naturalizar como questão individual o fenômeno da fome que tem causas sociais. Desta maneira, a fome não é percebida como violência direta, e nem atrai comoção pública, embora afete fisicamente a vítima do fenômeno.
A identificação das duas formas de violência, estrutural e cultural, requer o aprofundamento na raiz dos problemas analisados e um nível de interesse social mais amplo das pessoas, o que, por sua vez, depende da evolução da educação dos indivíduos na sociedade para a cidadania, onde se interioriza a relação intrínseca entre os problemas individuais e os coletivos.
A violência direta afeta fisicamente alguma pessoa ou grupo de pessoas. No cotidiano, ela é mais visível e mais perceptível, sendo tratada como questão individual pelos órgãos de segurança. O aumento do número de casos registrados dessa forma de violência é divulgado pela mídia e facilmente absorvido pela população, enquanto os estudos existentes sobre suas causas têm pouca divulgação para o público, podendo estar associados com a violência estrutural acompanhada pela violência cultural.
É reconhecido que o máximo de violência direta, por afetar a segurança física de grande número de pessoas, é representado pelas guerras, que têm presença marcante no atual cenário mundial. A guerra pode ser definida como a luta ou enfrentamento com utilização de armas bélicas e atuação de tropas regulares entre dois ou mais grupos de pessoas, por causa de antagonismos e rupturas graves e recíprocas e que traz como resultado uma ruptura das relações normais entre eles (Mapfre).[iii] Na base, a guerra constitui a ruptura das relações entre os antagonistas que não conseguiram resolver disputas por meios pacíficos que podiam ter fundamento em questões de violência estrutural e cultural.
A denominação empregada para a guerra sofre nuances conforme os interesses daqueles que apresentam dados sobre essa forma extrema de violência. Assim, o termo para o fato pode ser empregado de maneira errada, na maioria das vezes de forma proposital para atribuir valor depreciativo a algum contendor. Por falta da neutralidade necessária, a grande imprensa utiliza artifícios e contribui para alienar a opinião pública sobre as causas.
O próprio estímulo às guerras contém interesses ocultos que contribuem para reforçar determinadas informações, pouco verdadeiras, direcionadas para a aceitação do fato. Em vídeo sobre a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, o jornalista Julian Assange afirmava que o objetivo da guerra sem fim naquele país não visava dominar totalmente o Afeganistão, mas seria uma forma de usar o ataque a esse país para fazer lavagem de dinheiro das verbas usadas fora do controle orçamentário dos EUA e fazer retornar esse dinheiro com segurança para algum grupo transnacional.[iv] Em outra manifestação, o criador do Wikileaks expõe que a forma da concentração na mídia, a sua dependência de verbas de corporações e a lógica geopolítica dos grandes centros de poder geram desinformação estrutural, valendo-se até de mentiras e de marcos de narrativas, de silêncios estratégicos com interesses diversos na hierarquização de apresentação dos acontecimentos. A informação passou a ser um instrumento de controle político e econômico, em especial em contextos de guerra, de conflitos internacionais e na disputa por recursos. Considera ele que a compreensão dessa forma de funcionamento constitui a chave para analisar de maneira crítica o papel da imprensa, a liberdade de expressão e o direito real à informação.[v]
Johann Galtung, ainda em 1958, havia se insurgido contra o círculo vicioso da “naturalização da guerra”, vinculada, desde a Guerra Fria, com a corrida armamentista de prontidão para a guerra e do poderio militar auto justificado pelos burocratas da linha de “defesa”, que se limitava aos “estudos de segurança”, objeto de suas críticas.[vi]
É importante considerar essas posições como abordagem crítica para afastar as formas automáticas de absorver as notícias e contribuir para gerar percepções sobre os fatos sob a perspectiva de manutenção da paz. Para realizar esse objetivo é necessário entender a dimensão e o nível de expressão dos três tipos de violência gaultianos geradores de conflitos, que cobram medidas promotoras de transformações nas causas e nas contradições estruturais e culturais em suas bases mais profundas, e que não se limitam apenas à cessação dos efeitos diretos das violências.[vii]
A distância física dos acontecimentos violentos não parece um obstáculo para a informação por conta da globalização da tecnologia das grandes empresas de comunicação, apesar do uso de seus filtros nas divulgações, que alteram os fatos e suas causas. Portanto, sejam fatos próximos ou distantes, a percepção das pessoas sobre a violência depende do nível de abstração dos interesses pessoais para sentir solidariedade e empatia com as vítimas fora do contato e de conhecimento diretos.
Em síntese, a educação para a cidadania, na busca pela justiça social e pela paz, constitui elemento fundamental para fortalecer os laços de solidariedade entre os seres humanos em suas múltiplas diversidades, num mundo capitalista, complexo e globalizado, onde os grupos detentores do poder da tecnologia da comunicação filtram as notícias, por interesses diversos, e impactam negativamente na percepção dos números elevados de vítimas das diversas formas de violência espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.
Notas
[i] PUREZA, José Manuel. O desafio crítico dos estudos da paz. Organicom, ano 15, número 28, 1º sem. 2018, pp.74-85.
[ii] PUREZA, José Manuel; MOURA, Tatiana. Violência (s) e guerra(s): do triângulo ao continuum. Coimbra: FLUC. Instituto de História Económica e Social. Revista Portuguesa de História, n. 37, 2005, pp. 45-63. https://estudogeral.uc.pt/bitstream/10316/13040/1/Viol%C3%AAncia%28s%29%20e%20guerra%28s%29%3A%20do%20tri%C3%A2ngulo%20ao%20continuum.pdf
[vi]Os estudos de segurança são valorizados em países com forte classe alta, supremacia de brancos, anglófonos, na maioria; exportam colonos e bases militares a outros países (em especial para Oriente Médio); geram motivos para insegurança. OLIVEIRA, Gilberto Carvalho de. Estudos da paz: origens, desenvolvimentos e desafios críticos atuais. Carta Internacional, Belo Horizonte, v. 12, n. 1, p. 148–172, 2017. https://doi.org/10.21530/ci.v12n1.2017.611
[vii] Johann Galtung foi o principal fundador em 1959 do Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo (PRIO)[vii] (1959), criador do Journal of Peace Research (1964) e fundador, em 1998, da associação Transcend.org para mediar conflitos com objetivo de transformá-los por um processo de construção da paz e do desenvolvimento.
Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima é advogada, mestra em Direito Constitucional, mestra em Patologia Social e associada do IBAP. Publica sua coluna todo dia 13.




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