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A ameaça concreta da guerra híbrida contra o Brasil

  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

-FLÁVIA D'URSO-


Os recentes e alarmantes movimentos na política internacional e regional não devem ser interpretados como eventos isolados, mas como partes de um quadro mais amplo de disputa geopolítica e de influências.

 


A intensificação das tensões entre Estados Unidos e Irã ocorrem em um momento sensível da política doméstica norte-americana sugere que crises externas podem funcionar como mecanismos de reorganização do debate interno e de recomposição de legitimidade política.

 

Esse conflito, contudo, não se limitaria ao Oriente Médio. Seus efeitos potenciais alcançam a economia mundial — pressionando preços de energia, cadeias produtivas e custos de insumos — e já repercutem em países periféricos ou semiperiféricos, como o Brasil. Alterações nessas variáveis econômicas influenciam diretamente percepções sociais de bem-estar e, por consequência, o ambiente político interno, inclusive em contextos eleitorais, o que se tratará adiante.

 

No plano estratégico, a confrontação com o Irã é interpretada como parte de uma disputa mais ampla entre a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos e os projetos de reorganização multipolar associados a potências como China e Rússia e a coalizões como os BRICS. Nesse cenário, países com relativa autonomia diplomática e imensos recursos estratégicos — entre eles o Brasil — passam a ocupar posição relevante na disputa por influência.

 

Nessa chave, a política externa e de segurança dos Estados Unidos para o hemisfério ocidental parece indicar uma tentativa de reforçar mecanismos de controle regional em nosso país.


Iniciativas como a possível classificação de organizações criminosas brasileiras – Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) - como entidades terroristas, operações militares conjuntas em países latino-americanos a exemplo do Paraguai e novos acordos de cooperação securitária estão ampliando a presença e o alcance estratégico norte-americano na região. A adoção de categorias como “narcoterrorismo” também reconfigura o enquadramento do crime organizado, deslocando-o do campo estritamente policial para o da segurança internacional.

 

Paralelamente, observa-se um conjunto de episódios políticos e institucionais internos ao Brasil que, nessa leitura, podem convergir com essas dinâmicas externas. Entre eles estão a exasperação midiática contra o Judiciário lateralizando pontos centrais do escândalo do Banco Master, tensões entre diferentes forças políticas, a atuação de redes associadas a investigações anticorrupção passadas com clara reedição da desastrosa Operação Lava Jato e episódios de influência ou aproximação com setores da direita internacional.

 

Não foi à toa a intenção de visita recente de Darren Beattie a Jair Bolsonaro na prisão. Ele não é um burocrata neutro. Trata-se de uma figura associada à direita radical estadunidense, com histórico de ataques ao STF e defesa pública do ex-Presidente. O objetivo de seu avistamento, em pleno contexto de tensão entre bolsonarismo, Judiciário e governo, não pode ser lida como gesto protocolar irrelevante. Ela acentua a percepção de que setores do trumpismo acompanham de perto a disputa institucional brasileira e buscam inserir-se nela de forma ativa. Quando um operador político ligado à administração dos EUA se desloca para encontrar Bolsonaro e já construiu retoricamente uma narrativa de perseguição judicial no Brasil, o gesto se torna parte de uma disputa transnacional por enquadramento político.


Todo este contexto se apresenta como claros e possíveis componentes de um ambiente de pressão política e informacional.


A hipótese central é de que tais fatores — tensões geopolíticas, reconfigurações securitárias regionais, disputas institucionais domésticas e conflitos narrativos — podem interagir e produzir um cenário de grave instabilidade política.


O Brasil, ao que se vê, vem se tornando alvo provável de pressão. Não necessariamente por meio de intervenção clássica, mas por instrumentos do que se conhece por guerra híbrida: reclassificações jurídicas, alinhamentos regionais, operações de linguagem, produção de instabilidade informacional, pressão sobre instituições e utilização eleitoral do caos.


A guerra híbrida não depende de intervenção militar direta, mas de disputas simbólicas, jurídicas e econômicas capazes de influenciar a opinião pública e o funcionamento das instituições.


Vivenciamos um momento político talvez o mais grave desde a redemocratização, especialmente diante das eleições presidenciais de 2026, processo, ao que tudo indica, será moldado por pressões simultâneas de natureza interna e internacional.


O objetivo da desestabilização, frise-se, vai além da não reeleição de Lula que, claro, é seu alcance imediato. O debate também central que deverá ser feito envolverá questões mais amplas sobre soberania nacional, autonomia política e alinhamento mundial a uma democracia material.



Flávia D'Urso é mestre em Direito Processual Penal e Doutora em Filosofia, na linha de pesquisa política, pela PUC/SP.  Foi procuradora do Estado e Defensora Pública. Dirigiu a Escola da Defensoria Pública de SP. Integra o Conselho Consultivo do IBAP.



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