Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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Ô MÃE, ME EXPLICA, ME ENSINA, ME DIZ O QUE É FEMININA

-SANDRA CUREAU-


A ideia de escrever sobre o assunto surgiu quando li, no Twitter, a transcrição da postagem feita no Instagram pela advogada Rosângela, mulher do ex-juiz Sérgio Moro: “Mesa posta. Esperando o Ministro da Justiça chegar ao lar! Curitiba gelada e sopinha para aquecer o corpo e coração. Sorry, feministas. Mas AMO cuidar de quem eu amo.”


Hein? Sorry, feministas? De onde a criatura tirou a ideia de que feministas não cuidam de quem amam? É certo que o país entrou no túnel do tempo e engrenou uma ré, mas, ainda assim, ninguém mais acredita que feministas não se depilam, odeiam homens, são todas lésbicas e, de quebra, andam pelas ruas queimando sutiãs. Bem, com os preços da lingerie nos dias de hoje, é pouco provável que isso aconteça.


Para não deixar passar em branco, a chamada “Queima de sutiãs” – ou Bra-Burning - foi um protesto público, realizado em 7 de setembro de 1968, no no Atlantic City Convention Hall (Atlantic City,EUA), por cerca de 400 ativistas do Women´s Liberation Movement, contra a realização do concurso de Miss América, encarado como opressivo às mulheres por sua exploração comercial.


A queima, propriamente dita, nunca aconteceu, até porque o espaço era público e as ativistas não obtiveram permissão para realizá-la. Mas a imprensa, ao dar ampla cobertura ao episódio, associou-o a outros eventos, como aquele realizado pelos jovens que queimaram seus cartões de segurança social em oposição à Guerra do Vietnã.

 

O que as ativistas combatiam naquele momento era uma sociedade dominada pelo machismo, que impunha às mulheres papéis secundários. Não se tratava de uma revolta contra os homens, mas de uma manifestação a favor da igualdade de gênero.


Hoje, o Brasil, de marcha-à-ré, inaugura uma nova era, na qual a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos afirma que “menina será princesa e menino será príncipe” e, para tanto, “menino veste azul e menina veste rosa.”


Mas, por que príncipes e princesas, poderíamos perguntar? Afinal, estamos na era da informática, em pleno século XXI, e isso soa um tanto “démodé”. A ministra não explica, talvez nem saiba explicar.


Poucos sabem que os contos de fadas, originalmente, possuíam versões muito diferentes das criadas nos estúdios cinematográficos e não eram dirigidos às crianças, mas aos adultos, transmitindo-se oralmente de geração a geração.


Esses contos e fábulas reproduziam a sociedade medieval, da qual se tornaram importantes testemunhos. Por isso, os principais personagens eram os membros da nobreza. Quanto às pessoas comuns, a maioria, ou ocupavam papéis secundários ou protagonizavam o desejo de se tornarem nobres.


Tomemos como exemplo Cinderela, também conhecida como “Gata Borralheira”. Trata-se de um conto de fadas, provavelmente o mais conhecido de todos, que teve a sua primeira versão na China, por volta de 860 a. C. Só muito depois surgiram as versões dos irmãos Grimm e de Charles Perrault, esta última a mais popular, datada de 1697 e baseada em um conto italiano, que gerou o filme dos estúdios Disney.


Do ponto de vista psicanalítico, Cinderela representa a mulher oprimida e sem dinheiro, por isso impedida de sair, ir a festas - no caso do conto, obrigada a limpar a casa e a dormir perto da chaminé, daí o apelido depreciativo –, e seu desejo de encontrar um homem de posses, rico, que lhe dará todos os confortos do mundo, ou seja, um príncipe. Com base no conto da Cinderela, a pesquisadora Colette Dowling estudou o medo que muitas mulheres têm diante da própria independência.


Cinderela, obviamente, não pensa em outra possibilidade de libertação, que não através de um homem e, muito menos, que, desse modo, apenas trocará de opressor, mas não obterá a liberdade. Muitas mulheres, ainda hoje, são como ela e, por isso, são conservadoras, passivas e anseiam pela imutabilidade de um mundo que se transforma cada vez mais rápido.



Por outro lado, os homens que provocaram os maiores recuos históricos, que foram responsáveis pelos piores regimes políticos, sempre defenderam o ideal da mulher doméstica e passiva: aquela que espera a chegada do príncipe para se tornar visível aos olhos do mundo.


Heloneida Studat lembra que Hitler teve total e unânime apoio das mulheres, na edificação do III Reich. O ideário nazista propunha às alemãs os célebres três KKK: Kind (Criança); Kirche (Igreja) e Küche (Cozinha). Por que elas o apoiavam? Por medo da liberdade, que traz consigo o risco da responsabilidade e da atuação, pois só quem já foi livre é capaz de dar valor à liberdade.


Não é pagando boleto e dando emprego que a mulher sai do estado vegetativo que Lauro de Oliveira Lima chama de choco psicológico. Hoje, quase todas as Constituições do mundo garantem igualdade de direitos às mulheres, mas, em quase toda a parte, elas são cidadãs de segunda classe.


Em conclusão, a mulher que se liberta economicamente nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica igual à do homem (Simone de Beauvoir), até porque as discriminações, sejam sociais, raciais, etárias ou de gênero, quase nunca ocorrem abertamente.


O título deste artigo é o início de uma música da cantora e compositora Joyce e não vejo melhor forma de encerrá-lo do que com a conclusão da própria música, que, não por acaso, se chama Feminina:


- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina? - Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar. - Então me ilumina, me diz como é que termina? - Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.



SANDRA CUREAU - Subprocuradora-Geral da República, faz parte da diretoria da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil – APRODAB, fez mestrado na UERJ e foi Vice-Procuradora-Geral Eleitoral (2009/2013)


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