A cobertura do golpe frustrado de Trump pela colônia

- Guilherme Purvin -



As três primeiras horas de cobertura jornalística pela TV brasileira da tentativa de golpe de estado perpetrada por Donald Trump e sua horda de milicianos supremacistas foram uma verdadeira aula de jornalismo colonizado.


Em primeiro lugar, buscavam a todo custo nos convencer de que não se tratava de uma tentativa de golpe em curso (isso só acontece em republiquetas), mas de alguma outra coisa, talvez atos de vandalismo ou, se tanto, uma insurreição. Com diversas imagens de extremistas já dentro do congresso, a Band News mantinha a manchete falando numa "tentativa" de invasão.


O fato do golpe não ter se consumado não o descaracteriza como golpe. Donald Trump coordenava a ação das suas bases eleitorais ultradireitistas e contava com o apoio expresso da polícia.


Com raras e tímidas observações incidentais, nenhum jornalista ousava comparar de forma enfática a conivência policial para com os atos buscando a deslegitimização do processo de sucessão presidencial face ao seu comportamento junto à população afrodescendente.


É evidente que temos nos EUA uma polícia divorciada da Constituição Americana e que serve como braço armado de grupelhos fascistas vinculados à Klu Klux Klan, aos saudosos dos Estados Confederados da América - a alt right de Steve Bannon, que fomenta o ideário e a ação da extrema direita brasielira.


Ao afirmar que a cena lembrava uma "banana republic", a imprensa colonizada desconsiderava que este modelo caricato só existe em função da política exterior estadunidense, que sempre financiou golpes de estado e baderna nos países da América Latina, em prol da total subserviência destes.


Uma repórter dentro do Capitólio, confinada em algum espaço pela polícia, prestava informações inúteis e desatualizadas. Enquanto, do lado de fora, o planeta inteiro já sabia de uma primeira vítima, a repórter ainda informava que "havia boatos" de tal incidente.

E, junto ao patético grupo de "experts" da Globo News, figuras ocas e ideologicamente cegas como Eliane Cantanhede diziam que Trump se igualava a Maduro com esse gesto.


Não, absolutamente não se igualava, na verdade Trump e Maduro são polos opostos e, se a Venezuela encontra-se isolada internacionalmente, isso se deve à política estadunidense, que não tolera a ascensão de lideranças populares regionais que defendam seu patrimônio nacional e que ousem dissentir das imposições do ultraliberalismo que está matando o planeta.


Aliás, com senso de oportunidade, Jorge Arreaza, ministro das relações exteriores da Venezuela, emitiu um comunicado na tarde do mesmo dia afirmando que o país "expressa sua preocupação pelos atos de violência que estão ocorrendo na cidade de Washington". Pelas redes sociais, o ex-vice-presidente da Venezuela disse que o seu país "condena a polarização política e aspira que o povo americano possa abrir um novo caminho em direção à estabilidade e justiça social".


De tudo, o que restou de mais sensato foi uma piada de Caique Bodine: "Como sempre, presidente dos EUA dando golpe em países da América. Contudo, por causa da pandemia, desta vez tiveram que fazer home office".


Como observou uma amiga, ficamos meio divididos entre o horror e o bom humor: afinal, o golpe era lá agora: "Dava um gostinho de vingança". No entanto, a mídia brasileira faz questão de portar-se como viralata que "sabe o seu lugar". Fosse o golpe na Casa Rosada, o tom seria bem outro.


Guilherme Purvin é escritor, autor de "Laboratório de Manipulação" e "Sambas & Polonaises".

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