JAQUES E O KALEIDOSCÓPIO


-RUI VIANNA-


O título, para quem ouviu e acompanhou, deve remeter às madrugadas ainda geladas de São Paulo, entre meia-noite e duas horas da manhã, quando acontecia o programa de rádio mais inovador e revolucionário (até então) de todos os tempos. Para quem ainda não conhece e nunca sequer ouviu falar, um pouco da história do Rádio no Brasil.


Antes, porém, um breve histórico do que ocorria no Brasil durante os anos de 1974 e 1975. 1974 foi o último ano de governo do General Emílio Garrastazu Médici, que ficou notório por promover o propalado “Milagre Econômico” e pela institucionalização da tortura aos dissidentes do regime militar instalado no poder a partir do golpe de 1964. Mão de ferro, eliminação física de opositores e dirigismo catastrófico na economia. (A conta do tal milagre chegaria impiedosa, anos depois). Veio a ser sucedido por outro general, Ernesto Geisel, em eleição indireta realizada no suspeitíssimo Colégio Eleitoral, onde a vitória da situação era líquida e certa. Geisel passou para história por promover a chamada “Distensão, lenta, gradual e segura”, que levaria à abertura e à redemocratização do Brasil. Mas não sem antes passar por mais um governo militar, do General João Baptista Figueiredo. Portanto, foi sob essa perspectiva sufocante de repressão e ditadura, sob todos os aspectos, seja políticos, seja econômicos e também de costumes, que surgiu um programa de rádio anárquico, libertário. Notável e muito bem-vindo.


Jaques Gersgorin, carioca de nascimento, cidadão do mundo por opção e necessidade, era o apresentador do programa que se chamava Jaques e o Kaleidoscópio, que ia ao ar, inicialmente, por uma hora, da meia-noite a uma da manhã, e depois todos os dias no inusitado horário citado acima. Sua biografia tem diversas curiosidades. Seu primeiro contato profissional, já em São Paulo, foi através de um convite de ninguém menos do que Silvio Santos, ele mesmo, o homem do baú, para quem escrevia esquetes para os programas de rádio do apresentador. Já se revelava um apego e o talento nato para o meio.


Após algumas outras passagens pelo rádio, em Minas Gerais e São Paulo, Jacques foi produzir e apresentar o seu Kaleidoscópio , a partir do final de 1974, na Rádio América AM. (Pequena explanação para as gerações posteriores a 1980: As frequências de rádio são dividas por modulação de amplitude, ondas curtas e médias e modulação de frequência, FM. A qualidade do som é maior na frequência modulada, ou FM, que todos conhecem hoje. Fecha.) Essa rádio era uma estação católica, com uma programação extremamente conservadora, tipo musak, e veio a abrigar um dos programas mais anárquicos e pluralistas de todos os tempos.


Jaques era um cultuador do rock, principalmente o progressivo, mas não se restringia a apresentar apenas esse gênero musical durante o programa. Nas madrugadas paulistanas desfilavam Som Nosso de Cada Dia, já na vinheta de introdução, com Massavilha (Cito de memória, e temo que ela falhe miseravelmente. Fonte altamente autorizada afirma que a vinheta de abertura era a música Aegian Sea, do Aphrodite’s Child) , um exemplar mais do que representativo do cenário progressivo, com teclados eletrônicos manejados por Manito (egresso dos extintos “Incríveis”), Jethro Tull, com vinhetas intermediárias durante o programa e em boa parte da programação corriqueira, Yes, Premiata Forneria Marconi, Focus, Gentle Giant, Srawbs, Wishbone Ash... Mas também trazia Walter Franco, poeta maldito das noites paulistanas, Raimundo Fagner, ainda distante do seu abjeto conservadorismo atual, os bons bahianos Caê, Gil, Gal, material inédito da MPB, Mutantes e Arnaldo Batista, que nenhuma outra rádio se atrevia a tocar. Plural, diversificado e de muito bom gosto.


A locução do apresentador era algo intimista, num belo tom grave e arrastado, às vezes secundado por personagens como a famosa Teacher, na verdade Ana Maria Stingel, possuidora de uma voz rouca e sensual, quedava aulas de inglês pela tradução de letras de várias músicas no decorrer do programa, e atiçava a mente e a libido dos ouvintes, ou ainda uma psicóloga que discorria sobre vários temas controversos como drogas, sexo e roquenrol. Jaques conduzia o programa de forma serena, muito embora em determinados momentos tenha feito experiências como abrir o estúdio (o que acontecia nas sextas feiras) aos ouvintes para participarem ao vivo do programa. Eu mesmo acompanhei algumas edições dessa verdadeira festa, reunido com amigos e vários tipos estranhos e bem humorados muitos deles turbinados por cigarrinhos de cheiro acre e fermentado de cevada. Num desses programas, um desavisado/abusado chegou a tomar o microfone das mãos do apresentador, e se pôs a falar impropérios/impropriedades no ar, ao vivo! Na semana seguinte, o estúdio foi fechado ao público.


Através do programa Jaques e o Kaleidoscópio, tive contato com várias bandas de rock as quais não tínhamos nenhum acesso aqui, a não ser por caríssimos LP’s importados. Tristes tempos (ou não?) pré internet e acesso farto a todo tipo de material, seja musical, pornográfico, artístico em geral. Bandas como Gentle Giant, Premiata Forneria Marconi, Strawbs, Iron Buterfly, Uriah Heep, e tantas outras, desfilaram ante meus ouvidos ávidos madrugada adentro, provenientes de um grande rádio de pilhas (seis, tamanho GG), estrategicamente colocado no criado mudo ao lado da minha cama. Mesmo que, no dia seguinte, eu tivesse que acordar as sete da matina para trabalhar, não falhava um dia.


O encerramento letárgico do programa, com mensagens às vezes indecifráveis do “guru” Jaques, era acompanhado da parte final da obra minimalista Tubular Bells , de Mike Oldfield, que muitas vezes me pegava meio sonado mas ainda atento, e que me transportava a uma outra dimensão, em sua repetição hipnótica. Tudo pronto para enfrentar o dia seguinte, por pior que fosse.


Pouco se sabe sobre Jaques e seu destino atual. Há material esparso pela rede, mas nada conclusivo ou determinado. Apenas algumas devidas homenagens ao gênio criativo desse grande personagem dos primórdios do Rádio brasileiro e sua ousadia em abrir janelas da percepção em plena ditadura militar (sim, meninxs, houve ditadura no Brasil) naquele agora estranhamente próximo pesadelo dos anos 1970. E minha confessa nostalgia pela forma como a ele resistimos, e meus companheiros esquisitos daqueles tempos tão esquisitos.


RUI VIANNA - Advogado aposentado e diretor do IBAP



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