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MILTON SANTOS: INOVADOR E ARTICULADOR

  • há 5 minutos
  • 6 min de leitura

-Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima-


Capa do livro "Milton Santos, uma biografia", de autoria do professor Fernando Conceição, Faculdade de Comunicação da UFBA, lançado em 28 de dezembro de 2015. No Espaço Cultural Raul Seixas do Sindicato dos Bancários, localizado nas Mercês, será realizada a mesa-redonda intitulada "Intelectual, Negro e Geógrafo Mundial". https://ufba.br/ufba_em_pauta/professor-da-ufba-lan%C3%A7a-biografia-do-ge%C3%B3grafo-milton-santos
Capa do livro "Milton Santos, uma biografia", de autoria do professor Fernando Conceição, Faculdade de Comunicação da UFBA, lançado em 28 de dezembro de 2015. No Espaço Cultural Raul Seixas do Sindicato dos Bancários, localizado nas Mercês, será realizada a mesa-redonda intitulada "Intelectual, Negro e Geógrafo Mundial". https://ufba.br/ufba_em_pauta/professor-da-ufba-lan%C3%A7a-biografia-do-ge%C3%B3grafo-milton-santos

Milton Almeida dos Santos, mais conhecido como Milton Santos, está sendo lembrado também pelos 100 anos de nascimento, em 1926, na cidade de Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia.  Contou para sua formação inicial com os ensinamentos de seus pais, professores primários, que, devido às dificuldades inerentes à necessidade de mudanças constantes para exercerem sua profissão na época, tiveram que matricular Milton Santos, dos 10 anos até os 20, em colégio interno em Salvador. Formou-se em Direito em 1948 e conquistou o título de doutor em Geografia, pela Universidade de Strasbourg, França, em 1958 e em 1960 teve aprovação brilhante nas provas de concurso para a Livre Docência na cadeira de Geografia Humana da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, passando a ensinar em Universidades em Salvador, Bahia.[i] 


A possibilidade de Milton Santos fazer o doutorado na França deveu-se, em grande parte, ao seu encontro com o Prof. Jean Tricart, da Universidade de Strasbourg no Congresso Internacional de Geografia, realizado em 1956 no Rio de Janeiro, quando já era bacharel em Direito, editorialista do jornal A Tarde, mais importante da cidade, e professor da Faculdade Católica de Filosofia da Bahia.


Milton Santos teve grande mérito por seu empenho na criação do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais na cidade de Salvador, que serviu para reconstituir sua memória real e fazer um importante registro da evolução dos estudos geográficos científicos na Bahia em quatro décadas.[ii]  .


O Laboratório foi criado em 1º de janeiro de 1959 e contou com a iniciativa do Reitor da Universidade da Bahia, Edgard Santos, e apoio da Cooperação Técnica do Ministério das Relações Exteriores da França, representada pelo Prof. Jean Tricart, da Universidade de Strasbourg, sob a liderança do espírito renovador de Milton Santos.


A equipe era composta por jovens professores, de estudantes de graduação em Geografia ou História e até mesmo de estudantes de curso secundário, interessados nas conferências organizadas por Milton Santos e realizadas, na Faculdade Católica, por professores franceses e brasileiros recém-chegados da Europa e da África.


Antes da criação oficial do Laboratório, a equipe convidada, sob a orientação de  Milton Santos, realizava trabalhos de pesquisa, envolvendo trabalhos de campo, levantamentos de dados, análises estatísticas, leituras comentadas, seminários, cursos, reuniões científicas de apresentações de trabalhos e de avaliação, enfim, um ambiente de efervescência cultural e científica. As linhas de pesquisa eram urbano-regional e meio ambiente, com destaque para a geomorfologia. No Laboratório, a ciência geográfica era tratada como técnica e como reflexão, com incentivo à criação, através do pensamento autônomo e crítico. Muitos desses trabalhos foram apresentados no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em agosto de 1959, organizado também por Milton Santos, sob o patrocínio da Universidade da Bahia e da UNESCO e foram publicados nos Anais do Colóquio junto de trabalhos de professores vindos de universidades de Portugal, da França, da Inglaterra, dos EEUU, de vários países da América Latina e de professores da Universidade da Bahia e outras Universidades do Brasil.


Antes do Laboratório não existiam estudos científicos sobre o Estado, do ponto de vista geográfico. Um desses estudos foi a realização de um inventário geográfico da Bahia e estudos de Geografia Aplicada, a partir de solicitações de organismos administrativos de Salvador, Rio e Recife. A convite de professores seus, foi lecionar na França, depois de ter ficado preso, por alguns meses, no período do governo militar, em 1964.


Milton Santos inovou os estudos de Geografia como disciplina que foi desenvolvendo junto a centros universitários importantes de pesquisa de vários países, como Tanzânia, Venezuela, Peru, França, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos, onde levantou dados comparativos cuja análise serviu de fundamento para sua obra. Recebeu vários títulos honoríficos, mais significativo o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel na Geografia, em 1994, pelo conjunto de sua obra.  O único laureado da América do Sul.[iii] Retornou ao Brasil em 1977 e, em 1984, através de concurso, foi integrado como Professor Titular na Universidade de São Paulo, onde exerceu o magistério superior até se aposentar. Em 1995, foi reintegrado também na Universidade na Bahia.


Sua vivência em outros países -- onde já existiam estudos sobre os efeitos da mundialização econômica -- serviu de base para Milton Santos na sua análise local, no Brasil e contribuiu para a sua obra. Era um intelectual independente, não se filiando a qualquer partido político, para manter sua liberdade de intelectual.[iv] Considerava que todo geógrafo é um filósofo, e como filósofo um otimista, pois tem diante de si uma infinidade de ideias. Sua formação jurídica colaborou também para suas análises como geógrafo. O último livro que escreveu foi: “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, publicado em 2000. Faleceu em 24 de junho de 2001, em São Paulo. Suas obras vêm sendo reeditadas até hoje.


Em suas obras, preconizou a geografia voltada para as questões sociais, o ser humano como centro e suas inter-relações com os fatos. Trabalhou conceitos importantes, como espaço, lugar, território, tempo, cidadania, consumismo, migrações, formas criadas e formas criadoras, fixos e fluxos, circuito inferior e circuito superior, e apontou suas inter-relações na vida das pessoas. Sublinhou o aspecto humano da geografia, sob o aspecto histórico das relações de trabalho e criticou a globalização perversa. Reconhecia na população pobre o ator social capaz de promover uma outra globalização, que defendeu em livros e conferências pelo mundo[v], vendo na relação espaço-tempo elemento histórico:


“o momento passado está morto como tempo, não, porém, como espaço” e que “para apreender o presente, necessário voltar as costas às categorias que o passado nos legou, mas não ao passado em si.” E, também, que “o passado contém as raízes do presente – sem conhecer essas raízes, veremos um presente abstrato, irreal e impotente”.[vi] 

 

Dedicou atenção para a vida urbana dos países do Terceiro Mundo, e grande parte de seus livros é voltada para o tema urbano.[vii] 


Ganhou sua preocupação a questão do meio ambiente e a necessidade de sua análise de forma interdisciplinar, que tratou em dois artigos: 1992: a redescoberta da natureza[viii] e A questão do meio ambiente: desafios para a construção de uma perspectiva transdisciplinar. 1995 [ix].    


Considera que a crise ambiental existente demanda da comunidade científica uma análise compreensiva, totalizante, onde as pessoas, com origens e visões diversas, trabalhem com a atual realidade emparelhadas em legítimo trabalho interdisciplinar, partindo de meta-disciplinas e levando em consideração a história contemporânea. A técnica (ou os sistemas técnicos), como possibilidades usadas e principalmente como possibilidades ainda não usadas, possibilita olhar para o presente e para o futuro e talvez permitir a superação da fábula "que, num mundo globalizado. permeia as diversas motivações de uso, com as consequentes graus de indiferença, com as estruturas (materiais e sociais) do meio". E permitir desvendar o que está por trás da "exploração selvagem da natureza" e a própria racionalização da existencia subordinada às atuais relações entre técnica e sociedades.


Em síntese, é manifesta a importância de Milton Santos, nascido na Bahia, afrodescendente, com sua obra de inovação da Geografia Humana e servindo-se de sua experiência de atuação de geógrafo em alguns países subdesenvolvidos, inclusive da África, para melhor compreender a realidade humana e social do Brasil.

 

Notas

[i] Universidade Católica de Salvador e na Universidade Federal da Bahia.

[iii] Entre os títulos que obteve, ressalto: Doutor “Honoris Causa”, Université de Toulouse” (1980); Prêmio Vautrin Lud de Geografia (o mais importante na área), em 1994, pelo conjunto de sua obra, sendo o único de país latino-americano a recebê-lo; Medalha de Mérito da Universidad de La Habana, Cuba (1994), Doutor Honoris Causa da Universidad Complutense de Madrid (1994); da Universidade de Barcelona (1996), Professor Emérito da FFLCH da USP (1997); Prêmio UNESCO, na categoria Ciência (2000). 

[iv] Dizia: “não sou militante de coisa nenhuma, exceto de ideias”. “Como intelectual, tenho que ter inteira liberdade de criar ideias e expô-las, e não me preocupar se elas serão, ou não, aceitas Em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 31/03/1997. Em outro texto dizia: “Eu vejo uma grande dificuldade entre ser um intelectual e ser militante. São duas atividades que não se conjugam, senão muito excepcionalmente, (...) porque a necessidade de guardar inteira liberdade é excluída aos militantes. (...).”

[vi] Milton Santos. Pensando o Espaço do Homem, p. 15)

[vii] Entre eles, O Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo (1978), O Espaço Dividido (1979), A Urbanização Desigual (1980), Manual de Geografia Urbana (1981), A Urbanização Brasileira (1993). Os livros tiveram edições posteriores. 

[viii] Milton Santos. 1992: a redescoberta da natureza. Aula inaugural da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Da Universidade de São Paulo, em 10 de março de 1992. FFLCH.USP. 1992.

[ix] Milton Santos. A questão do meio ambiente: desafios para a construção de uma perspectiva transdisciplinar. Colaboração de Adriana Bernardes da Silva. Analles de Geografia de la Universidad Complurense, n. 15, 695-705. Servicio de Publicaciones. Universidad Complutense. Madrid, 1995.


 

Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima é advogada, mestra em Direito Constitucional, mestra em Patologia Social e associada do IBAP. Publica sua coluna todo dia 13.




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