SÃO BERNARDO DO CAMPO, 09/11/2019

Atualizado: 14 de Nov de 2019

- RUI VIANNA -


Não parecia um dia diferente. O trânsito estava normal, as buzinas dentro do seu nível de incivilidade normal, poucas pessoas na calçada, um calor abafado e o céu encoberto, muitas nuvens.


No dia anterior, tivemos a notícia de que Lula, o Luiz Inácio da Silva, finalmente tinha sido libertado da sede da Polícia Federal em Curitiba, após o julgamento histórico realizado no Supremo Tribunal Federal, onde finalmente se decidiu que o que está escrito na Constituição Federal, acerca dos Direitos e Garantias Fundamentais, deve ser aplicado. Logo, deveria ser um dia diferente, afinal, querendo ou não, reafirmamos que a Lei Maior do País ainda vale, deve ser aplicada, não interessa a quem beneficie ou a quem prejudique.


Mas não foi o que se viu. Até um determinado ponto do caminho, as pessoas caminhavam normalmente pelas calçadas, a sujeira continuava espalhada na mesma quantidade de sempre, nenhum muro havia caído, nenhum estabelecimento comercial havia sido destruído, nenhum veículo tinha sido incendiado, enfim, nenhum sinal de que se iniciava o final dos tempos.


Próximo ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, situado numa ruazinha sinuosa e não muito ampla, o afluxo de pessoas já não é o de sempre. Na esquina anterior ao cruzamento donde se chega à frente do Sindicato, o trânsito já está sendo desviado, o que resulta em uma certa irritação, algum motorista pragueja, afinal, é sábado de manhã, que chateação! Mas, ainda assim, não há elevação no tom das buzinas, os motoristas seguem ordeiramente a orientação das autoridades de trânsito, buscam caminhos alternativos.


Nesse momento, próximo das treze horas, espera-se o primeiro pronunciamento público de Lula, após 580 e tantos dias de privação de liberdade, forçados e forjados por procedimentos judiciais (e também extrajudiciais) que o julgamento do STF entendeu indevidos, até o presente momento. Pessoas vêm chegando e, aí sim, sente-se que o clima é de mudança. Algo diferente no ar, além dos aviões de carreira.


São muitas barraquinhas, onde se vende de tudo, camisetas, bonés, botons, faixas, churrasquinho, cerveja (muita), água e refrigerantes, quinquilharias em geral onde a imagem de Lula barbudo, Lula sorrindo, Lula acenando, Lula nos braços do povo, pipoca pra todo lado. As pessoas sorriem, as pessoas dançam e se cumprimentam, bebem cervejas em latinhas, água em garrafinhas, carregam crianças pequenas nos ombros. Do carro de som, músicas e pronunciamentos exaltam o momento, exaltam a liberdade, a luta que se inicia, a que virá, o tanto que ainda há a fazer.


Nesse momento, ainda não havia assim tanta gente, era possível caminhar pelo meio da rua sem quase esbarrar em ninguém. A fumaça das churrasqueiras às vezes tolda a visão, chegam a irritar a vista. Mas logo passa, a alegria que flutua no ar é quase visível, não se vê as nuvenzinhas escuras que, nos últimos tempos, circundam a cabeça das pessoas.


São manifestações espontâneas de felicidade, alívio, alegria. Acontecem com frequência nesses momentos, o apoio é leve, traz consigo um sorriso, um abraço, mesmo que num desconhecido. Bandeiras de várias entidades tremulam em toda extensão da manifestação, aqui e ali alguns cartazes de repúdio a Bozo, pedidos de impedimento ou fora já. Mas são minoria.


Falta ainda bastante para o pronunciamento de Lula, é necessário que estas poucas ruas em volta do Sindicato estejam realmente tomadas pelo povo, esse povo que esteve aqui, nessas mesmas ruas, quando da prisão dele, há 580 e tantos dias atrás, e, mesmo sob essa circunstância adversa, sorria, se abraçava, tomava cerveja e água e comprava camisetas, bonés, botons e faixas e todo tipo de quinquilharia. Alguns choravam.


Aqui interrompo a reportagem e passo ao depoimento. Que é pessoal, claro, como só poderia ser.


Fui à manifestação junto com meu filho, hoje com 14 anos. Enquanto nos dirigíamos pra lá (algumas poucas quadras do meu prédio, aqui em São Bernardo), explicava a ele que, naquele longínquo ano de 1984, eu estava nas imediações do Vale do Anhangabaú, participando de um dos momentos históricos da política brasileira, vendo quase um milhão e meio de pessoas se estenderem de antes do Viaduto do Chá até além do Viaduto Santa Efigênia, pedindo a volta da normalidade institucional, do direito de decidirem, sem tutela de militares e da classe política, o próprio futuro.


Disse a ele que, nesse dia de hoje, ele também poderia estar presenciando o que seria um momento histórico, talvez o momento em que, após um período de quase quatro anos em que as instituições no Brasil deixaram de cumprir seu papel, poderemos voltar ao cenário de normalidade institucional, ao funcionamento do que poderíamos chamar de mais próximo do normal.


A liberdade de Lula, dentro desse contexto, veio a contrapor-se ao espancamento do Direito, restabelecer o princípio da Presunção de Inocência, vilipendiado e destruído em nome de um punitivismo tosco e primitivo, que, além de tudo, serviu ao propósito maior de adulterar o resultado de eleições viciadas.


Meu filho me acompanhou, calado, como tem sido de seu feitio nesses tempos de adolescência recém-adquirida e ainda mal compreendida. Mas se emocionou junto comigo, por mim, por tudo aquilo que ele via numa primeira vez, com seus olhos de garoto e seu corpo de adulto. Permaneceu por algum tempo observando, comprou uma camiseta, para guardar de lembrança, e voltou para casa antes de mim.


Fiquei por ali ainda mais algum tempo, sentindo aquela sensação de achar o lugar onde me encaixo, onde sei que sou mais um, e não um estranho espinho espetado no pé de alguém. Aquela boa sensação de que estou entre os meus, de que há esperança, de que tempos sombrios vão e vêm, e nós faremos sempre a travessia. E ainda de que, se necessário, estamos formando aqueles que levaram o estandarte adiante, sempre sorrindo, se abraçando, se divertindo quando possível e chorando quando necessário e insuportável.

RUI VIANNA é Procurador Aposentado da Caixa Econômica Federal e associado regular do IBAP.



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