Rita Von Hunty e Apagamento das diferenças

Atualizado: 17 de mai.

- Guilherme Purvin-

Há alguns dias, uma colega falava irritada em seu Facebook sobre aqueles que defendem uma ruptura real do sistema político, acusando "intelectuais da USP" e "essas modinhas influencers" de não terem a mais remota compreensão do que sejam fome, miséria e exclusão. O que chamou a minha atenção foi o fato da pessoa, que se apresenta como mestra e doutora pela PUC/SP, rotular "intelectuais da USP" de radicais anti-sistema (além de não atinar com o fato de que é ela também uma influencer).


USP e PUC/SP foram parceiras inseparáveis na luta contra a ditadura militar. Nenhuma universidade que mereça ser qualificada como tal uniformiza o pensamento de seus professores e pesquisadores. Ainda não temos, felizmente, "súmulas vinculantes" no meio acadêmico. A mesma faculdade de Direito que conta com Sérgio Salomão Shecaira, professor de Direito Penal que denunciava as ilegalidade da Lava-Jato, também tinha no mesmo departamento Miguel Reale Jr. e Janaína Pascoal, os dois professores que redigiram a petição do impeachment de Dilma Roussef.


Onde não há espaço para o debate, não há universidade, mas centro de doutrinação ideológica. O apagamento das diferenças é da essência dos regimes totalitários - Hitler e Stalin se aproximavam nesse quesito.

É isto o que faz com que a Universidade de São Paulo, da mesma forma que a Pontifícia Universidade Católica, continuem sendo verdadeiras universidades: nelas há espaço para a reflexão sobre o momento político atual no Brasil e no mundo a partir de múltiplas perspectivas, sendo que a prioridade neste momento, penso, é livrar o Brasil do miliciano que, em aliança com setores das igrejas e do agronegócio, levou o caos sanitário às últimas consequências, facilitando a morte de aproximadamente 700 mil brasileiros, implodiu o ensino público no país, reduziu drasticamente o poder aquisitivo da população e povoou as ruas das cidades de pessoas sem teto.


Há, contudo, quem considere que tudo o que ocorreu de 2016 para cá no país é de responsabilidade, não de um arruaceiro ignorante e de suas crias, mas dos setores da economia que os colocaram no poder.


Para quem pensa assim, realmente não faz sentido votar, já no primeiro turno, no único candidato com chances de vencer a extrema-direita. E isto porque esse candidato seria, neste momento (maio de 2022) o nome mais apto a atender os interesses de seus algozes verdadeiros, isto é, aqueles que, há seis anos, promoveram um golpe parlamentar-judiciário-midiático para a derrubada de Dilma e que o colocaram na prisão. Votar, no primeiro turno, num candidato de esquerda, seria dizer não a esta concertação do capital, que coloca e retira do poder quem bem entender, à revelia da vontade popular. Um marxista tem diante de si duas opções: ignorar as eleições ou, se ainda tiver alguma convicção nos mecanismos burgueses de representação parlamentar, votar no candidato que se disponha a enfrentar o capital.


Há, na Universidade de São Paulo, tanto quem se disponha a votar em Lula / Alckmin no primeiro turno (Fernando Haddad, por sinal, é professor da FFLCH-USP) como quem lute pelo direito de votar no candidato à presidência que melhor o/a representa politicamente. É o caso do talentoso estudante de pós-graduação Guilherme Terreri, graduado em Artes Cênicas pela Unirio (*) e em Letras pela USP - mais conhecido por sua personagem Rita Von Hunty, uma divertida caricatura de perua burguesa arrogante mas que, em vez de falar sobre jóias, viagens a Miami ou elegância à mesa, dá aulas sobre política - Marxismo, gênero e sexualidade, literatura etc.


Ao defender o seu direito de votar na candidata Sofia Manzano, do Partido Comunista Brasileiro - PCB, aliás economista com doutorado pela USP, Guilherme Terreri tornou-se alvo de uma enxurrada de agressões, não da extrema-direita, mas de pretensos militantes progressistas que consideram a vitória de Lula e Alckmin já no primeiro turno como a única forma de se derrotar a malta do miliciano. Ora, o que Guilherme Terreri fez não foi nada além do que Sofia Manzano vem dizendo: lutar pela industrialização no país, pela reestatização de empresas, pelo controle da taxa de câmbio, pela revogação das reformas trabalhistas. Leia-se, por exemplo, esta entrevista para o UOL.

As declarações de Guilherme / Rita Von Hunty se contrapõem às de Gregório Duvivier, outro nome de esquerda que faz sucesso no Youtube e que vem defendendo constantemente que os eleitores de Ciro Gomes votem em Lula no primeiro turno. Embora nenhum dos dois resolva integralmente as minhas dúvidas e inquietações, admiro e assisto com proveito os seus programas.

Diante da evidente guinada de Lula para a direita, não tenhamos ilusão de que, se eleito, seu governo será voltado ao atendimento dos interesses do mercado que, sob todas as perspectivas, conseguiu destruir o PT. No governo desse Neo-PT, os pleitos do PCB, por exemplo, estarão totalmente descartados. Mesmo assim, é urgente acabar com a arruaça e o desgoverno miliciano que o mercado elegeu em 2018. Já no primeiro turno? Vale lembrar que ninguém é empossado imediatamente após as apurações dos votos. Seja qual for o momento em que o miliciano receber as notícias de sua derrota, não tenhamos a ilusão de que reagirá pacífica e democraticamente ao longo dos dias que lhe restarem no Planalto.


As agressões LGBTfóbicas, anti-inteligência universitária,arrogantes, contra Guilherme / Rita Von Hunty, nos fazem pensar se vale a pena mesmo abandonar a luta por um sonho impossível. Não seria essa desistência um voto no apagamento das diferenças e na consolidação do fascismo?



 

Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB-Diálogos Interdisciplinares. Graduado em Letras e em Direito pela USP, Doutor e Mestre em Direito. Escritor e ambientalista, Procurador do Estado/SP Aposentado e Presidente do IBAP.


(*) Diferentemente do que constou na versão original deste post, Guilherme Terreri graduou-se pela Unirio e não pela UFRJ. Correção efetuada em 16-5-2022.


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