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LOS TRÊS AMIGOS

-RUI VIANNA-




Originalmente, o título refere-se a um filme de animação, criado pelos estúdios Disney em 1944. Trazia como personagens principais o Pato Donald, Zé Carioca e Panchito (os tais três amigos). Foi ainda estrelado por Aurora Miranda, que interpretava à ela mesma. Sim, era irmã da Miranda mais famosa, Carmen.


Muito tempo depois, em 1986, foi lançado o filme "The Three Amigos!", estrelado, entre outros, por Steve Martin, Chevy Chase, Martin Short e Joe Mantegna. Esse filme veio a servir de base para a criação da HQ "Los três amigos", de Angeli, desenhada a seis mãos por ele, Laerte Coutinho e Glauco Villas Boas, a partir de 1987. A estreia triunfal se deu na revista Chiclete com Banana.


A breve introdução serve de pano de fundo para uma exposição dessa expressão artística, política, social, cultural e humorística que são as Histórias em Quadrinhos, ou singelamente HQ. Não tem, e nem deveria, a pretensão de esgotar o assunto, extensíssimo, pela exiguidade do espaço e pelo bem da fluência narrativa. Assim sendo, necessário desde já entender não como injustiça os vários nomes que aqui deixarão de constar, mas como uma oportunidade para novos e mais completos artigos sobre o tema.


Dentro dessa premissa, inicio por esses três amigos-autores, pela representatividade e pela notável produção que realizaram.


Na década de 1980, tivemos uma verdadeira explosão de revistas em quadrinhos, com a revelação de diversos autores que, por assim dizer, desbravaram um mercado praticamente dominado por produções estrangeiras de qualidade duvidável, normalmente dirigidas ao público infantil ou infanto-juvenil. Dessa época temos as revistas Circo (lançada em outubro/1986), Chiclete com Banana (lançada em 1985) de Angeli , Strip Tiras (1983) e em seguida Piratas do Tietê (1990), ambas de Laerte Coutinho, e ainda Geraldão (1987), de Glauco Villas Boas.



A Revista Circo foi pioneira na publicação de quadrinhos de autores nacionais e estrangeiros, como os três acima citados e muito mais. Era uma publicação bimestral e que teve (infelizmente) uma curta duração de apenas nove edições. Trouxe quadrinhos de autores como Moebius, Will Eisner, Robert Crumb. E, claro, Luiz Gê.


Laerte foi criador de personagens marcantes e absolutamente geniais, como os Palhaços Mudos, que subvertiam a ordem estabelecida com "... sua mudez indecente e obstinada...", atacando os poderes estabelecidos com bombas de flores e trapalhadas estapafúrdias. Ou os Piratas do Tietê, seres dos mais repelentes e marginais, embarcados em um galeão que navega pelo rio Tietê em São Paulo, saqueando, estuprando, e, algumas vezes, tomando o poder. Ou ainda os Gatos, um casal de gatos profundamente humanos, Fagundes, o puxassaco, Don Lombrigoni, o mafioso e vários outros, sempre com um traço elegante e desenhos extremamente detalhados, em preto e branco.


Angeli é o criador de uma galeria de personagens antológicos, como Rê Bordosa, uma balzaquiana frequentadora do Bar Riviera, tradicional ponto da boêmia paulistana, uma ninfomaníaca alcoólatra e desbocada, talvez a mais famosa. Também Meia Oito e Nanico, os eternos revolucionários de balcão de boteco, Wood e Stock, dois velhos amigos que não conseguiram retornar da viagem do flower power, Bob Cuspe, um punk anárquico e violento, Os Skrotinhos, uma versão hardcore dos Sobrinhos do Capitão e vários, vários outros.


Glauco teve como (reza a lenda) seu alter ego o personagem Geraldão, um solteirão fracassado que mora com a mãe, não trabalha, fuma, bebe, se droga, come, tudo ao mesmo tempo, retratado de forma cômica com vários braços que seguram cigarros, bebidas, cachorros quentes e, de vez em sempre, se masturba. Adorava espiar a mãe trocando de roupa pela fechadura da porta e vivia pensando em tomar jeito na vida. Glauco teve um fim trágico, assassinado juntamente com seu filho Raoni por um seguidor do Santo Daime em surto, do qual era adepto , em 2010.


Los Três Amigos foi uma série de quadrinhos onde cada um dos autores desenhava seu próprio personagem, sendo eles Angel Villa, Laerton e Glauquito. Assim como nos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, Los Três Amigos acabam virando quatro, ao incorporarem o personagem de Adão Iturrusgarai. São aventuras que se passam num México decadente e violento, em lugarejos como Gran Marisales ou Gran El Piso. Tudo muito anárquico e carregado de um humor ácido, contundente e absolutamente non sense.


Mas o cenário de quadrinhos nacionais contou ainda com a edição da revista Animal, com uma proposta mais marginal e de divulgação de autores até então desconhecidos do público em geral. A revista publicou pela primeira vez no Brasil artistas como os italianos Tamburini e Liberatore (de RanXerox) e Massimo Mattioli (Squeak The Mouse), e os espanhóis Jaime Martín (Sangue de Bairro) e Max (Peter Pank), entre os anos de 1987 e 1991.


Nela também foram publicadas vários quadrinhos dos já citados e consagrados autores acima, e muito mais do que isso. Trazia, em sua páginas centrais, um fórum de discussão do cenário underground dos quadrinhos no Brasil, assim como do punk rock. Como curiosidade, o personagem RanXerox figura (adaptado) na capa de um dos cd's de Frank Zappa, The Man From Utopia.


Nos dias de hoje, só temos a lamentar a ausência de publicações regulares de quadrinhos de qualidade no mercado editorial brasileiro, sendo quase uma raridade um ou outro lançamento que quebre a barreira da mediocridade.


 

RUI VIANA é colecionador e consumidor compulsivo de quadrinhos, além de torcedor do Santos FC.



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6 comentários


Aurélio Prates Do Amaral
Aurélio Prates Do Amaral
27 de mar. de 2022

Alguém sabe dizer o ano de lançamento da revista los três amigos, aquela em formato grande?

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Marco Lima
Marco Lima
14 de nov. de 2022
Respondendo a

Aurélio blz? A única coisa que sei é que a original dessa edição (em tamanho convencional) é de agosto/89. Então essa tam grande é dps disso.

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juliocesarsuzuki
juliocesarsuzuki
16 de set. de 2019

Querido amigo Rui, muito interessante na recuperação das HQ no Brasil. Uma história que precisa ficar registrada. Aprendi muito!!!

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Guilherme José Purvin de Figueiredo
Guilherme José Purvin de Figueiredo
16 de set. de 2019

Aguardo ociosamente!!

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Rui Vianna
Rui Vianna
15 de set. de 2019

Com certeza, Guilherme. Como eu disse neste artigo, seria uma injustiça não explorar o trabalho de gente como Jaguar, Henfil, Ziraldo e vários outros. Gonzáles e seu Níquel Náusea e os vários outros personagens, como a baratinha Fliti, viciada em inseticida... Voltarei ao tema, com certeza.

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Guilherme José Purvin de Figueiredo
Guilherme José Purvin de Figueiredo
15 de set. de 2019

Muito interessante e oportuno seu artigo, Rui! Em recente artigo da jovem Valquíria Ferrão Antunes e publicado aqui também na PUB, ela comenta: "Eu, pelo menos, só abro a Folha quando vou na casa de pessoas mais velhas, e só para ler os quadrinhos do Laerte e do Caco Galhardo". É interessante observar que a Folha vem sendo, ao longo das últimas décadas, um grande difusor das melhores HQs do país.

Você aqui falou de Angeli, Laerte e Glauco - e citou Robert Crumb. Crumb deve ter sido absolutamente essencial na formação dessa geração de grandes cartunistas, especialmente no que diz respeito ao seu humor ácido. Acho que Crumb está para esse grupo assim como Disney está para Maurício de…

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