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AMELINHA PRESENTE!

há 2 horas
4 min de leitura

Guilherme José Purvin de Figueiredo

Marcos Ribeiro de Barros


Recebemos com imensa tristeza a notícia do falecimento, nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, de Maria Amélia de Almeida Teles, a nossa querida Amelinha, aos 81 anos.

Para o IBAP, não se trata apenas da perda de uma das figuras mais importantes do feminismo e da luta pelos direitos humanos no Brasil. Perdemos uma companheira cuja trajetória se entrelaça com a própria história de nossa entidade desde seus primeiros passos.

Há uma coincidência de datas que hoje adquire um significado especial. O IBAP (à época IPAP) nasceu em agosto de 1994. Foi também em 1994 que começou, em São Paulo, o Projeto Promotoras Legais Populares, impulsionado pela União de Mulheres de São Paulo, da qual Amelinha foi fundadora e uma de suas principais referências e por nossa associação. Desde aqueles primeiros tempos, os caminhos do IBAP e das Promotoras Legais Populares se encontraram e nunca mais deixaram inteiramente de se cruzar.

A aproximação contou, naquele momento, com a participação decisiva de Norma Kyriakos, então à frente do Centro de Estudos da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. O primeiro curso das Promotoras Legais Populares foi realizado no Sindicato dos Servidores Públicos de São Paulo. A partir do segundo, o IBAP passou a abrir sua então sede, na Avenida da Liberdade, para a realização das aulas. Aos sábados pela manhã, advogadas e advogados públicos participavam da formação de mulheres em cidadania, direitos humanos, acesso à Justiça e igualdade de gênero.

Mais tarde, quando Belisário dos Santos Junior, diretor do IBAP, assumiu a Secretaria da Justiça do Estado de São Paulo, os cursos passaram a ser realizados no Auditório da Cidadania Franco Montoro. O projeto cresceu, multiplicou-se, atravessou cidades e gerações. Milhares de mulheres aprenderam não apenas a conhecer os seus direitos, mas a reconhecê-los como instrumentos de transformação de suas comunidades.

E Amelinha estava lá. Estava sempre lá: ensinando, ouvindo, organizando, provocando, formando novas lideranças e lembrando que o Direito somente faz sentido quando chega às pessoas que dele mais necessitam.

Em 2014, quando as Promotoras Legais Populares comemoraram vinte anos de existência em São Paulo, Amelinha, já sócia honorária do IBAP, participou da celebração na Câmara Municipal. Naquela ocasião, ela e os subscritores desta mensagem, representando o IBAP, relembraram justamente aqueles primeiros anos, quando uma associação de advogados públicos recém-criada e um movimento feminista profundamente ligado às lutas populares decidiram trabalhar juntos.

Quatro anos depois, em setembro de 2018, esse vínculo voltou a ser celebrado de maneira especialmente emocionante. O 22º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública, realizado conjuntamente com os II Diálogos Interdisciplinares, no Auditório da Escola de Magistrados da Justiça Federal da 3ª Região, em São Paulo, foi dedicado às Promotoras Legais Populares. No encerramento, Amelinha foi homenageada ao lado de Ana Lúcia Câmara, Inês Büschel e Mônica de Melo, mulheres que participaram daquela história. Na mesma solenidade em que se celebrava a luta pela cidadania das mulheres, a conferência de encerramento coube a Dalmo de Abreu Dallari. É uma lembrança que hoje se torna ainda mais preciosa.

Mas Amelinha nunca permitiu que a memória se transformasse em simples contemplação do passado. Ela sabia, talvez melhor do que quase todos nós, que lembrar é uma forma de lutar.

Presa política em 1972, torturada nos porões da ditadura, obrigada a suportar a violência praticada também contra sua família e seus filhos pequenos, Amelinha poderia ter escolhido o silêncio. Fez exatamente o contrário. Transformou a sobrevivência em testemunho; o testemunho, em luta política; e a luta, em educação, escrita e defesa intransigente da democracia. Em ação movida pela família Teles, a Justiça brasileira reconheceria, décadas depois, Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador.

Sua militância pelos mortos e desaparecidos políticos, pelos direitos das mulheres e contra todas as formas de autoritarismo jamais se separou de uma extraordinária capacidade de falar com as novas gerações.

Talvez por isso seja tão significativo recordar um de seus encontros mais recentes com o IBAP. Em abril de 2025, o Instituto promoveu, no Canto Madalena, em São Paulo, um lançamento coletivo de livros. Entre eles estava Contos da Cela Três: memórias de uma presa política na ditadura, de Amelinha Teles. Era um livro singular. Suas histórias tinham começado a nascer mais de cinquenta anos antes, durante o período em que Amelinha estava presa. Em meio ao cárcere, à tortura e à incerteza sobre o destino dos filhos, ela imaginava histórias e personagens. Os primeiros escritos foram apreendidos e desapareceram, mas as histórias sobreviveram na memória. Décadas depois, voltaram ao papel. Há algo profundamente simbólico nisso. A ditadura podia confiscar os papéis. Não conseguiu confiscar a memória. Podia encarcerar o corpo. Não conseguiu encarcerar a imaginação. Podia tentar impor o silêncio. Amelinha passou o restante da vida falando. E formando outras mulheres para que também falassem.

Por isso, neste momento de despedida, recordamos Amelinha não apenas como uma personagem extraordinária da história política brasileira. Recorda uma companheira de caminhada, presente desde os primeiros anos de nossa existência, participante de um dos projetos de que mais nos orgulhamos e testemunha viva de uma ideia que continua orientando nossa atuação: não existe Estado Democrático de Direito sem participação popular, igualdade entre mulheres e homens, respeito aos direitos humanos e preservação da memória histórica.

À sua família, às companheiras da União de Mulheres de São Paulo, às Promotoras Legais Populares e a todas as pessoas que dividiram com ela tantas décadas de luta, em nome do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública manifestamos nosso carinho, nossa solidariedade e nosso profundo pesar.

Amelinha partiu. Ficam suas palavras. Ficam seus livros. Ficam as Promotoras Legais Populares. Ficam as milhares de mulheres que aprenderam com ela que conhecer um direito é também aprender a lutar por ele. E fica uma história que ninguém poderá apagar. Maria Amélia de Almeida Teles, Amelinha, presente!

Guilherme José Purvin de Figueiredo, Maria Amélia Teles e Marcos Ribeiro de Barros. Câmara Municipal de São Paulo, 20 de setembro de 2014
Guilherme José Purvin de Figueiredo, Maria Amélia Teles e Marcos Ribeiro de Barros. Câmara Municipal de São Paulo, 20 de setembro de 2014

 
 
 

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