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BASES PARA UM RASTREAMENTO DA GENEALOGIA IDEOLÓGICA DA RESILIÊNCIA

  • há 13 horas
  • 5 min de leitura

-Ricardo Antonio Lucas Camargo-


Todos aprendemos que o principal escopo da atividade econômica é a produção de lucros para quem a explora, e, embora tenha sido amplamente relativizada a busca do lucro, sobretudo pela ideia de “função social”, com a queda do Muro de Berlim e a aceleração dos negócios em virtude do desenvolvimento da tecnologia de comunicações, disseminou-se, a partir da década de 90 do século passado, uma cosmovisão voltada a tratar o lucro como um fim em si, legitimado pelo simples fato de existir.


A conversão do resultado contábil das empresas em fim em si, inequivocamente, tem na concepção da resiliência como um imperativo um poderoso substrato ideológico: todo aquele que empregar seus esforços em fazer com que a empresa dê lucro será um elemento valioso para a causa; nada será mais glorioso que, graças ao esforço dos trabalhadores, ver a empresa produzir resultados positivos. 


Esta concepção pode ser considerada como legitimadora do emprego da culpa como ferramenta de gestão (“você não está entregando o suficiente”) e do tratamento das limitações como algo desonroso como instrumento disciplinar (“não aguenta pressão?”). 


Pode-se dizer que a transformação do fracasso em pecado moral, preconizada por Ayn Rand quando era a musa do macartismo em Hollywood, vem a reforçar todo este aparato ideológico: longe de ser uma fatalidade, um infortúnio, o fracasso é um estigma que torna o seu sujeito digno dos mais severos juízos.

 

No exame da "resiliência" enquanto um imperativo, realmente, muito se teria a ganhar com a abordagem mais aprofundada do darwinismo social se disseminando no âmbito das relações político-econômicas, contribuindo para a erosão da própria ideia, em si, de direitos humanos, tornando os não-investidores verdadeiros optimates ciceronianos ao se colocarem como heroicos viabilizadores da produção de lucros sem incomodarem os investidores; fazem-se, inclusive, verdadeiros soldados destes contra sindicalistas e outros que porventura se coloquem como obstáculo a tudo o que reduza custos e aumente os lucros.

 

Com efeito, a visão estritamente competitiva da sociedade, em que os melhores seriam selecionados ao final da luta, incompatibiliza-se com a ideia de que mesmo os trabalhadores, enquanto pessoas, possam, eventualmente, ser titulares de direitos que imponham uma redução dos poderes de quem tem a prerrogativa de comandar a produção: a assimetria de posições e a hierarquia existentes nada mais seriam que a justa recompensa dada a quem, na luta pela vida, arduamente conquistou a vitória. 


Num certo sentido, retorna a visão de Cícero quanto a onde se localizariam, em meio à plebe, os optimatas: estariam dentre os que afirmariam as hierarquias e introjetariam a tranquilidade de seus superiores como o caminho da bem-aventurança, repeliriam qualquer consideração no sentido de que os superiores, em alguma hipótese, poderiam estar errados; uma tal cogitação seria vista, mesmo, quase como uma verdadeira blasfêmia.


Esta superfetação quase religiosa, inequivocamente, revela aspectos relacionados à própria mercantilização da dimensão espiritual do ser humano, para imprimir o caráter de “dever” à resiliência, como se verá mais adiante.


Um dos elementos mais frequentes da racionalidade neoliberal, sem sombra de dúvida, é a conversão da capacidade de suportar dificuldades e a elas adaptar-se, para a execução das tarefas em um verdadeiro dever, a “resiliência” torna-se um valor a ser realizado diuturnamente por quantos não tenham o comando da produção.

 

A conversão da "resiliência" em valor pode deitar raízes no mesmo fenômeno que veio a assegurar a substituição da reflexão filosófica pelas seduções da autoajuda e do coaching, ambos frutos de uma concepção que reduz a dimensão espiritual do ser humano a supostas estratégias de sucesso material.


O fracasso é considerado fruto do emprego equivocado das técnicas apontadas como "infalíveis", é responsabilidade do executor, jamais do defeito das “técnicas” em si mesmas ou do projeto, ou seja, sempre que houver um fracasso, ele se “fulaniza”, e o “fulano” deverá ser sancionado por sua incompetência ou seu ânimo daninho à empresa.


A filtragem ocidental das concepções religiosas da Índia, do Japão, do TIbete e outros, cuja cultura é marcadamente hierarquizada e estática, pelos mais variados fundamentos, pode ter contribuído em muito, também, para esta construção, e vale dizer que esta filtragem está bem longe de representar a valorização das espiritualidades orientais.


Falo em “filtragem” e não em “incorporação”, porque, em realidade, a noção de competição é estranha a tradições essencialmente não-individualistas, e que, nos detalhes, são adaptadas às conveniências de quem as apropria, convertidas, por isto mesmo, em verdadeiros “bens de capital”.


Caso se queira objetar com a realidade dos denominados “Tigres Asiáticos”, esta liga-se à absorção de elementos ocidentais, não integra a formação cultural originária das respectivas populações, com o que remanesce intacta a caracterização da “filtragem” e não da “absorção” dessas concepções religiosas, que passam a ser verdadeiramente instrumentalizadas no sentido de uma “fabricação” de mão-de-obra “resiliente”.


O eventual malogro de um negócio ou de um projeto será responsabilidade de quem “não soube manter as boas vibrações do ambiente”, “provocou, com seu desconforto, a desarmonia”, ou seja, a mesma estratégia de “fulanização” do fracasso, identificada em relação ao não funcionamento das “técnicas” de autoajuda e coach.


Não há investigação mais profunda das causas reais do fracasso, que pode ser alheio a qualquer fator controlável pelo responsável pela execução da tarefa, porque as investigações são lentas, não atendem às necessidades de resposta rápida que a luta no mercado exige, e pouco importa, no caso, que elas possam conduzir a uma informação mais segura e correta, se tal informação, de algum modo, reduzir o grau de aceitação da afirmação da vontade de quem decide os destinos da empresa.

 

O que interessa é que seja exemplado todo aquele que seja responsável por que os projetos não deram certo, e, quanto mais falhas o indivíduo aponte nas próprias condições para executar as decisões da empresa, mais evidente será a sua culpa pelos fracassos.


Nenhuma dessas raízes pode ser considerada suficiente, em si mesma, para explicar a utilização deste vocábulo para santificar o “conformismo”, a “adaptabilidade”, a obediência segundo uma disciplina mais rígida que a militar, monacal: entretanto, cada uma delas, e quantas vão sendo descobertas pelo caminho, vão permitindo arrefecer o caráter poderoso de aumento da sujeição que tem a conversão de uma qualidade que seria de admirar, porque não encontrável no ser humano comum em dever.



Ricardo Antonio Lucas Camargo - Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – Integrante do Centro de Pesquisa JusGov, junto à Faculdade de Direito da Universidade do Minho, Braga, Portugal – Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais – Ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (2016-2018) – Membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul - Procurador do Estado do Rio Grande do Sul - email: ricardocamargo3@hotmail.com . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7489-3054 Escreve todo dia 01.



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