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Marcas do passado

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    Revista Pub
  • há 6 horas
  • 4 min de leitura

-Bernardo Lins-

 

Vivi, com a exceção de poucos e raros episódios dolorosos, uma infância feliz, de carinho em casa, boa educação e relativa autonomia. Já mais velho tive problemas com a diferença de valores com meus pais. Minha mãe, em especial, era uma pessoa à moda antiga, conservadora e muito ligada a princípios e formalidades recebidos de uma educação católica rígida.


Imagem - Wikiwand
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Com o passar dos anos e a convivência com meus tios e tias, mais liberais e práticos, uma sensação de estranhamento me acompanhou por longo tempo, até que o acaso me deu uma pequena luz. No leito de morte de um parente mais idoso, um grande segredo de família foi revelado. Meu trisavô fora um sacerdote.


Recebi a notícia, dada com uns 150 anos de atraso, de minha tia mais velha, que aos risos contava os detalhes. O nome desse nosso prelado era Antonio Augusto de Araujo Muniz, era paulista e mencionado em alguns documentos como “membro da aristocracia do Sudeste”. Era cônego e foi secretário da cúria episcopal de São Paulo. Uniu-se a Eulália da Silva, cujos detalhes eram desconhecidos por esse meu tio-avô que falecera. Ouvi dizer mais adiante que teria origem indígena e seria da região de Sorocaba. Entre os filhos de Antônio Augusto, estava meu bisavô Paulino da Silva, que não cheguei a conhecer. Conheci sua esposa, minha bisavó Paulina, já centenária, quando tinha uns dez anos de idade.


Meu trisavô morreu em 1900 e teve vida longa. Por volta de 1857 já era sacerdote. Meu bisavô Paulino deve ter nascido por aqueles anos, pelas minhas contas. A filha mais conhecida de Antonio Augusto era Benedita, que foi casada com o poderoso senador Antônio Gomes Pinheiro Machado, do Rio Grande do Sul, assassinado no Rio de Janeiro em 1915. Tida como mulher firme e aguerrida, apresentava-se com o sobrenome do pai cônego, não o oblíquo Silva preferido pelos irmãos. Meu pai usou, por décadas, uma poltrona de escritório de Pinheiro Machado, que veio parar em casa dada por algum parente de minha mãe. Acabou doada a um museu histórico.


Achei a história muito engraçada e comentei-a com minha mãe que, abaixando os olhos, disse que já a conhecia, desde sempre. E que era a vergonha da família. E que minha tia-avó Otília, irmã de vovó, filha de Paulino, se tornara freira carmelita para expiar o pecado do meu trisavô. Fiquei surpreso. Já visitara anos antes tia Otília no convento das carmelitas no Rio de Janeiro e me impressionara com a íngreme ladeira de acesso, uma rua de pedras em que o carro derrapava ao subir. O olhar de criança guarda esses detalhes. Troquei com ela umas palavras pelas grades da clausura, saudação de uma tia com o sobrinho-neto. Era miúda, gorduchinha, com um rosto calmo e um olhar plácido.

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Compreendi, então, um pouco da postura de minha mãe, ainda que, certamente, haveria outras motivações para explica-la melhor. Ao contrário de minhas tias, ela sabia dessa espécie de pecado original e buscava compensá-lo sendo, como se diria hoje, uma pessoa carola. É um pouco espantoso. Minha mãe nasceu mais de trinta anos após a morte de meu trisavô. Que sentido haveria em levar em conta essa circunstância?


São as marcas do passado. Elas não chegam apenas pela experiência direta e individual. São trazidas pela linguagem da família, por algum relato fortuito, por um comentário indiscreto ou depreciativo, por uma revelação inesperada vinda de alguém de fora. Traumas se formam não apenas pelo sofrimento físico, mas também pelo silêncio, pelo constrangimento, pela sensação de exclusão, pelo abandono. A força da palavra dita não deve ser subestimada. A da verdade calada também não.


Isso vale para qualquer pessoa e para grupos sociais. Hoje as aflições de mamãe cheiram a naftalina, mas outras dores tomaram seu lugar. Vivemos tempos em que a palavra é usada sem meios termos, em que a dignidade das pessoas é seguidamente ferida. A indiscrição, a irresponsabilidade e a ofensa fazem parte do cardápio da maioria, em um clima de indiferença com as emoções criadas, reforçado pela distância que as redes sociais asseguram. Do colega de trabalho ao presidente dos EUA, uma manada de pessoas agressivas se deleita em pressionar, constranger, escandalizar, elevar o tom do debate até o limite do inaceitável. É a sociedade do espetáculo.


Um ditado popular diz que três coisas não voltam, a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida. Agora, todos perseguem oportunidades com afinco, marcando-se na testa com o carimbo de inovadores ou empreendedores. Mas esquecem que o preço do que se faz e do que se diz pode voltar, às vezes logo, outra vezes tempos depois, até gerações depois. Vivemos uma época sombria, em que ética, empatia e até elegância são deixadas de lado. E ficam pelo caminho as pessoas machucadas por nossos erros.



Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16 do mês na Revista PUB.



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