Dor de cabeça no Oriente Médio
- há 2 horas
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-Bernardo Lins-
Não há vida mansa sob a batuta de Donald Trump. Na véspera de Carnaval (festa para nós, os americanos não dão bola para essa alegria toda), o porta-aviões Gerald R. Ford, que hoje é o mais temido cartão-de-visitas trumpista, está deixando a Venezuela e se dirigindo ao Oriente Médio, para costear um possível ataque ao Irã. Irá juntar-se ao Abraham Lincoln, outro megabloco da marinha norte-americana. O que vai acontecer, ainda não se sabe. Será um ataque frontal às forças iranianas? Um sequestro-relâmpago de algum aiatolá? Uma cara, porém eficiente, pressão sobre o regime daquele país, obrigando-os a sentar à mesa e negociar um desarmamento?

Qualquer que seja a combinação de estratégias primárias e planos B postos na escrivaninha do presidente dos EUA, o movimento, como tudo o que Trump inicia, tem múltiplas leituras. A mais trivial é a de que, sim, a aliança com Israel tem um peso no projeto de supervisão do Oriente Médio da direita americana. O Irã tem sido um apoiador importante dos grupos rebeldes árabes e tornou-se o inimigo preferencial do momento. Desmontar a capacidade econômico-financeira e militar dos iranianos será uma prioridade.
Uma segunda leitura é conjuntural. Tanto Trump quanto Netanyahu, o premiê israelense, estão pressionados internamente em seus países e, bem, uma guerra é sempre uma saída de momento para ganhar tempo e apoio. É um movimento oportunista, mas nem sempre funciona. A ditadura argentina caiu em decorrência da derrota nas Malvinas. Maduro não deixou saudades porque, entre outras muitas razões, preparava um confronto com a Guiana que seria uma tragédia regional.
Uma terceira avaliação, porém, lança sombras escuras de longo alcance sobre nós.
Observamos, nas últimas décadas, um avanço consistente do pensamento de extrema-direita na opinião pública mundial. Um dos elementos basilares dessa visão de mundo é a relevância do capitalismo como o melhor modelo econômico possível, não havendo igual. E a mentalidade que se consolida é a de que este opera em sociedades liberais, carimbadas como possivelmente democráticas e preferencialmente cristãs, que elevam o individualismo a valor fundamental da vida humana. Nessa narrativa, outros regimes políticos ou sistemas econômicos são apontados como inferiores a priori. Trump e Netanyahu são dois entre muitos governantes que cresceram e se consolidaram com essa mensagem política. São garotos-propaganda de um pensamento conservador que presume e procura o confronto com opções alternativas, reais ou imaginadas, para reforçar o apoio de seus seguidores.
Trata-se de uma posição fortemente ideologizada, que induz a uma interpretação do mundo calcada no confronto do eu com o outro. Esse confronto pode ocorrer em todos os níveis, nos almoços de família, na coordenação de uma algazarra na faculdade, em uma campanha eleitoral, em níveis crescentes de complexidade e ordem de grandeza. No estágio final, uma guerra em grande escala, mobilizando nossos dedicados cidadãos de economias liberais e valores cristãos contra os defensores de tiranias políticas ou econômicas, de sistemas autocráticos, de sociedades repressoras, de religiões imorais, reais ou fictícias. Haverá, idealmente, mártires e carrascos de parte a parte, qualquer que seja o desenlace.
O enfrentamento entre religiões como selo do confronto militar não é novidade. Há 2.700 anos Constantino mandou adotar a cruz e o lema “sob este signo vencerás” nas insígnias do seu exército. Há mil anos, a Primeira Cruzada foi organizada contra os turcos e árabes, para alcançar o controle de Jerusalém. Há seiscentos anos, as grandes navegações se iniciaram como operações comerciais na mesma medida em que eram projetos de conversão ao cristianismo. Há quatrocentos anos a Guerra dos Trinta Anos representou um confronto entre católicos e protestantes. Na atualidade, os embates entre as grandes narrativas do cristianismo, do islamismo, do hinduísmo e de outros credos de alcance global tem servido de pano de fundo a inúmeros enfrentamentos.
Dada a diferença de poder entre as forças norte-americanas e iranianas, parece uma jogada fácil para Trump, mais uma oportunidade de sovar um adversário bem escolhido e obriga-lo a lamber a lona, ganhando pontos preciosos no apoio interno que lentamente se esfarela. Essa movimentação é conduzida sob a justificativa econômica da saúde comercial dos EUA e o manto ideológico do individualismo, da livre iniciativa e da qualidade superior das coortes WASP. Estão aí os elementos de algumas das possíveis leituras desse esforço de guerra.
Lembremos de O Choque de Civilizações, obra controvertida do historiador Samuel Huntington, que está fazendo trinta anos da sua publicação. Caminhamos a passos largos para um mundo em que o confronto de valores culturais explicará e justificará os atos de poder muito mais do que economia, política ou moral. Essa transição parece explicar o método na atuação de Donald Trump. Vemos em suas decisões a percepção deformada (e declarada) de que a cultura do Ocidente é a correta, o eurocentrismo cristão é seu fundamento, a trajetória vitoriosa do capitalismo é a demonstração da sua eficácia. Seu mais recente movimento lança à crise vivida pelo Irã um olhar marcado pela soberba e pelo desprezo.
Há, porém, um alerta: na Venezuela, com uma sociedade rasgada por inúmeras clivagens e com um regime frágil, o teatro funcionou, viabilizando um ajuste light que favorece os interesses da turma trumpista. No Irã as coisas podem tomar outro rumo. É esse o temor que traz um frio na espinha.
Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16 do mês na Revista PUB.










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