NINGUÉM FC OU A POLÊMICA VAZIA

-RUI VIANNA-


Vou abordar aqui um assunto que não costuma frequentar as páginas da Revista Pub, esportes. Mas apenas de forma incidental. Como ficará claro, o assunto de fundo é mídia e notícias, assim como a disputa de espaço e narrativas.


Na semana passada, deu-se grande destaque a um texto do jornalista esportivo Juca Kfouri, após o jogo Fluminense 0 x Santos 0. O título do referido artigo, provocativo, chamativo, é o mesmo emprestado a este texto, Ninguém FC.

Juca usou a expressão para referir-se ao pífio futebol apresentado pelo Santos FC, que, segundo ele, nada apresentou durante todo o segundo tempo do jogo, não dando sequer um único chute no gol de Fábio, goleiro do Fluminense. Não está longe, de forma alguma, da verdade. Reconhecidamente, o Santos vem apresentando resultados pífios, pelos mais variados e desafortunados motivos.


Ocorre que a ironia apresentada pelo jornalista despertou a fúria da torcida santista, e não só dela. Vários clubes, atletas e personalidades diversas, apresentaram sua solidariedade e indignação ao clube, que, como sabido, carrega uma história de glórias e grandes realizações, além de ter contado, ao longo de seus 110 anos de existência, com vários jogadores mundialmente famosos.


Tudo isso para dizer que, independente da opinião expressa por Juca Kfouri, se correta ou ainda justa, causar realmente uma ofensa e um agravo à Instituição Santos Futebol Clube ou não, se se trata apenas de mais um artigo entre os incontáveis textos da crônica esportiva, reconhecida não pelo seu apuro de estilo ou linguagem, sendo mesmo considerada por um grande número de pessoas como um estilo menor e desinteressante do jornalismo.


O ponto crucial nessa polêmica, pelo menos no meu ponto de vista, é a já conhecida fúria desencadeada pelos tribunais da internet. Muito já se falou, logo após a publicação do referido texto, de cancelamento do jornalista, de boicote ao portal de notícias UOL, que abriga os textos dele, de formas variadas de represália, por parte da torcida santista, ao jornalista e ao próprio portal.

Aqui a questão se conecta com a atualíssima discussão do “cancelamento”, essa entidade quimérica que faz com que carreiras se evaporem, fortunas se dissipem, ativos eleitorais, políticos, artísticos, sociais, se transformem em pó de um momento para o outro. Tudo isso pouco importando os motivos que deram origem à sanha canceladora, ao acender das fogueiras inquisitoriais e brutais, que decretam o fim da existência cibernética desta ou daquela celebridade.


Ilustração - Ibraim Rocha

O caso em questão trouxe, de pronto, consequências imediatas, de ordem econômica e profissional. Em partida realizada na quarta feira passada, dia 13/04/2022, válida pela Copa Sul-americana de futebol, entre Santos e Universidad Católica do Equador, o presidente do Santos, Andrés Rueda, exigiu que o portal UOL se manifestasse acerca do texto de Juca Kfouri, se concordava ou não com a forma que o Santos havia sido tratado. Sem qualquer manifestação do portal, a atitude do presidente foi de negar credenciamento a todo e qualquer jornalista do UOL para realizar a cobertura da partida, vedando o acesso dos profissionais às dependências da Vila Belmiro.


Houve quem bradasse tratar-se de censura à imprensa. Houve quem acusasse estar se praticando uma violência contra a liberdade de imprensa. E ainda aqueles que concordaram que o Santos, enquanto instituição, diminuído e agredido em sua honra e história secular, não teria obrigação alguma de franquear sua instalações a meio de comunicação que o menospreza.


Tudo isso demonstra que há muito mais por acontecer, que o desdobramento dos fatos, que tanto interesse e acessos (aqui a real importância de tanto dispêndio inútil de energia) têm gerado, trazendo audiência, cliques e monetização garantida em redes sociais, determina de forma assombrosamente desmedida, a extensão e alongamento de algo prosaicamente desimportante.


Sim, pois o que realmente importa não é, e nunca foi, a interpretação e a eventual correta leitura do texto em questão, nem o possível e/ou provável agravo cometido diante da instituição do clube de futebol. Trata-se, como não poderia deixar de ser, de business, espaço de audiência transformado em dinheiro e contratos, aplicado a assunto que se tratado de forma séria e objetiva, não deveria despertar nada mais do que um muxoxo.


Ou seria outro o motivo porque Allan dos Santos, o popular Gengiva, apresentador do blog Terça Livre, hoje fugitivo da Justiça brasileira, escondido nos Estados Unidos, insiste em manter no ar o seu espaço, já reiteradamente excluído pelas plataformas YouTube, Tweeter e Whatsap?


Ou ainda o caso do vereador e ex-PM pelo Rio de Janeiro, Gabriel Monteiro, envolvido em vários escândalos de vídeos forjados, abuso sexual e corrupção de menores, e ainda várias outras acusações, e, por isso mesmo, aumenta seu público nas redes sociais, como relatado pelo portal R7 (aqui)? É ou não é business, visibilidade?


Sim, vivemos tempos desconcertantemente estranhos, sem dúvida.


 

RUI VIANNA é advogado aposentado e associado do IBAP, além de torcedor do Santos FC.



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