Quem avisa amigo é: recados das pesquisas de opinião
- há 10 horas
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-BERNARDO LINS-
A maior parte das pessoas acompanha as análises sobre pesquisas de opinião, essas que estão saindo do forno com regularidade, de um jeito meio desconfiado. Há motivos para isso: a seis meses da eleição, ainda vai correr muita água sob a ponte. Da declaração de um pré-candidato até o momento do voto, ainda há muita estrada. Indicações, convenções dos partidos, comícios, discursos, carreatas, palanques, debates, trocas de desaforos na imprensa, avaliações dos governos, denúncias, esse caldeirão vai ferver e filtrar os nomes que serão de fato viáveis. O retrato de hoje será, na lembrança de todos nós, uma caricatura esmaecida por seis meses de agitação política.

Essas pesquisas, portanto, não cristalizam a decisão do eleitor, ele irá provavelmente mudar de ideia algumas vezes até outubro. Vai discutir com amigos, brigar com os pais, se estapear na torcida, ter ataques de raiva e cuspir na tela da tevê, mas a chance de olhar tudo e pensar, talvez eu esteja errado, está ali esperando do outro lado da porta do quarto.
Os avisos aos candidatos, porém, são bastante claros e a pesquisa Genial Investimentos/Quaest veiculada no dia 15 de abril repete e acentua os alertas. Principalmente, é óbvio, as vicissitudes de momento, mas também algumas incertezas que estão sendo carinhosamente ninadas há mais tempo e poderão crescer. Escolhi regularidades que vêm sendo repetidas nas análises e merecem ser lembradas.
A primeira é a de que ninguém morre de véspera. Errou o lulismo ao achar que Flávio Bolsonaro seria um adversário fácil, uma espécie de cachorro vira-lata, aquele sujeito que você deixa passear solto e na hora agá desmonta diante do eleitor ou cristianiza. Por enquanto, Bolso júnior melhora devagarzinho sua aceitação pelo público e pela elite. Começa a incomodar. Nessa última pesquisa passou Lula pela primeira vez em uma das opções oferecidas aos pesquisados, a de intenção de voto no segundo turno para Presidente, cenário 1: Flavio Bolsonaro 42, Lula 40.
Será verdade? Provavelmente sim. Esse comportamento é parecido com o retrato geral que estamos vendo em outros levantamentos. E há motivos para isso. Os bolsonaristas estão se mexendo do jeito deles, sem sair da poltrona, nas redes. E a imprensa está fazendo uma força danada para passar um desodorante no senador. Um editorial do Estadão de uns dias atrás asseverava que o crescimento do PL na janela partidária “provou” que os bolsonaristas já não dependem do patriarca Bolsonaro para fazer um gol de placa nas eleições. Ao contrário, o filho seria uma nova liderança que teria vida própria. Será bonzinho. Essa ficção alivia moralmente as elites. Estariam votando em ideias, não em familiares. Esperem só.
Quando olhamos as tendências desagregadas por grupos, não há surpresas. Evangélicos votam mais em Bolsonaro, classe média também, ricos também. Essa tendência se repete se o candidato da direita no segundo turno mudar, mas a votação dos demais indicados seria um pouco menor do que a do senador. É o peso do sobrenome e a força das redes sustentadas pelos amigos.
Outra regularidade é a de que os jovens de 16 a 35 anos viraram à direita e há um empate nas intenções de voto desse grupo no primeiro turno. Já entre os idosos, Lula ainda ganha com uma margem. Aparentemente, o eleitorado de Lula envelheceu. O lastro que vinha daqueles que recém enfrentavam sua primeira experiência de voto está mudando de lado. Os esforços do governo para atrair essa fatia dos eleitores têm se mostrado estéreis.
Quando eu tinha vinte anos e estava no meu primeiro emprego, seriam estéreis para mim também. Não queria saber de aposentadoria, passeios e folga. Trabalhava 6 x 1 ou mais, para aprender, produzir e fazer um nome no mercado. Estudava em paralelo. Iria começar a pensar em dinheiro e estabilidade só quinze anos mais tarde, com dois filhos, durante o aperto dos anos Collor. Até pendurar as chuteiras foram mais trinta anos em que fui profissionalmente muito feliz e satisfeito. Hoje tenho a certeza de que não foi apenas meu esforço que me alavancou, foi meu país. Políticas públicas de educação, saúde e regulação de mercados me conduziram sem que eu percebesse. No “cada um por si”, o caminho seria mais espinhoso e eu talvez não chegasse lá.
Mas eu já era de esquerda, era sindicalizado, entendia o valor do trabalho compartilhado e dos ganhos coletivos. Os meninos de hoje acreditam em si, no empreendedorismo, nas plataformas, em contratos enxutos, em horários flexíveis, em liberdade de escolha e decisão, em IA. O oposto da Vovolândia. A concepção de mundo vencedora, ensina Gramsci, é inculcada pelo ensino, pela igreja e pela linguagem compartilhada. A direita ocupou esses canais com firmeza. Se o governo não entender isso e colocar velhinhos para dialogar com a rapaziada, será um comício meia-boca.
Uma regularidade, enfim, que se repete, é a radicalização do debate. Lulista acredita em Lula, bolsonarista em Bolso. O centro é um espaço vazio. Será uma campanha de pancada e clinch. Quem entrar para discutir propostas irá à lona. Sem novidades, portanto, para os desafiantes da direita.
Eleição é um jogo longo, complexo e as estratégias vão se ajustando dia a dia. Esse rascunho que emerge das pesquisas é um guia a ser observado e lido com cautela pelos coordenadores de cada candidato. Quando fracionamos o eleitorado em grupos, o número de entrevistados de cada conjuntinho é pequeno e a incerteza do resultado aumenta. Só não vale o autoengano. É preciso compreender com humildade o caminho viável a trilhar. Nem sempre para vencer ou nada. Como me ensinou um experiente político, no longo prazo o importante para o candidato é sair de cada campanha maior do que entrou.
Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16.




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