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O recurso a Maquiavel

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

-BERNARDO LINS-



A lua-de-mel entre o filho de Bolsonaro e seus apoiadores enfrenta, desde uns poucos dias atrás, um impasse. O rumo ascendente da sua pré-campanha sofreu um baque e a culpa é dele, apenas dele. Estamos todos olhando de camarote a evolução do episódio, mas o epílogo é previsível. Se ficar na disputa, tem tudo para ser um candidato fraquinho, fraquinho.


Há um esforço enorme para salvar a candidatura de Bolsonaro Junior. Não me refiro às declarações desastrosas e cheias de explicações contraditórias da família e de seus agregados. Refiro-me aos posts que trafegam na rede, com três argumentos principais. O primeiro, de que é tudo uma construção do governo para desqualificar a candidatura em seu nascedouro e as explicações dadas esclarecem o episódio. O segundo, de que os acusadores estão mais envolvidos no caso Master do que o próprio senador e estão desviando o foco. O terceiro, de que se trata de um projeto privado, voltado a homenagear a maravilhosa trajetória do capo, e não há explicações a dar porque não há dinheiro público envolvido. Tudo isso fisgado de trechos de fala do próprio Flavio Bolsonaro em entrevista dada no dia 14 de maio.


São explicações que mascaram a questão central de que esse dinheiro foi oferecido por Vorcaro e operado a partir de fundos associados à imensa fraude revelada no caso Master. É dinheiro garfado de milhares de pessoas, diretamente ou por desvios. Dinheiro sujo. A conversa da produção de um filme pode ser real, ou talvez apenas um subterfúgio para a captação desses recursos e seu uso no exterior para instrumentalizar a campanha à margem da lei ou para dar uma vida boa à família. Em um grau mais reflexivo, porém, alguns comentários abordam a questão com outro enfoque, o da desagregação moral da política e da captura dos agentes políticos por esse esquema. Lembrando Maquiavel, a virtude política consiste na habilidade de chegar ao poder, sustentar o poder e exercer o poder. E todos estão usando dela sem freios, argumenta-se, ainda mais diante de uma graninha que parecia estar bem ali, bem à mão.


Há um motivo para se recorrer a Maquiavel nas horas difíceis. O Príncipe tornou-se uma referência constante para todos aqueles que queiram dar uma opinião sobre política, mesmo que não sejam versados no tema, mesmo que não sejam scholars, mesmo que estejam apenas tentando convencer um primo ou o vizinho acerca da correção de suas crenças. Mesmo até que não saibam quem é Maquiavel e jamais tenham lido qualquer de seus escritos.


É que há argumentos e informações que se espalham entre as pessoas pela fala, pela escolha das palavras, pelo significado que vai sendo grudado a cada termo. A linguagem comum, da rua, da novela de tevê, da rede social, é um poderoso transmissor de conceitos e valores. E, nesse momento de fratura do jogo político da elite, o apelo à visão pragmática do poder, já enraizada na população, traz uma justificativa e um alento a quem está na berlinda. Somos todos vagabundos, somos todos cínicos, o nome do jogo é chegar ao poder a qualquer preço e fazer o que for possível para estender a permanência no cargo. Sou só eu? E os outros?


A análise política do grande pensador italiano destaca precisamente esse necessário pragmatismo do príncipe. E vem sendo usada para lamentar que todos sejam iguais, que todos estejam envolvidos em tramoias e que isso seja em certa medida inevitável. Mais do que defender o pré-candidato que foi pego com a cueca na mão, essa construção é chamada para justificar a posição da elite que o sustenta. O sujeito errou por conta própria, mas eu, que estava alavancando sua campanha, continuo no lado certo. Agora é limpar o nome dele ou arrumar um regra-três.


Só que não, esse é um discurso raso e amoral. Política não é só isso. O príncipe, lembra-nos Maquiavel, deve evitar as situações que o levem a ser odiado e desprezado. Deve respeitar os bens e as famílias dos cidadãos. Deve manter uma política externa resiliente, graças a alianças perspicazes e à projeção de poder. Deve, ainda, se apresentar com grandeza, coragem e fortaleza. Sua decisão deve ser pensada, medida e irrevogável. O que torna o príncipe desprezado é ser volúvel, leviano ou pusilânime. Posto em termos atuais, o Estado protege o governante sempre que ele conduza políticas públicas justas e previsíveis. Que negocie com firmeza. Que honre a palavra dada. Que exerça uma gestão cordata. Que procure controlar e coibir sem dó as ambições daqueles que conspiram contra seu governo. É uma tarefa árdua, imensamente complexa, que exige técnica e ética na mesma medida em que demanda coragem e frieza. O livro de Maquiavel não é uma análise abstrata de uma esbórnia, é um curso de prática política para o governante sério.


A crueza do príncipe para chegar ao poder e para mantê-lo não é, portanto, o esgotamento do tema. O poder faz sentido para quem seja capaz de exercê-lo em nome de ideais que sejam consistentes com a preservação do Estado e da riqueza da população. É um passo inevitável para que melhores condições sociais sejam vislumbradas. A moral é compreendida e exercida no contexto da sociedade, com sua cultura e seus desafios. Se não pudermos promover essa projeção posterior do poder fazer, a política será, de fato, um mero jogo estéril de interesses escusos. Mas não é a isso que Maquiavel se referia.


Voltando ao momento, o pré-candidato está com o mico na mão. Não foi ali posto por um adversário ou por um árbitro. Foi o resultado do destino, do azar, que tornou visível e constrangedor algo que se desejava permanentemente oculto. Algo que decorreu de uma decisão pessoal dele e que pode elimina-lo da disputa.


Mas que não compromete o jogo da elite. Este continuará vivo, se desenrolando, demonstrando, dia após dia, a indiferença com o povo e o interesse autocentrado em seus ganhos particulares.



Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16.



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