A solidariedade que enfraquece
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-Guilherme José Purvin de Figueiredo-

Na quarta-feira, 15 de abril de 2026, o Diretório Central dos Estudantes da USP aprovou a adesão à greve iniciada na véspera pelos servidores técnico-administrativos da universidade. O movimento dos funcionários nasceu de uma injustiça precisa: a criação, pelo reitor Aluisio Segurado, de uma gratificação mensal de até R$ 4.500 destinada exclusivamente aos docentes, sob o argumento de retenção de talentos. Para os cerca de 12.600 servidores técnico-administrativos, nada. Ao entrar em greve, os estudantes trouxeram pautas próprias — condições sanitárias dos restaurantes universitários, o Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), acesso para populações indígenas e trans. A coincidência de movimentos, porém, levanta uma questão que merece exame: a sobreposição de paralisações fortalece ou enfraquece a causa dos funcionários?
A greve dos funcionários é legítima. Eles foram tratados de forma desigual dentro da própria instituição que sustentam, e a injustiça é precisa, datada, verificável.
Os estudantes, por sua vez, têm razões próprias para se mobilizar — e estão fazendo isso. O PAPFE, as condições sanitárias dos bandejões, a qualidade da alimentação: são reivindicações concretas, documentadas, que dizem respeito diretamente à vida de quem estuda na universidade. A essas, permitimo-nos sugerir outras, igualmente merecedoras de atenção: professores que adaptam o conteúdo das disciplinas aos seus próprios interesses de pesquisa, em detrimento da formação do graduando; absenteísmo docente; falta de clareza nos programas didáticos; bibliotecas desatualizadas; segurança nos campi; acessibilidade arquitetônica efetiva. O movimento estudantil tem matéria farta para uma pauta ampla e autônoma.
O problema é tático, não de intenções: a sobreposição de paralisações neutraliza o principal instrumento de pressão dos funcionários.
A força de uma greve de servidores administrativos reside na interrupção dos serviços que sustentam a operação cotidiana da universidade: lançamento de notas, transferências, emissão de documentos, atendimentos, manutenção dos sistemas. Esses serviços exercem pressão sobre a administração quando são demandados — quando há professores em sala, estudantes com prazos, processos acadêmicos em curso. Esse é o ambiente em que a ausência dos funcionários se torna perceptível e, a partir de certo ponto, insuportável. A administração, nesse cenário, é compelida a negociar.
Quando a universidade para por inteiro, esse mecanismo se desfaz. Sem aulas, as notas não precisam ser lançadas. Sem alunos nos corredores, os guichês permanecem vazios por razão diversa. A greve dos funcionários perde visibilidade: o que poderia ser uma crise localizada e identificável torna-se uma paralisação difusa, em que todas as categorias param ao mesmo tempo e nenhuma é reconhecida pela especificidade de sua contribuição. A reitoria ganha tempo.
Seria mais eficaz para os funcionários que a universidade permanecesse em funcionamento ao redor de sua greve — com professores em sala e estudantes exigindo os serviços que não chegam. A ausência dos funcionários, sentida no cotidiano acadêmico, produziria uma pressão que a administração dificilmente poderia ignorar.
Greves vencem quando tornam insustentável a ausência de quem trabalha. Para isso, é preciso que haja, ao redor, uma universidade que sinta essa ausência. Quando ela para por inteiro, ninguém sente a falta de quem a faz funcionar.
Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Membro do IBAP.




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