A solidariedade que enfraquece
- 17 de abr.
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Atualizado: 18 de abr.
-Guilherme José Purvin de Figueiredo-

Na quarta-feira, 15 de abril de 2026, o Diretório Central dos Estudantes da USP aprovou a adesão à greve iniciada na véspera pelos servidores técnico-administrativos da universidade. O movimento dos funcionários nasceu de uma injustiça precisa: a criação, pelo reitor Aluisio Segurado, de uma gratificação mensal de até R$ 4.500 destinada exclusivamente aos docentes, sob o argumento de retenção de talentos. Para os cerca de 12.600 servidores técnico-administrativos, nada. Ao entrar em greve, os estudantes trouxeram pautas próprias — condições sanitárias dos restaurantes universitários, o Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), acesso para populações indígenas e trans. A coincidência de movimentos, porém, levanta uma questão que merece exame: a sobreposição de paralisações fortalece ou enfraquece a causa dos funcionários?
Para os fins deste artigo, tomamos como ponto de partida a insatisfação dos funcionários com a gratificação transitória concedida exclusivamente aos docentes — medida que, independentemente do histórico salarial de cada categoria, foi por eles percebida como tratamento desigual dentro de uma mesma instituição.
Os estudantes, por sua vez, têm razões próprias para se mobilizar — e estão fazendo isso. O PAPFE, a qualidade da alimentação: são reivindicações concretas, que dizem respeito diretamente à vida de quem estuda na universidade. O movimento estudantil tem matéria farta para uma pauta ampla e autônoma.
O problema é tático, não de intenções: a sobreposição de paralisações neutraliza o principal instrumento de pressão dos funcionários.
A força de uma greve de servidores administrativos reside na interrupção dos serviços que sustentam a operação cotidiana da universidade: lançamento de notas, transferências, emissão de documentos, atendimentos, manutenção dos sistemas. Esses serviços exercem pressão sobre a administração quando são demandados — quando há professores em sala, estudantes com prazos, processos acadêmicos em curso. Esse é o ambiente em que a ausência dos funcionários se torna perceptível e, a partir de certo ponto, insuportável. A administração, nesse cenário, é compelida a negociar.
Quando a universidade para por inteiro, esse mecanismo se desfaz. Sem aulas, as notas não precisam ser lançadas. Sem alunos nos corredores, os guichês permanecem vazios por razão diversa. A greve dos funcionários perde visibilidade: o que poderia ser uma crise localizada e identificável torna-se uma paralisação difusa, em que todas as categorias param ao mesmo tempo e nenhuma é reconhecida pela especificidade de sua contribuição. A reitoria ganha tempo.
Seria mais eficaz para os funcionários que a universidade permanecesse em funcionamento ao redor de sua greve — com professores em sala e estudantes exigindo os serviços que não chegam. A ausência dos funcionários, sentida no cotidiano acadêmico, produziria uma pressão que a administração dificilmente poderia ignorar.
Greves vencem quando tornam insustentável a ausência de quem trabalha. Para isso, é preciso que haja, ao redor, uma universidade que sinta essa ausência. Quando ela para por inteiro, ninguém sente a falta de quem a faz funcionar.
PS: Uma nota de cautela. No meio docente, a leitura sobre a gratificação é distinta: o bônus tem caráter transitório e objetivo declarado específico — reter professores recentemente contratados diante da concorrência de outras instituições e do setor privado. Há, além disso, um dado que complica qualquer juízo sobre injustiça histórica. O comparativo entre vantagens médias de 2005 a 2025 revela ganho real de 113,35% para os servidores técnico-administrativos e de apenas 33,36% para os docentes. Lido à luz desse histórico, o episódio atual assume contornos menos nítidos do que a narrativa da greve sugere. Confira-se a tabela em anexo, elaborada pelo CODAGE.
Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Membro do IBAP.




Concordo com a crítica quanto à tática grevista. Seria o momento de apoiar os funcionários! Mas faço duas ponderações: 1) comparar ganhos entre funcionários e docentes com base em percentuais não leva em conta o ganho real dos reajustes; quanto é 5% de 1000 reais e quanto é 5% de 10000 reais? Docentes ganham substancialmente mais que funcionários e seria natural e justo que o percentual de reajuste dos funcionários fosse maior. 2) Guilherme não menciona um fator relevante: o fato de que a USP vem já há muitos anos desrespeitando a isonomia das 3 Universidades Estaduais, “dando uma banana” às condições da Unesp e da Unicamp! Uma postura arrogante e de clara tendência direitista, e esta medida mais que…