PANELAÇO A FAVOR?

- Guilherme Purvin -


Na noite de ontem, 18 de março, o Brasil viveu uma nova página de seu insano surrealismo político. Indignados com a forma como o Presidente Jair Bolsonaro vem tratando a pandemia COVID-19, os brasileiros começaram a se utilizar de uma forma de protesto que, aparentemente, havia sido encampada por quem não suportava mais a fraqueza do Governo Dilma e que acreditava nas intenções moralizantes da Lava-Jato: bater panelas e usar camisa amarela da Seleção Brasileira.


Bater panelas é uma expressão metonímica: bate-se uma panela porque ela está vazia. E panela vazia é fome e falta de dinheiro. No Brasil, bater panelas e vestir-se de canarinho tornou-se algo popular quando da campanha pelo impeachment de Fernando Collor de Melo, o primeiro presidente democraticamente eleito desde Jânio/João Goulart. Aquele momento histórico (diga-se de passagem fortemente impulsionado pela Rede Globo) acabou sendo imortalizado em samba de Chico Buarque:


Oito horas e danço de blusa amarela

Minha cabeça talvez faça as pazes assim

Quando ouvi a cidade de noite batendo panelas

Pensei que era ela voltando prá...

Minha cabeça de noite batendo panelas

Provavelmente não deixa a cidade dormir

Quando vi um bocado de gente descendo as favelas

Achei que era o povo que vinha pedir

A cabeça do homem que olhava as favelas

Minha cabeça rolando no maracanã


Panelaço é, obviamente, protesto. É vaia. É manifestação sonora de inconformismo. É o extremo oposto de aplauso. É assim que funciona: quando o nosso time joga bem, comemoramos com gritos de alegria, vivas e hurras, soltamos rojões.


Todavia, num país politicamente analfabeto, as manifestações de protesto acabam sendo confundidas com gritos de torcida. Desesperado com a vertiginosa queda de popularidade em seu desgoverno caracterizado pelo ecocídio e pelo completo descaso para com a saúde pública e a harmonia dos poderes, o presidente da República conclamou a sua cada vez mais ínfima legião de seguidores, hoje formada basicamente por pessoas pouco afeiçoadas à democracia, a bater panelas logo após a manifestação de protesto ao seu governo.


Panelaço, repito, é inequívoco protesto. Panelaço a favor é um oxímoro, é uma contradição, é um paradoxo. Se quisesse manifestações a seu favor, deveria o Capitão Jair Bolsonaro propor que seus seguidores cantassem, saíssem alegremente às ruas em festa de confraternização, já que conseguiram elege-lo chefe de Estado e chefe de Governo.


Mas, claro, pensar em manifestação através de cantos, alegria e confraternização seria pensar que estamos diante de pessoas capazes de ter sentimentos de empatia, júbilo e amor. E a meia dúzia que bateu panela a mando do capitão não tem a menor ideia do que são esses estados de espírito.



Guilherme Purvin é advogado e escritor, autor de "Laboratório de Manipulação" e "Sambas & Polonaises" (contos). Graduado em Direito e em Letras pela USP. É procurador do Estado de S.Paulo Aposentado.



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