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Um instante de eternidade

Atualizado: 5 de dez. de 2023



Foto - acervo pessoal da autora - Pedro

À minha frente, textos soltos, diversos, letras pequenas sumiam no alto da tela do meu computador e, por vezes, caiam em novas frases, disfarçando novos sentidos. Palavras e palavras, frases curtas, interrompidas por outras, desconexas. De repente meus olhos se deparam com um pensamento alheio, param e dão-se ao devaneio. A frase era a do carioca J. Carino nos versos de nome Ausência: "A concretude do não ver e do não tocar". Meus pensamentos, rapidamente, recorrem a imagens que vêm pouco delineadas, delicadas silhuetas prontas para desmancharem-se no ar.


Recordo.


Arte - Ana Claudia

São lembranças de mim, das noites, quando me deito ao som do nada, a luz apagada, meus pensamentos voam longe, bem longe, sempre perto do meu menino que se foi. Lembro de quando era criança, de como pescava, como desenhava... lembro de seis meses atrás, ele dançando delicado na sala, com passos vaidosos e riso maroto... seu filho a olhar de um lado, sua mãe a olhar de outro, todos sorrindo leve ao som de uma canção branda... como num ritual respeitoso, então quero abraçá-lo, quero beijar aquela face risonha e vejo que não estou sonhando, e nem acordada estou, estou com ele mas não posso vê-lo mais, não posso tocá-lo... que sentido faz tudo isso?


E a bolha minimalista se eleva, não posso relar, com medo de que se dilua rapidamente — é preciso manter o momento vivo o quanto mais para a sua eternização —, e meu filho, no balanço do corpo, no balanço da música, faz ninar a alma que mora em mim. E a bolha em sonho voa. Voa e, pluf, sem susto se esvai. Meu ser se deita inteiro no quentinho da saudade e volto a ler o autor carioca: “A corporificação da ausência no monólogo involuntário respondido por silêncios”.


Serão meus os versos do professor?


(Artigo escrito cerca de um ano após o falecimento de Pedro, o filho)


 

Ana Cláudia Leite Dantas Ferreira é poeta, professora, desenhista e escritora. Aprendeu com os passarinhos a amar o cheiro do orvalho na grama de manhãzinha e, com os gatos, as delícias da brincadeira despreocupada. Fã incondicional de Quintana, passarinha pela vida, porque não está aqui de passagem.

113 visualizações5 comentários

5 Comments


Madeleine Hutyra
Madeleine Hutyra
Jun 25, 2019

A memória do sentimento e o reviver da presença refletidos lindamente nesta declaração de amor e de saudade ! Parabéns !

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adantasf
adantasf
Jun 20, 2019

Uma honra um elogio seu Guilherme.

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Guilherme José Purvin de Figueiredo
Guilherme José Purvin de Figueiredo
Jun 20, 2019

Dolorosamente poético. Não sei nem o que falar.

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adantasf
adantasf
Jun 19, 2019

Que bonito seu comentário, Elizabeth Harkot, obrigada.

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Elizabeth Harkot De LaTaille
Elizabeth Harkot De LaTaille
Jun 19, 2019

A arte de transformar profunda dor em beleza. Parabéns! Lindo e comovente!

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