Traços de esperança
- há 2 dias
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-Bernardo Lins-
Como não falar de futebol? A seleção brasileira encerrou mais uma participação melancólica em uma Copa do Mundo. Fomos eliminados sem direito a dúvidas pela mediana seleção da Noruega, encerrando um período de quatro anos de tropeços. Não é a primeira fase de entressafra que o escrete atravessa. Aliás, adoro a palavra escrete, bem antiga, saudosista, uma lembrança de um tempo em que o Brasil era o time a ser vencido.
Somos o único país a ter participado de todas as copas e o pentacampeonato é a marca dessa regularidade. Nossa primeira geração vitoriosa foi a dos anos sessenta. Trouxe-nos a taça Jules Rimet, da qual existem réplicas nos museus da CBF e da FIFA. A original, em ouro, foi roubada no Rio de Janeiro e provavelmente derretida. Aliás, se você, caro leitor, quiser a sua réplica, pode comprá-la na loja da FIFA por 185 dólares.

Logo após o bicampeonato de 1962, tive o privilégio de conhecer alguns dos craques dessa época, aos seis anos de idade. Morávamos em Quito, no Equador, e o time do Botafogo passou pela cidade, naquelas excursões caça-níqueis de pré-temporada. Jogou uma partida com a seleção equatoriana e ganhou por meia dúzia de gols de diferença. Meus pais, em falta de programação melhor na cidade, ofereceram um brunch em nossa casa, para reunir os jogadores e a comissão técnica do Botafogo com as autoridades locais. Tive direito a fotos com vários jogadores e, previsivelmente, tornei-me um botafoguense doente.
Cinco anos antes, ao vencer a primeira copa, na Suécia, a seleção apresentara ao mundo o 4-3-3. Zagalo, ponta-esquerda que iria para o Botafogo logo após a copa, jogava recuado, compondo com Zito e Didi um meio-de-campo mais compacto. A linha de ataque era formada por Pelé, Vavá e Garrincha. Jogadores fantásticos, mas uma forma de jogar inovadora, que alternava o 4-3-3 ao conter o adversário com o 4-2-4 ao atacar. E que sabia improvisar, trazendo os laterais para apoiar o ataque.
Um estilo de jogo que marcou nosso futebol por décadas. Do mesmo modo que Zito, o cabeça-de-área (ou primeiro volante) que recuava do meio-de-campo e compunha o centro da zaga na defesa, Andrade no Flamengo, Zanata no Vasco, Batista e Dunga no Internacional, Rocha no Botafogo, César Sampaio no Palmeiras, nos anos oitenta e noventa, se notabilizaram como suportes dos seus times. Não é nada tão diferente da linha de cinco armada pelas defesas atuais. E do mesmo modo que Nilton Santos na seleção de 58, tivemos entre nossas lendas do futebol grandes laterais que gostavam de apoiar o ataque e procurar o gol, como Marinho do Botafogo, Leandro e Junior do Flamengo, Orlando do Vasco, Roberto Carlos do Palmeiras, Branco do Fluminense, Cafu do São Paulo.
O estilo de jogo brasileiro evoluiu ao longo dos anos, ganhando velocidade e compacidade. Tivemos boas contribuições de técnicos que modernizaram nossa organização tática, como Cláudio Coutinho, que aperfeiçoou a concepção de jogadas ensaiadas, Telê Santana, que valorizou a integração do time e o padrão técnico dos jogadores, ou Vanderlei Luxemburgo, que popularizou o 4-4-2, uma organização com mais volume de jogo no meio-de-campo. Isso não assegura vitórias. Ao final da Copa de 1986, após o Brasil ser eliminado pela França, o grande ídolo Zico lamentou: “não fomos uma geração vencedora”. Caberia à geração seguinte trazer duas taças para casa.
Cada torcedor tem sua interpretação a respeito do fracasso da seleção em 2026. Não foi uma vergonha, como a derrota de 7 a 1 em casa, há alguns anos. As eliminações em torneios são sempre episódicas e dependem de inúmeros fatores, vários deles conjunturais. Os jogadores se desgastam ao longo da competição, machucam-se nos jogos, a união emocional é importante por ser o futebol um jogo coletivo, o formato do torneio é relevante, prejudicando alguns times com deslocamentos para locais afastados da sua base, há equipes que enfrentam adversários menos competitivos e outras que quebram pedra para avançar na competição, uma infecção inesperada pode afetar o desempenho de vários jogadores de uma vez, os detalhes táticos são melhor resolvidos por um dos técnicos, uma jogada de sorte pode mudar a história da partida, até uma diferença de ímpeto entre os times pode ser determinante.
O que me desagradou não foi a seleção, foi a copa. Times demais, jogos demais, regras demais. Até o álbum de figurinhas da copa ficou grande demais e caro demais para completar. Foi uma copa para gente rica. Os calendários do futebol são extenuantes e quase todas as seleções foram convocadas de última hora e treinadas durante a competição. Antes mesmo do início dos jogos, 22 jogadores já haviam sido dispensados por lesão. Também desgostei do VAR. No futebol americano e no vôlei, em que cada jogada tem começo, meio e fim, dá para reclamar do ponto e rever uma falta. No futebol, um jogo contínuo, anular um gol devido a uma falta anterior, depois do time correr 60 metros, finalizar e comemorar, é um ato de covardia da arbitragem. Sou da época em que juiz matava no peito e assumia o ônus de apitar. Olho na bola, olho no olho. Fazia parte do jogo.
Quanto à próxima geração, caber-lhe-á a missão de limpar nosso futebol do jejum de títulos. Não apenas aos jogadores, às comissões técnicas também. Somos muito mais sofisticados em nosso trabalho de preparação física e em nossa concepção tática. Nós e todos os outros.
Quando eu nadava, na remota juventude (acho que hoje, se me jogarem ao mar, me afogo), o técnico acompanhava, olhava, corrigia. Eram horas de treino para desbastar o estilo e eliminar vícios. Hoje os programas de biomecânica mapeiam o corpo do atleta e indicam os ajustes de movimento. Exercícios específicos rapidamente corrigem e condicionam a pessoa. O mesmo ocorre com a preparação física, a dieta, o treino tático. E tudo deve ser voltado a preservar o jogador e melhorar sua condição de entrar em campo, às vezes duas ou três vezes por semana. As jogadas precisam ser desenhadas, testadas e treinadas, porque não há mais tempo para os coletivos.
O desafio, nesse ambiente que equilibra o domínio da técnica e equipara o nível das equipes, é encontrar diferenciais que voltem a nos dar uma vantagem relativa, como já a tivemos no passado. Recuperarmos a leveza e a elegância do nosso melhor futebol. De Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Falcão, Bebeto, Ronaldo, tantos craques que encheram nossos olhos. Romper as retrancas do presente com novos conceitos e novas táticas. Não há garantia de vitória, a incerteza é a marca do esporte. Mas haverá um fio de esperança que não se romperá tão facilmente.
Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16.




Amei o texto do Bernardo Lins, que nos conduz a um tempo em que o futebol brasileiro era sinônimo de criatividade. E esta foto, que o acompanha, não é para qualquer um. Parabéns!