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Premonição de Uma batalha anti-fascista

  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

-IBRAIM ROCHA-




By Bryan Berlin - Golle am keeriiɗe, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=195780204
By Bryan Berlin - Golle am keeriiɗe, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=195780204

19 de julho de 2026, final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha.Um domingo que corre lento, superado o risco de protocolo de mal tempo em Nova York, normalidade desta era de mudanças climáticas. o MetLife Stadium, celebrou neste domingo o epiteto da guerra anti-fascista.


O apito soou, a bola rolou, e estas linhas descrevem, a história não contada, mas jamais desmentida ou confirmada que o sonho da paz se constrói nos enredos inesperados. Mas há sonhos que valem a pena ser escritos antes, exatamente para que cumpram um desejo profundo, fique registrado que já sabíamos: certas vitórias começam a ser construídas muito antes da bola tocar a rede.


Vivemos num mundo que é extremamente rápido, e nele as coisas nunca estão desconectadas. O Brasil amanheceu no 15 de julho sob as tarifas e o patriotismo de gabinete  dos bolsonaristas; A Argentina joga como nunca, mas vive sob um regime autoritário de Milei, que é como na Venezuela o triunfo da  Doutrina Monroe que se mostrou cruelmente eficaz.


É impossível fingir que a bola, sozinha, resolve tudo isso. Mas ela, como o mundo, é redonda e desperta paixão. Não é só sobre futebol. Torcedores argentinos já entoaram, em muitas ocasiões, cantos racistas contra brasileiros — o mesmo tipo de intolerância que Yamal já ouviu das próprias arquibancadas espanholas por ser filho de imigrante e muçulmano.  São episódios diferentes, mas do mesmo tecido: o de tentar diminuir quem se recusa a caber no molde de sempre.


Rememorando o minuto do gol. A Espanha ataca, a bola chega nos pés de um garoto de dezenove anos que joga como se o mundo não pesasse sobre os ombros — e pesa, e muito. Lamine Yamal recebe, ajeita o corpo, e faz o que sempre fez desde menino nas ruas de Rocafonda: acredita antes de agir. A bola morre no fundo do gol argentino.


E então vem o gesto. As mãos se cruzam, os dedos desenham um número — 304 — que para a maioria do mundo não significa nada, mas para quem cresceu num bairro operário e multicultural nos arredores de Mataró é a assinatura de uma origem que não pede licença para existir. É o código postal de uma periferia que a extrema-direita espanhola já tentou apagar do mapa simbólico do país, chamando-a de tudo menos de lar. Yamal transforma esse número em bandeira. Não esconde de onde veio; exibe.


Antes de se levantar, o corpo se curva. A testa toca o gramado, as mãos, os joelhos — o sujud, gesto de gratidão que carrega desde a fé do pai marroquino, professada sem pedir desculpas num continente que ainda estranha ver um ídolo esportivo rezar em público. Foi ofendido por isso nas arquibancadas antes; respondeu sempre com o mesmo verbo — jogar, e jogar bem. Agora, na final, o gesto se repete diante do mundo inteiro, e o mundo, agora assiste, entre o susto e a incredulidade, vê que somente os que sonham ser diferentes podem mudar a direção.


Não é força de expressão, nesse instante, o menino de Rocafonda joga contra mais do que a Argentina. Joga contra a ideia de que origem humilde, fé muçulmana e pele que não é branca sejam motivo de suspeita numa seleção nacional. A comemoração não se desfaz, pelo contrário, os seus três segundos e um gesto de mãos se tornam a abertura que faltava para se compreender o discurso de muitos que gritavam contra o fascismo mas do que ideia, em força de ação.


O futebol, nesse momento, deixa de ser só o jogo mais popular do planeta e vira o que sempre pôde ser: o lugar onde um garoto pobre, filho de imigrante, prova que pertence, sem pedir licença a ninguém e que as mensagens de marketing assumem sentido real de mudança por um mundo unido.


Percebemos então que não é mais torcer contra a Argentina, o que seria injusto com os jogadores, onde ainda ressoa o drible do Guarani Maradona, como eles também o sejam sem saber, engolidos na ideologia da pureza europeia. Mas revelar que o ponto nunca tenha sido o time em si, e sim o que um título, serviria para legitimar: a ideia de que um povo que vem sendo golpeado por uma política neoliberal dura pode ser recompensado, na taça, justamente pelo regime que o pressiona. Acreditar que isso geraria algo de bom seria enganar-se.


E não é caso isolado: o mesmo desconforto que sentimos diante de Milei se repete diante de outros nomes — Trump, o regime em Israel — porque o fascismo, antes de qualquer bandeira ou escudo, é sempre anti-humanidade. Está tudo conectado, e este mundo é pequeno demais para que a gente finja não ter lado.


Este texto escrito antes do apito, revela que a bola ao entrar como o sonho é antes imagem da realidade, porque o gesto do menino Yamal não é coincidência é continuação natural de uma vida inteira dizendo, em silêncio e em campo, que o fascismo não tem vez onde se tem uma alma livre, jamais destruída e simbolizada nas crianças de gaza: espanhol, muçulmano, brasileiro, argentino, iraniano, filho de Rocafonda, todos são campeões do mundo, exatamente porque honram a sua história sem pureza  ideológica, mas profundamente humana na diversidade.


Que o sonho, dessa vez, chegue na hora certa. E que cada um, dentro e fora de campo, tenha a coragem de assumir o seu lado contra o fascismo, ainda que tudo isto seja apenas uma premonição.


Texto escrito em 17 de julho de 2026



Ibraim Rocha - Doutor em Direitos Humanos e Meio Ambiente – UFPA, Procurador do Estado do Pará e membro do IBAP. Escreve todo o dia 21 . (Hoje excepcionalmente antecipado)



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