O PAPA É POP!


-DANIEL FERRAZ-


Fonte: Facebook

Sim, “o Papa é pop e o pop não poupa ninguém” (Engenheiros do Hawaii). Infelizmente não podemos dizer o mesmo do ocupante do cargo máximo do Executivo do Estado soberano brasileiro. Iniciemos com algumas comparações de declarações recentes (2020) de ambos os líderes:


Papa Francisco: “Deus não vê com os olhos, mas sim com o coração. E o amor de Deus é igual para todas as pessoas, não importa a religião. E, se for ateu, é o mesmo amor (...) O único laço que a humanidade tem é a ligação ao amor de Deus. De resto, somos livres. Até livres para não amá-lo.


Só podemos construir o futuro juntos, sem excluir ninguém. Como seria bom se o crescimento da inovação científica e tecnológica acompanhasse o crescimento da igualdade e da inclusão social (...)

Uma coisa que nos ajuda muito na vida é a expressão da beleza. Um artista é um apóstolo da beleza que ajuda os outros a viver (...) O sorriso, a capacidade de sorrir, é a flor do coração.” (todos os grifos deste texto são meus; cenas finais, documentário Papa Francisco: um homem de palavra).


Papa Francisco: “Pessoas homossexuais têm o direito de estar em família. Elas são filhas de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deveria ser descartado (dela) ou ser transformado em miserável por conta disso (...) O que temos de criar é uma lei de união civil. Posiciono-me por isso.” (documentário Papa Francisco: um homem de palavra).


Jair Bolsonaro declarando uma piada homofóbica ao se referir aos maranhenses e a um refrigerante de cor rosa: “Agora virei boiola, igual maranhense, é isso? [risos] O guaraná cor-de-rosa do Maranhão aí, quem toma esse guaraná vira maranhense [risos]. Guaraná cor-de-rosa no Maranhão… Que boiolagem isso aqui” (Maranhão, outubro de 2020).


Jair Bolsonaro (a missão):


Fonte: Instagram, paty_davis, e mídias de massa (novembro de 2020).

Obviamente, comparar esses dois líderes é, de início, incabível, algo no nível kafkiano. Entretanto, é preciso registrar as visões de sociedade, de cidadania, de mundo e de humanidade que esses discursos produzem. Tais discursos, em seu conjunto e adicionados à representatividade que esses líderes engendram, certamente influenciam as massas. Claro, no caso do Papa Francisco, um novo discurso, no bojo da milenar Igreja Católica, sobressai: o respeito à diversidade humana.



Para além de sua defesa, que vem desde Buenos Aires, do respeito às comunidades LGBT+ de todos os possíveis contextos, Papa Francisco une os povos e as religiões, atrai o amor e espalha o seu desejo de igualdade, inclusão e justiça social para todos, não somente para os católicos.

Preciso admitir que, embora católico, batizado e crismado, não prestei tanta atenção aos últimos Papas. Além disso, sempre discuti os papeis históricos e influências massivas que a Igreja Católica teve em nosso país, alguns deles extremamente negativos. Porém, há de se admitir que o Papa Francisco, ao posicionar-se a favor das comunidades LGBT+ de todo o planeta, altera o curso da História. Nós, católicos e pertencentes às comunidades gays no Brasil, poderíamos imaginar que esse respeito um dia chegaria? Nesse belíssimo e emocionante documentário vemos a história de um doador de esperança.


Bem, temos o contrário quando pensamos nas declarações de Bolsonaro. Sentimos uma profunda falta de esperança por um Brasil que respeite, contemple e fomente políticas públicas para as minorias, todas elas, mas no caso deste texto, para a comunidades LGBT+ deste país. Dentre as suas tantas declarações escabrosas, não é de hoje que o Presidente faz piadas homofóbicas e ataques a jornalistas e a qualquer um de seus imaginários opositores. Trata-se de piadas ofensivas, desnecessárias e de linguagem chula, mas que têm um poderio discursivo capaz de (ainda!) levantar sua massa de apoiadores contra essas comunidades.


Como sabemos, discurso não é algo abstrato, algo exclusivo da linguagem. Discurso produz ações, discurso fere, discurso pode matar. Aliás, sobre o espalhamento dos discursos nas massas e, sobre seus efeitos, vale a pena resgatar as peremptórias palavras de Hannah Arendt (Origens do Totalitarismo): “Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo; as massas têm de ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião, os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto e, como qualquer outro partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação” (2017/1973, p. 474).


Em uma pesquisa que realizei em 2016 sobre instituições religiosas e homossexualidades (Ferraz, 2016), encontrei nos estudos do psicólogo Luís Antônio Baptista (apud DINIS, 2011) a metáfora do amolador de facas: “O fio da faca que esquarteja, ou o tiro certeiro nos olhos, possui aliados, agentes sem rostos que preparam o solo para esses sinistros atos. Sem cara ou personalidade, podem ser encontrados em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, psicanalistas etc. Destituídos de aparente crueldade, tais aliados amolam as facas e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre coitado, cúmplice do ato, carente de cuidado, fraco e estranho a nós, estranho a uma condição humana plenamente viva”.


Assim é que os discursos como os de Bolsonaro e, consequentemente, de seus apoiadores, entre tantos outros discursos que circulam na sociedade hegemônica e patriarcal, vão amolando as facas para o preconceito e discriminação em relação aos que vivenciam a sexualidade, o gênero e o amor de formas divergentes do “normal” instituído e perpetuado pela heteronormatividade.

Enfim, temos que lutar contra os amoladores de facas! Precisamos de mais Papas pop e menos de presidentes déspotas.

DANIEL FERRAZ é docente no curso de Letras-Inglês e forma professores há 25 anos.


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