Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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ELES SÃO MUITOS MAS NÃO SABEM VOAR

Atualizado: 22 de Dez de 2019


-SANDRA CUREAU-


No dia 8 de dezembro passado, Ney Matogrosso apresentou-se, para 2.500 pessoas, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.

Ao longo dos anos, assisti a inúmeros shows do consagrado artista e sempre me impressionaram sua energia, presença de palco e versatilidade, em especial, a maneira como interagia com a plateia. Certa feita, em Porto Alegre, nos anos 1980, dançando e cantando entre o público, sentou-se no colo de um conhecido costureiro e figurinista, o qual, sóbrio e circunspecto, de terno e gravata e acompanhado da esposa, ficou simplesmente paralisado. Ney escolheu-o a dedo.

Hoje, com 78 anos, o intérprete continua bem fisicamente, mas, como todos, mostra sinais da idade. Ainda dança – e bem -, mas sem aquele vigor do início da carreira, nos Secos & Molhados, em 1973.

Entre outros sucessos apresentados, Pavão Mysteriozo, de Ednardo, tema de abertura da telenovela Saramandaia (1976), de Dias Gomes, merece especial destaque.

Inspirada no folheto de cordel “O romance do Pavão Misterioso”, de José Camelo de Melo Resende, conhecido no Ceará desde a década de 1920, continha críticas veladas - ou nem tanto - às torturas que ocorriam no regime militar. Veja-se, a título de exemplo, o trecho da música que diz: “me poupa do vexame de morrer tão moço, muita coisa ainda quero olhar". Pavão Mysteriozo foi escrita num clima de diretório estudantil, o mesmo que deu início à consolidação de uma cena musical cearense e revelou inúmeros artistas, entre os quais Raymundo Fagner, o próprio Ednardo, Belchior, Fausto Nilo e Amelinha.

Ednardo classificou Pavão Mysteriozo como uma canção de protesto, “sobre a construção de um mecanismo que nos faria voar, fugir do que vivíamos”, mas cuja conotação política passou desapercebida pela censura, por certo, porque o autor ainda era, à época, pouco conhecido dos censores.

Permito-me abrir um parêntesis e falar dos anos da minha juventude, os mesmos anos em que muitos escritores e artistas foram ferozmente perseguidos pelo regime militar. Foi o caso de Rubem Fonseca, consagrado escritor brasileiro, que durante todo o período ditatorial foi impedido de publicar no Brasil, enquanto suas obras faziam sucesso no exterior. >>>

>>> Curioso é que se atribui a proibição a um mero incidente escolar. Determinada professora escolheu um conto de Rubem Fonseca para seus alunos lerem e comentarem. Nada teria ocorrido se um dos alunos não fosse filho de um coronel do Exército, muito ligado aos generais que governavam, então, o país. O pai achou o conto pornográfico – repito que não era um crítico literário, mas um coronel do Exército – e encaminhou uma denúncia aos seus companheiros de farda que ocupavam o poder, gerando, assim, a interdição.

Muitos anos após, já findo o período ditatorial, Rubem Fonseca ingressou com ação contra a União, postulando a justa indenização por todo o prejuízo sofrido. Obteve ganho de causa e a União apelou para o Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Quis o destino que fosse eu o membro do Parquet presente à sessão de julgamento. Comecei minha sustentação oral, da qual jamais esquecerei, afirmando ser leitora e admiradora de Rubem Fonseca e acrescentando que pornográfico era ver crianças famintas perambulando pela rua, gente passando fome, sem que nada fosse feito. A sentença foi confirmada. Dias após, recebi um jovem no meu gabinete, enviado pelo escritor, que me entregou o livro Agosto, recém lançado, com a seguinte dedicatória: “Para Sandra Veronica Cureau com estima e admiração. Rubem Fonseca. 21.12.90. Feliz 1991.”

Voltando ao tema que me trouxe a essas lembranças, nós, os jovens dos anos 1960 e 1970, éramos extremamente politizados, idealistas e sonhávamos com um Brasil mais justo e mais humano.

Cresci num mundo no qual não havia computadores, redes sociais ou telefones celulares. Líamos Sartre, ainda que pouco ou nada entendêssemos de existencialismo. Certa vez, um colega e amigo, prematuramente falecido, escreveu: “As águias podem, às vezes, voar mais baixo do que as galinhas, porém as galinhas não podem jamais subir às alturas das águias.” Atribuiu a frase a Marx, mas, na verdade, ela faz parte de uma fábula do escritor russo Ivan Krylov.

É claro que, olhando para trás, não é difícil constatar que o tempo se encarregou de mudar, substancialmente, aquilo que fomos um dia. Dos ideais comuns pouco restou e grande parte das afinidades que nos uniam não mais existe. Cada um seguiu o seu rumo, que raramente foi aquele que um dia imaginamos seguir. A repressão encarregou-se de minar carreiras políticas que se anunciavam promissoras. À medida que se tornava mais violenta - grêmios estudantis e centros acadêmicos fechados, alunos e professores expulsos, jornaizinhos censurados, passeatas dissolvidas pela polícia -, mais se temia o que estava por vir. Muitos colegas caíram na clandestinidade, outros foram presos, torturados e mortos, de outros, ainda, nunca mais tivemos notícia.

Hoje, lendo as declarações do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que as universidades federais são “instituições dominadas por grupos de esquerda, repletas de drogas, que não cumprem seu papel de ensino e pesquisa”, nas quais vicejam "plantações de maconha" e "laboratórios de drogas", vejo que são sempre os estudantes os alvos preferidos dos regimes autoritários. São eles que amedrontam os donos do poder. Deixá-los à solta é um risco: eles pensam.

Lendo os noticiários, sinto uma incômoda sensação de déjà vu. A censura em salas de aula, a demissão de professores por críticas ao governo, gravações clandestinas dos ensinamentos que são ministrados, não prenunciam nada de bom. Dias piores virão, se não reagirmos e, como sociedade civil, verdadeira detentora do poder político, exigirmos que a democracia seja respeitada.

Convido-os à reflexão e encerro o artigo com o trecho final da letra de Pavão Mysteriozo:

“Eles são muitos, mas não podem voar.

Só voarão se nós deixarmos." <<<


SANDRA CUREAU - Subprocuradora-Geral da República, faz parte da diretoria da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil – APRODAB, fez mestrado na UERJ e foi Vice-Procuradora-Geral Eleitoral (2009/2013)


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