Das tristezas das ruas para a glória

- Stheve Balbinotti -


Quando a Biblioteca Pública Santo Antônio, que ficava ao lado da Praça Santo Tomás, abria às nove horas, lá estava o Michel Apostila frente à porta e pronto para entrar. O sobrenome verdadeiro ninguém na cidade sabia qual era, mas o primeiro nome realmente era Michel. Ele ganhou o “Apostila” como sobrenome porque vivia para cima e para baixo pelas ruas com apostilas novas e antigas de todos os concursos das cidades próximas.


Michel era morador de rua e vivia de doações de comidas e roupas. Em algumas oportunidades ele ganhava alguns trocados cortando grama e limpando pátios sujos na cidade. Como a cidade era pequena, existiam poucos moradores de rua e sempre havia vaga para Michel dormir e jantar no Albergue Ogum, o único da cidade. Lá ele tomava banho, jantava, olhava TV e ficava lendo em uma sala reservada que ficava nos fundos.


Segundo boatos da cidade, Michel saiu de casa quando tinha onze anos, pois seu pai era viciado em drogas. Sua mãe havia morrido quando ele completou quatro anos. Um dia, Michel ficou com medo das ameaças de seu pai e decidiu fugir de casa. Quando estava indo sem rumo pelas ruas do centro foi abordado por uma viatura da polícia, prontamente espancado e preso, acusado de roubo por uma senhora da elite da cidade, com visíveis problemas de visão e de preconceito social. A senhora queria achar um ladrão e a polícia um culpado, o pobre Michel acabou sendo o sorteado.


Depois de apanhar e ser acusado por um crime que não cometeu, Michel foi mandado para um abrigo de menores infratores. Lá, contou a sua história e alegou inocência no tribunal interno em que os agentes montavam para os novos usuários do local. Entre lágrimas e dores jurou inocência e não foi compreendido por ninguém. Foi mandado para um quarto com outros meninos, uns culpados e outros inocentes. Michel ainda apanhou de vários garotos antes de dormir.


Uma semana depois ele ainda apanhava antes de dormir e não podia se defender. Michel só tinha em mente um plano: fugir daquele lugar e daquela cidade e nunca mais voltar. Na segunda semana um grande incêndio tomou conta do abrigo. Michel ficou bem ferido e foi levado para um hospital e quando se recuperou fugiu. O Estado falhou gravemente com Michel, ele não acreditava mais na palavra justiça.


Michel começou a viver perambulando pelas ruas e o plano continuava o mesmo: ir para bem longe da cidade que o tratou tão mal. Em uma tarde nublada, Michel encontrou seu pai, totalmente drogado e agressivo. Ele correu por vários quarteirões até conseguir escapar entrando em uma loja de doces. O dono do local expulsou o pai de Michel e ainda lhe ofereceu uma refeição. Michel pediu balas e o rapaz lhe deu uma caixa e começou ali o primeiro emprego de Michel. Um emprego injusto, pois ele deveria estar estudando, mas agora era um vendedor de balas.


Ele guardou dinheiro por alguns meses, dinheiro que conseguia vendendo balas nos semáforos da cidade. Quando juntou a quantia necessária, resolveu pegar um ônibus para bem longe daquela vida cheia de medos e angústias que vivia por culpa de um pai que o odiava e de um Estado que o acusava.


Michel queria apagar as lembranças e imagens de uma infância sofrida e dolorosa, tarefa que nunca era fácil. Por vezes, Michel aparecia bêbado em algum canto da cidade, mas só em momentos de profunda tristeza. O preconceito era visível por parte da maioria dos moradores da cidade que o chamavam de alcoólatra e drogado, o que não era verdade. Ele sabia exatamente a hora que deveria parar de beber.


O vinho, o quentão e a cachaça eram os meios alternativos de fuga de uma realidade sofrida e injusta de ruas perigosas e dias frios. No verão ele não bebia. Tá bom! Ele bebia uma cervejinha às vezes, mas somente quando ganhava do Thelmo, o dono do mercado da esquina da Rua dos Capitalistas Sul, mas era um fato raro, pois Thelmo era um baita miserável.


O melhor amigo de Michel era o véio Pandolfo, um senhor bem simpático de 70 anos, o dobro da idade de Michel. Pandolfo era o dono da Banca do Futuro, a única banca de revistas da cidade. Pandolfo sempre alimentava os sonhos de Michel com livros, revistas, apostilas e conversas sobre todos os assuntos possíveis e que duravam horas e horas em frente a banca. Foi o véio simpático que deu o sobrenome de Apostila a Michel, pois ele tentou roubar uma apostila da banca logo que chegou na cidade.



Na manhã de uma sexta-feira, Michel estava lendo o jornal na biblioteca e na mesma sala estavam sua amiga, a Desirée, e um homem de terno e gravata com cara de arrogante. Desirée percebeu que o seu celular havia sumido e começou a chorar desesperadamente. O homem de terno e gravata acusou Michel e afirmou que só um morador de rua seria capaz de cometer um crime dentro de uma biblioteca. A bibliotecária Lourdes chegou e acalmou os ânimos de todos e pediu para o guarda Freitas aguardar no local com todos e não deixar ninguém sair até que ela retornasse com a solução do problema.


Dez minutos depois, Lourdes voltou acompanhada de um policial e com um celular na mão. Enquanto todos conversavam, ela pegou o celular discretamente e discou para o número de Desirée, o número estava nos contatos dos cadastros dos usuários da biblioteca. O celular começou a tocar e o som vinha de dentro do bolso do terno do homem arrogante e desconhecido que acusou Michel. O homem foi preso na hora e na saída Lourdes olhou bem para o homem e lhe disse:


— Nunca se deve julgar ninguém pela aparência, ainda mais dentro de uma biblioteca pública.


Michel sentiu-se aliviado e agradeceu Lourdes com um forte e emocionado abraço.


Alguns dias depois lá estava Michel, dormindo em uma tarde fria em um banco na Rua da Esperança e foi quando o véio Pandolfo apareceu e jogou uma apostila em cima de Michel e com grande entusiasmo lhe falou:


— A sua grande chance chegou!


Pandolfo se referia ao concurso público para novos cargos da cidade, sendo que o último havia sido exatamente no ano em que Michel havia chegado à cidade. Michel tinha quatro meses para estudar e uma apostila.


Michel estudou até a quarta série e era um aluno com boas notas, Antes da fuga. Michel passou a primeira semana estudando na biblioteca das nove horas até a hora do fechamento. No quarto dia de estudos desmaiou por estar há muitas horas sem comer e todos na biblioteca correram para socorrê-lo. Lourdes descobriu que ele estava estudando para o concurso, lhe deu um café e ainda indicou um lugar chamado Emancipa onde professores voluntários davam aulas de reforço de diversas matérias para pessoas carentes.


No dia seguinte Michel foi estudar de manhã na biblioteca e de tarde foi conhecer o tal Emancipa. Quando chegou, ficou um pouco desconfiado por estar em um lugar desconhecido, mas decidiu assistir às aulas de português e de matemática. No dia seguinte repetiu o mesmo roteiro. O curso também ofertava aos alunos café e bolachas, o que Michel achava um belo atrativo, além do aprendizado. Michel passou quatro meses indo de manhã na biblioteca, de tarde no curso e de noite voltava ao Albergue Ogum para dormir.


Depois de passar quatro meses estudando, lá estava Michel na manhã daquele domingo frio na frente da Escola Glória, pronto para fazer a prova. Na porta da escola estava o véio Pandolfo com uma garrafa de água e barras de cereais para Michel levar para a sala. Pandolfo abraçou Michel e lhe desejou boa sorte. Michel foi o primeiro a entrar na sala e o último a sair, tendo certeza de ter tirado uma boa nota.


Passado um mês da realização da prova, o resultado final foi publicado no site da prefeitura. Michel conferiu o resultado no computador da biblioteca e viu o seu nome em segundo lugar de um total de três vagas. Quinze dias depois Michel assumiu o cargo público de auxiliar de biblioteca exatamente no local em que ele tanto frequentava, conhecia e gostava. Michel saiu das ruas para um apartamento alugado em frente à banca do véio Pandolfo e todos os dias os dois ainda tomam café da manhã e conversam antes de Michel ir trabalhar na biblioteca municipal. Ninguém consegue nada na vida sozinho e o véio Pandolfo foi o pai que Michel nunca teve.

Stheve Balbinotti é de Porto Alegre e é formado em Biblioteconomia pela UFRGS.


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