SÉRIAS MUDANÇAS NO AR

- Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima -


A grande circulação de carros pela cidade de São Paulo é fato conhecido. Da janela, onde moro, vejo esse movimento no bairro reduzido recentemente.


Melhora no sistema de transporte público? Parece que não, apesar do preço elevado da gasolina. É só entrar em ônibus, metrô ou trem depois das 16 horas. Imagine isto de manhã entre 6 e 9 horas. Nem me arrisco. Ninguém mais reclama da superlotação. Virou costume, é preciso chegar em casa ou no trabalho. Algumas pitadas de notícia pela televisão, mas poucos assistem nesse horário, pois já saíram para sentir na pele. E o rosto das pessoas nos coletivos? Gostaria de fotografar, mas não posso, ofenderia as pessoas e seu direito à imagem! O cansaço refletido daria para fotos em branco e preto como aqueles do Sebastião Salgado.


A Bolsa cai, o dólar sobe, o mercado pára com sua costumeira “turbulência” e nós continuamos perplexos perante esse jogo econômico. Fico pensando na palavra “turbulência” no mercado. Para mim turbulência é quando o avião dá um susto na gente e ameaça cair, pois entrou num vácuo no ar, e felizmente sai dele. Mas, quanto ao mercado, na turbulência quem ganha, quem perde? Para variar, acho que eu sempre perco, mesmo sem saber o porquê... Percebo isto na minha fatura mensal do cartão de crédito, cada vez mais alto, enquanto reduzo as ocasiões para gastos. De tanto ouvi falar na necessidade de apertar os cintos, bloqueei seu uso, apenas ficou o cinto de segurança, que detesto também, mas sou obrigada por lei a usar.


Nada de pânico, pela informação oficial, não há inflação e posso continuar consumindo... Tento esquecer Eugenio Raúl Zaffaroni, jurista argentino, quando afirma que estamos vivendo num totalitarismo financeiro, onde tudo é justificado pelo mercado, o que no futuro criará 30% de incluídos e 70% de excluídos. Devemos começar a pensar que a sobrevivência deixou de ser uma opção nossa, pois, querendo ou não, estamos sendo dirigidos pelo sistema financeiro global, e da maior ou menor independência da política econômica adotada pelos países, incluindo o Brasil.


Mudança de hábitos? Necessário lavar sempre as mãos. Saio da plataforma do metrô, subo e a vontade é encontrar logo um local para isso. Mas, não existem lavatórios e nem recipientes com álcool gel para o público todo, que tem pressa. Continuo até o ônibus, procuro não encostar as mãos no rosto, algum fio de cabelo no rosto me provoca, mas resisto. Enquanto isto, uma passageira na minha frente, que acabou de se agarrar na barra de apoio e depois engoliu o último salgadinho, limpa os lábios com essa mão.


As pessoas estão alarmadas com os dados que ouvem nos noticiários. Os países da Europa fecham suas fronteiras aos estrangeiros. Trump fala de fechar os aeroportos para aviões vindos da Europa. Na América do Sul, alguns países querem também fazer o mesmo. A LATAM anunciou uma redução de aproximadamente 30% de seus voos internacionais devido à baixa demanda e restrições de viagens impostas por alguns governos.


Fechamento de empresas? Parece, ainda, que não. Os médicos e outros profissionais da área de ciências orientam que as pessoas permaneçam em casa, quem precisa trabalhar que faça por “home office”, escolas fechadas, Judiciário com atividades reduzidas, jogos de futebol sem torcida presente, museus fechados e locais turísticos desativados para o público, palestras e conferências canceladas. Sugerem um certo isolamento social, termo que está na moda ultimamente, apesar de eu já ter praticado algumas vezes por questão de economia.


Economia de combustível? Minha matemática me cutuca. Como sobrevivem, com seu custo, os motoristas de aplicativos no trabalho autônomo diário de 12-14 horas, no trânsito louco da cidade, conduzindo passageiros? De cara, 25% cento vão para o aplicativo, conto mais despesas, comida, gasolina, trocas de pneu, de óleo, eventuais multas de trânsito (afinal, são tantas as armadilhas, faixas exclusivas, horário proibido aqui diferente daí, placas de velocidade, num sobe e desce)? E a cidade sem banheiros públicos... E os motoristas de táxi autônomos, que gastam com combustível, impostos, limpeza do carro, que tem que estar tinindo, pneus em ordem, caso contrário a fiscalização multa, e que andam perdendo passageiros, com a concorrência do aparente preço menor de corrida pelos aplicativos? E o risco de assaltos? Trabalho de risco constante. E os entregadores de moto, que recebem por entrega, serpenteando suas velhas motos entre os carros no trânsito? Estes todos são autônomos, sem registro em carteira, sem vínculo, que possivelmente não têm dinheiro para pagar o INSS e sem qualquer suporte em caso de acidente. Com a redução do movimento nas cidades, haverá uma perda generalizada de procura e de receita, com as contas para serem pagas no vencimento.

O SUS, tão mal falado pela imprensa e tão pouco apoiado pelo governo, deverá demonstrar novamente o valor do o trabalho que vem realizando.

Estão aumentando os pedidos de comida em casa por aplicativo. Lá vão os entregadores de bicicleta, trabalhadores autônomos, fazer esse percurso. A barriga da perna deve queimar de tanto pedalar, no sol e na chuva. Tudo com tempo marcado. Como fazem para chegar em suas próprias casas? Irão de bicicleta ou embarcarão nos coletivos?


As pessoas estão alarmadas com os dados que ouvem nos noticiários. Os idosos são grupo de risco, afirmam as notícias. No entanto, muitos casos relatados são de pessoas mais jovens.


Tudo isto devido ao novo Coronavirus, que tem uma capacidade espantosa de contágio e de disseminação, e veio mudar a vida de milhões de pessoas. Espero muito que o sistema SUS, no Brasil, tão mal falado pela imprensa e tão pouco apoiado pelo governo, demonstre novamente o valor de todo o trabalho que vem realizando.

Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima - Membro do IBAP – Advogada; Mestre em Direito do Estado, Direito Constitucional (PUC); Mestre em Ciências (Patologia Social) FESPSP, é membro do Conselho Fiscal do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública - IBAP.



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