top of page

O TORCEDOR BRASILEIRO QUER O COLO DE VÓ

  • há 14 minutos
  • 3 min de leitura

-IBRAIM ROCHA-


Imagem - Wikipedia
Imagem - Wikipedia

O fenômeno despertado por Vozinha talvez revele algo mais profundo do que a admiração por uma grande atuação em campo. Seu nome, simples e afetivo, parece brotar diretamente da linguagem popular, como aqueles apelidos que durante décadas deram alma ao futebol brasileiro. Não é apenas um goleiro de Cabo Verde que encanta os torcedores; é a lembrança de um futebol que parecia mais próximo das ruas, das famílias e do cotidiano do povo.


Talvez por isso a Seleção Brasileira de 1982 continue tão viva na memória nacional. Embora não tenha conquistado o título mundial, aquela equipe permanece como um símbolo do futebol-arte, representada por nomes que se confundiram com a identidade do país: Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Cerezo e Serginho Chulapa. Eram jogadores extraordinários, mas também personagens populares, cujos nomes carregavam histórias, sotaques, apelidos e afetos que os aproximavam do torcedor comum, e cujas personalidades ultrapassavam as 4 linhas.


Em contraste, o futebol contemporâneo parece cada vez mais globalizado. Os atletas são celebridades planetárias, marcas internacionais e protagonistas de um mercado bilionário. Embora possuam enorme talento, muitas vezes a identificação popular parece mais distante. Nesse cenário, talvez Endrick represente uma esperança singular. Seu nome, embora moderno, soa como algo criado espontaneamente pela criatividade popular brasileira, quase uma palavra inventada pela fala do povo. Ainda muito jovem, ele parece carregar a expectativa de uma nova geração capaz de reconectar a Seleção com a emoção e a simplicidade que marcaram os grandes momentos do futebol nacional, e que contraditoriamente aparenta estar barrado justamente por estar fora do grupo, como se referiu Casemiro.


Já Neymar ocupa um lugar mais ambíguo na memória coletiva. Seu talento jamais esteve em discussão, mas sua trajetória foi acompanhada por uma expectativa histórica que nunca encontrou plena realização em uma conquista mundial. O nome “Neymar Júnior” parece evocar uma promessa permanente, um futuro glorioso sempre anunciado e sempre adiado. Apesar da fortuna, dos recordes e da projeção internacional, sua imagem tornou-se, para muitos brasileiros, mais associada ao estrelato global do que à representação sentimental do país. Tornou-se gigantesco para o mundo, mas nem sempre tão próximo do coração popular brasileiro quanto se imaginava que seria, e que seus posicionamentos políticos indicam uma desconexão com o destino do sofrido povo brasileiro.


Por isso, o carinho espontâneo demonstrado a Vozinha, o Josimar, um nome bem brasileiro, pode ser interpretado como uma saudade. Saudade de um futebol em que os craques pareciam pertencer à mesma comunidade dos torcedores; em que seus nomes eram pronunciados com intimidade, como se fossem vizinhos, amigos ou parentes. O brasileiro continua admirando os grandes astros, mas demonstra que ainda busca algo além do talento: procura identificação, pertencimento e afeto.

 

E talvez a síntese perfeita dessa identidade esteja no maior nome da história do futebol. Afinal, o Rei não entrou para a eternidade como Edson Arantes do Nascimento. Entrou como Pelé. Um nome curto, misterioso, nascido da linguagem popular, sem significado aparente e, justamente por isso, capaz de se tornar o significado de todos os outros. Pelé não era apenas um jogador; era a transformação de um apelido do povo em símbolo universal. Talvez seja essa a lição que o fenômeno Vozinha recorda aos brasileiros: o futebol é mais grandioso quando seus heróis não são apenas admirados, mas reconhecidos como parte da própria alma do povo, mesmo quando perdem o campeonato.


Copa do Mundo é momento de sonhar e  independente do resultado, já temos um seleção do coração: Cabo Verde.


 

Ibraim Rocha - Doutor em Direitos Humanos e Meio Ambiente – UFPA, Procurador do Estado do Pará e membro do IBAP. Escreve todo o dia 21 .




Comentários


Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
bottom of page