QUANTAS MAIS?

-RUI VIANNA-


Em 13 de maio de 2018, um dia antes de ser brutal, covarde e horrivelmente assassinada, juntamente com seu motorista, Anderson Gomes, Marielle Franco postou uma mensagem no Tweeter, onde questionava: " Quantos mais vão precisar morrer..."?


Foto - El País

A frase assumiu proporções planetárias, dada a guerra civil não declarada no Estado do Rio de Janeiro, e não só nele. Assassinada a vereadora e seu motorista, assumiu o governo do Estado um psicopata homicida, declarando guerra "à bandidagem", travestindo-se de Rambo dos Trópicos, esbanjando boçalidade e violência. Sobre tudo isso muito já se falou, várias reportagens foram feitas, vários artigos escritos, muitas discussões acaloradas tiveram lugar entre "amigos".


Desde então, o número de mortos e feridos em decorrência dessa "guerra" aumenta exponencialmente, apesar de estatísticas chapa branca e claramente dirigidas apontarem para a diminuição dos homicídios no Brasil. De acordo com matéria do The Intercept, o buraco é bem mais embaixo:


" O número de assassinatos causados por essa ideia sociopata aumentou 23% em relação ao mesmo período ano passado, de acordo com o Observatório da Segurança Pública do Rio. O número de mortes em ações policiais aumentou 46%. A taxa de crianças baleadas aumentou 80% na era Witzel. Foi desses índices frios que saiu o tiro que matou mais uma criança. " (Aqui)


A verdade por trás desses números é a quantidade de corpos espalhados entre a população miserável do Rio, onde crianças apavoradas dentro de uma escola são metralhadas por um helicóptero, uma barraca de oração de evangélicos é confundida com um, o quê..., (arsenal do tráfico) e também é metralhada, um senhor morre baleado dentro de sua casa, sem ter noção de como e por quê morreu. São exemplos de um Estado homicida, criminoso, governado por um, repito, psicopata, violento, boçal.


A pergunta do título é: Quantas vidas mais? Até quando e até onde irá a sanha assassina dos nossos governantes, em destruir o meio ambiente, promover a dizimação de comunidades inteiras de indígenas, quilombolas, negros, pobres e abandonados pela Lei? Até quando as instituições e a população assistirão inertes e entorpecidas essa glorificação da barbárie? Quanto de boçalidade ainda terá que ser suportada pela sociedade para que isso seja impedido, repelido, enquadrado pelas instituições e pelo ordenamento jurídico?


Até quando o/a amigx, vizinhx, primx, parente, colegx do café da manhã, donx do açougue, da padaria, irão defender que "tem que atirar na cabecinha" , afinal, quem anda por aí com um fuzil, "tem que morrer" , ignorando que inexiste no ordenamento legal a figura do policial-investigador-escrivão-delegado-promotor-juiz-desembargador-ministro-carrasco? Até quando entenderemos como normal e, pior, aceitável, que o portador da faca-pistola-fuzil-metralhadora-bazuka, investido da autoridade do Estado para fazer com que se cumpra a Lei (aqui ainda em maiúscula), não pode se arvorar a cumprir o papel de Estado e, de forma ainda mais criminosa, decretar por conta própria que está estabelecida a pena de morte sumária no país?


A resposta razoável à todas essas questões seria, se ainda estivéssemos vivendo dentro de uma sociedade civilizada e m Estado de Direito, que nenhum governante tem direito de implementar iniciativas criminosas, diretrizes homicidas, sem vir a ser responsabilizado na forma da lei (aqui já em minúscula). Mas, pergunto: Seria esse o caso da sociedade brasileira hoje?


Seria isso o que está ocorrendo quando, só neste ano no Rio de Janeiro, 16 crianças foram baleadas em ações da polícia homicida de Auschwitzel ? Crianças! Muitas delas em suas escolas, indo para a aula, dentro de casa, no meio da rua, ou dentro da Kombi que a levaria para a escola. Oito delas morreram.


As vítimas de uma guerra civil estúpida, inútil e profundamente desigual, têm nome, idade, endereço e dor. De suas famílias, de seus parentes, de seus amigos. Daqueles que ficaram, daqueles que sofrem a angústia de saber que podem ser os próximos, daqueles cuja a única culpa que carregam é estarem do lado mais fraco, desprotegido e ignorado dessa maldita guerra.


Como é muito claro, essa guerra não adentra os condomínios chiques da Barra, as coberturas espetaculares do Leblon, os gabinetes refrigerados das instituições municipais, estaduais e federais, onde a lei é a da milícia, associada majoritária do poder estabelecido. E por isso não terá fim.


O nome da última vítima era Ágata Félix, tinha oito anos, vivia na Comunidade do Alemão/RJ. Ficará tristemente famosa pela forma violenta e estúpida como morreu, e não por ter realizado qualquer um de seus sonhos. Assim como ela, também as outras 15 crianças baleadas apenas desde o começo desse ano.


Então, mais uma vez paira sinistra a pergunta: Quantas vidas mais serão necessárias para chegarmos finalmente à conclusão de que já as perdemos demais?

RUI VIANNA é aposentado e já não consegue mais acreditar em muita coisa.


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