A Revolta dos Canuts
- Guilherme José Purvin de Figueiredo
- há 11 horas
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Atualizado: há 5 horas
-Guilherme José Purvin de Figueiredo-

O bairro chama-se Croix-Rousse, cruz vermelha, mas não tem nenhuma relação com a organização internacional de prestação de socorro médico, muito menos com qualquer ideia socialista. A origem do nome estaria numa pedra de formato parecido com o de uma cruz e coloração avermelhada, possivelmente minério de ferro oxidado. Pretendia ter ido para lá hoje, não fosse uma tradicional falha dos sistema de transporte em Lyon. O bairro fica numa colina de aproximadamente 80 metros de altura em relação às margens do Rio Rhône, o equivalente a um prédio de 25 andares, dez metros mais alto do que o topo do bairro do Pelourinho, em Salvador, Bahia.
Em 1830 a Croix-Rousse concentrava a maior parte dos canuts (tecelões de seda). A origem do termo canut está ligada à canne, vara, haste, cana. Eram as hastes de madeira usadas para enrolar os fios. Canuts, portanto, era aquele que trabalhava com as cannes. Eram cerca de 40 mil trabalhadores e trabalhadoras em Lyon. As mulheres representavam quase a metade do número de tecelões, atuando sobretudo na fiação, na preparação do fio, no urdimento, na tecelagem e no acabamento. No entanto, apesar da paridade entre sexos, o estatuto profissional jurídico era esmagadoramente masculino: o canut era o proprietário do tear e dono da oficina. As mulheres eram identificadas como operária de canut, filha de canut. Uma oficina com um homem, uma mulher e quatro filhas aparecia como um canut. Os slogans e discursos usavam o termo canut como figura masculina.
Por que a seda e não o algodão ou o linho? A resposta remonta a 1536, quando o rei Francisco I concedeu privilégios reais à fabricação de seda em Lyon. Assim, ao longo dos séculos XVI e XVIII, Lyon se torna o principal centro da seda na Europa, com mão-de-obra hiper especializada e uma técnica própria. Vale ressaltar que, ao contrário do que se supõe, a seda asiática nunca foi dominante em Lyon. Ela vinha principalmente do sul da França (cerca de 50%) e do norte da Itália (cerca de 40%). O algodão e o linho se desenvolveriam em outras regiões (algodão: Normandia, Alsácia; linho: Bretanha, Flandres). A seda jamais foi impulsionadora da Revolução Industrial. Ela não desencadeou a mecanização em massa nem criou um sistema fabril moderno, papel este desempenhado pelo algodão, carvão e ferro. O setor da seda era pequeno em volume, além de elitista e pouco escalável, sendo sobretudo resistente à mecanização completa. Por isso, ele não pode ser considerado estrutural ao capitalismo industrial de massas. Apesar disso, a indústria da seda foi um laboratório que antecipou a mecanização têxtil. Em 1801, Joseph-Marie Jacquard inventa o tear Jacquard, com cartões perfurados, automação e controle programável do tear. O impacto real foi a redução de custos, o aumento da produtividade e a padronização de desenhos completos. O tear Jacquard antecipou a lógica das máquinas programáveis e até a computação mecânica. Várias inovações do setor têxtil surgem na produção da seda e migram depois para o algodão. Mais do que sede de uma produção tecnicamente pioneira na indústria têxtil, Lyon será o berço do primeiro grande conflito mundial operário.
Os canuts não eram exatamente produtores autônomos. Eram materialmente subordinados aos négociants. Eram estes que controlavam encomendas, preços e prazos, transferindo aos canuts todo o risco econômico. Havia, naquele espaço urbano, condições propícias à sociabilidade operária, à visibilidade do processo de precarização da qualidade de vida (empobrecimento) e, sobretudo, à mobilização social. O conflito, assim, começa a nascer, não no setor mais pobre, não naquele em que é mais flagrante a oposição entre empregador e empregado, mas onde a produção capitalista se mostra mais crua: na produção de um bem de luxo por trabalhadores empobrecidos, com alto grau de especialização técnica e capacidade de mobilização política. Os canuts de Croix-Rousse e os uberizados de hoje ocupam posições formalmente análogas – sem patrão direto, pagos por tarefa, produzindo para classes abastadas-, mas divergem estruturalmente em capacidade política. Os uberizados têm baixa qualificação técnica, estão dispersos no espaço urbano, são comandados por algoritmos obscuros e submetidos a uma concorrência permanente que destrói qualquer expectativa de solidariedade e de organização política estável.
À época da eclosão dos conflitos de Croix-Rousse, Marx e Engels eram crianças ainda. A chamada “esquerda” era representada por Saint Simon, Charles Fourier e Robert Owen. Discursos igualitaristas na França eram difusos. A Revolta dos Canuts, assim, é pré-marxista, corporativista, e não comunista. Seria anacrônico qualificar essa revolta como produto do marxismo. Ela é um evento autônomo e inaugural da luta de classes industrial.
Em novembro de 1831, os tecelões de seda reivindicavam a fixação de um valor mínimo por peça, diante do aumento da miséria. A tabela foi aceita pelo prefeito e pelo Conselho de Proud’hommes, mas recusada pelos négociants. A gota d’água vem quando o governo central invalida a tabela em nome da liberdade contratual. Em 21 de novembro de 1831, os canuts confrontam com a Guarda Nacional, armam-se e erguem barricadas na Croix-Rousse, tomando a cidade e derrotando as tropas locais. Os confrontos resultam em cerca de 40 mortes. Vem daí a célebre frase: Vivre en travaillant où morrir en combatant. Poucos dias mais tarde, porém, o governo central envia 20.000 soldados sob o comando do Marechal Nicolas Jean-de-Dieu Soult, Ministro da Guerra, por ordem do rei Louis Philippe. A cidade é retomada sem resistência ou qualquer baixa, restando anuladas quaisquer concessões aos tecelões, O pior, porém, ainda estaria por vir no ano de 1834.

Após a retomada do poder, Lyon será vitimada por uma epidemia de cólera em 1832, que atingirá sobretudo a população pobre de Croix-Rousse, Guillotière e Vieux Lyon, causando a morte de mais de 3000 pessoas, sobretudo os mais humildes. A repressão política, por outro lado, transfere os debates entre os canuts para a clandestinidade. A mistura é explosiva: de um lado, a sensação de abandono provocada pela crise sanitária e, de outro, a intolerância estatal, com o que ocorre uma clara mudança no tom reivindicatório em clubes operários e sociedades secretas republicanas, como a Societé des Droits de l’Homme (SDH), seção de Lyon, formada por canuts, tipógrafos, pequenos artesãos e estudantes. Em 1832, o governo dissolve por decreto todos os clubes políticos, casos do Club de la Croix-Rousse. Estas organizações eram formalmente masculinas, mas as mulheres ocupavam funções específicas, como hospedagem e logística. Nos clubes de leitura, elas eram mais aceitas, em especial, nas leituras coletivas e debates informais. Relatos policiais de 1833 mencionam Réunions mixtes d’ouvriers et d’ouvrières. Nos autos de 1834, há menção a dezenas de mulheres acusadas de esconder armas, transmitir mensagens e abrigar reuniões. Não eram consideradas membros dos canuts, mas operavam na infraestrutura política.
Em março de 1834 são editadas novas leis reprimindo fortemente os direitos de associação e de imprensa, o que provoca protestos por todas a França. Em Lyon, no dia 09 de abril, confrontos com a polícia e a Guarda Nacional degeneram em tiroteios. Passados três anos da primeira revolta, o confronto agora não é mais de caráter meramente corporativo, mas altamente politizado e antimonárquico. Os combates urbanos prosseguem por vários dias culminando com centenas de mortes, milhares de presos e o esmagamento da organização operária lionesa.

Lyon, 24 de janeiro de 2026
Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Membro do IBAP. Escreve regularmente todo o dia 24 do mês.










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